Escritas

Dá-me a tua mão

Clarice Lispector
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

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Toíta
Toíta
2011-01-30

D&aacute;-me a tua m&atilde;o<br /> - Toma, dulc&iacute;ssima senhora.<br /> Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.<br /> - Lendo assim o termo "inexpressivo", vem logo &agrave; mente aquilo que &eacute; sem cor nem sabor, destinto e insulso. Como pode ter sido essa a tua busca cega e secreta, quando, ao que parece, todos buscamos o "expressivo", o tinto e o saboroso?&nbsp; Expressar &eacute; espremer, que &eacute; igual a exprimir, que, por sua vez, evoca uma for&ccedil;a que empurra algo para fora.. Normalmente, dado o esfor&ccedil;o da compress&atilde;o, espera-se que venha &agrave; tona um suculento sumo, uma subst&acirc;ncia essencial. Mas n&atilde;o, mesmo espremendo, n&atilde;o esperas encontrar nada de essencial nos seres, apenas alguns acidentes (retomando o palavreado aristot&eacute;lico). Desististe da busca do essencial, dada a incapacidade humana de captur&aacute;-lo, e agora te satisfazes com o acidental? Disso &eacute; feito o nome de Mod&eacute;stia? Pareceu-me!<br /> De como entrei naquilo que existe entre o n&uacute;mero um e o n&uacute;mero dois, de como vi a linha de mist&eacute;rio e fogo, e que &eacute; linha sub-rept&iacute;cia.<br /> - Entre o&nbsp;1 e o 2 deita-se e deleita-se o infinito, o sem -fim que escapa &agrave; nossa intelec&ccedil;&atilde;o. Passar&iacute;amos toda a eternidade a contar os n&uacute;meros que moram entre os dois n&uacute;meros, do mesmo modo como infinita &eacute; a dist&acirc;ncia entre duas pessoas. &Eacute; intrigante - misterioso e &iacute;gneo - como pulamos do 1 ao 2, passando por cima dessa sub-rept&iacute;cia linha do infinito, do mesmo modo como uma primeira pessoa faz com uma segunda. Num salto indevido, imagina-se ter apreendido a ess&ecirc;ncia do outro quando, na verdade,&nbsp;captamos apenas acidentes de somenos import&acirc;ncia. Entre o 1 e o 2, jaz sub-repticiamente a linha do infinito; entre uma pessoa e uma outra, enfatize-se mais o mist&eacute;rio (fechado &agrave; compreens&atilde;o) e o fogo (que purifica, mas tamb&eacute;m destr&oacute;i).<br /> Entre duas notas de m&uacute;sica existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois gr&atilde;os de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espa&ccedil;o, existe um sentir que &eacute; entre o sentir - nos interst&iacute;cios da mat&eacute;ria primordial est&aacute; a linha de mist&eacute;rio e fogo que &eacute; a respira&ccedil;&atilde;o do mundo, e a respira&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua do mundo &eacute; aquilo que ouvimos e chamamos de sil&ecirc;ncio.<br /> - Eu sabia: ao pedires a minha m&atilde;o e ao falares da tua busca pelo "inexpressivo", estavas sendo apenas modesta. Rel&ecirc; o teu par&aacute;grafo acima, Lispector, rel&ecirc;. E a&iacute; se v&ecirc; sob&nbsp;luz meridiana que buscas o primordial, a ess&ecirc;ncia mesma dos seres, do Ser. No piano, ao que sei, entre duas teclas brancas existe a preta (que &eacute; o semitom que conduz ao tom seguinte). Mas isso n&atilde;o &eacute; viol&ecirc;ncia ao infinito de tons que existe entre duas notas? Sim, sens&iacute;vel senhora, entre duas notas tamb&eacute;m se deita e se deleita o infinito, essa linha sub-rept&iacute;cia de mist&eacute;rio e fogo. Tamb&eacute;m entre dois fatos reside um infinito de fatos. Entre dois gr&atilde;os de areia, al&eacute;m de infinitos , invis&iacute;veis outros gr&atilde;os, protende o espa&ccedil;o do tamanho daquele que separa o 1 do 2 ou&nbsp;uma pessoa da outra. Iria ainda mais longe, minha senhora: entre o denso e o sutil no talado &aacute;tomo tamb&eacute;m habita o mesmo espa&ccedil;o infinito, a mesma linha sub-rapt&iacute;cia. Entre um sentimento e outro, por mais similares que possam ser, tamb&eacute;m se encontra n&atilde;o apenas um outro sentir, mas a mir&iacute;ade ilimitada de outros sentires. Entre dois objetos, fen&ocirc;menos, eventos, situa&ccedil;&otilde;es, viv&ecirc;ncias, em suma, entre o 1 e o 2, minha senhora (permite-me alargar as tuas coloca&ccedil;&otilde;es) erige-se o Templo do&nbsp;Infinito. Assim como entre dois sons - humanos ou n&atilde;o - estende-se o espa&ccedil;o do sil&ecirc;ncio (e da sua infinita eloqu&ecirc;ncia), do mesmo modo entre uma respira&ccedil;&atilde;o e outra do Infinito que anima toda a mat&eacute;ria (e seus infinitesimais interst&iacute;cios), reside o&nbsp;Seu sil&ecirc;ncio, a Sua aparente aus&ecirc;ncia, oculta&ccedil;&atilde;o. Dir-se-ia que a eloqu&ecirc;ncia divina se manifesta n&atilde;o apenas pela cria&ccedil;&atilde;o dos seres, mas especialmente pelo calar do Ser, pelo sil&ecirc;ncio do Ser? Senhora, est&aacute;s dizendo que Deus, que d&aacute; sopro (esp&iacute;rito) ao mundo, &eacute; fundamentalmente Sil&ecirc;ncio? Que diante do Seu mist&eacute;rio de fogo, &eacute; melhor calar e apenas senti-Lo como Sil&ecirc;ncio no sil&ecirc;ncio? Falar sobre a respira&ccedil;&atilde;o silenciosa que mant&eacute;m vivo o mundo &eacute; "inexpressivo", senhora?&nbsp;N&atilde;o, Lispector, o&nbsp;teu poema, compacto e profundo, &eacute; a busca po&eacute;tica e atormentada da Alma pela Respira&ccedil;&atilde;o, pela Imortalidade.<br /> Eu sabia, eu sabia que era pura mod&eacute;stia os teus pequeninos, infinitos proleg&ocirc;menos<br /> &nbsp;