Escritas

Elegia 1938

Carlos Drummond de Andrade Ano: 20103
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
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Comentários (5)

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Jao
Jao
2025-08-09

Topzera mano, continue assim q tem futuro

Rodrigo
Rodrigo
2025-03-04

Canetada

FRANCISLEI
FRANCISLEI
2025-02-26

Parabéns

Luisa
Luisa
2024-04-15

Gostei

Eliezer
Eliezer
2021-11-10

Poema muito bom, parabéns, amassou demais sss, sempre muito insano Carlinhos