Escritas

O Lamento das Coisas

Augusto dos Anjos
Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!

É a dor da Força desaproveitada,
— O cantochão dos dínamos profundos.
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!

É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza...
Da luz que não chegou a ser lampejo...

E é, em suma, o subconsciente aí formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!

Rio, 1914


Publicado no livro Eu: poesias completas (1920). Poema integrante da série Outras Poesias.

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.159. (Ensaios, 32
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Comentários (2)

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Antônio Jari dos Santos
Antônio Jari dos Santos
2020-12-22

Magnífica, linda.

Andy Cruel
Andy Cruel
2020-07-20

Isso não é um soco na cara, mas um tiro de bazuca.