Escritas

Lista de Poemas

Cidade Nua

Convulsa verdade
flutua no ar frio
da cidade avulsa.

A cidade ulula
sob a verdade
que não é sua...

A alma nua
largou o corpo
ocioso na rua
a chapinhar
na água da chuva.

É água suja,
condensa e resídua
verdade
que flutua
sobre a cidade
crua.

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Sonho Anfíbio

Viver na espuma das ondas
o meu sonho de mar.
Beijar a língua de areia
e refluir
nas ondas submissas
para voltar
a percorrer o sonho
a vida inteira
entre a terra e o porvir.

E viver na espuma das ondas
sem ter pátria no tempo
na saudade sem lar.

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Acto de Contrição

Não tenho direito à prece,
nem mereço o teu perdão;
Nada fiz para morrer
de farda e arma na mão...

Perdi horas em conversa
passei dias a pensar
em arremedos de guerra,
perdi a vontade imersa
no desejo de lutar...

Troquei os sonhos por tiros
que não dei nem deixei dar!...
Gastei pedações de vida,
e fiz com eles as flores
de renúncia e omissão...

Perdi a terra e o mar,
fiquei sem voz pra cantar
a minha libertação!...

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Manifesto 2 - Contra o Medo e a Dúvida

Parto em segredo.

Descubro - horas mortas -

no meu Reino, o medo

e a vigília absorta

na dúvida,

que tarde ou cedo,

bate à minha porta!

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Viagem de Reconhecimento

Procuro-me convicto
na luxúria tropical.
No corpo líquido
de minhas odisséias
no cerne de meu habitat
vegetal.

E só encontro areias,
arestas e restos de epopéias,
e velhos guerreiros
amarrados às ameias
de meus sonhos jovens de cristal.

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Carta Aberta ao Homem Novo

Irmão que não conheço
e a quem não peço
a identidade.

Homem de qualquer cidade
a tua cor desconheço
e não peço a tua condição.

Procuro na palavra exacta
a ponte em que atravesso
o abismo da indeferença
que nos separa
em margens sem acesso.

Procuro no olhar adverso
o espaço, a nesga aberta
no teu coração hermético
para apoiar meu verso.

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Desencanto

Eu canto o canto
do meu desencanto.

Eu canto a lua
de pele manchada,
despudorada
com astronautas
de quarto em quarto
e nua.

E canto o medo
e as pequenas covardias
que no dia a dia,
em segredo,
fazem as minhas heresias.

Canto o tempo esgotado,
porque, na hora,
o deserto é pranto.
E o meu corpo chora
sem o recado,
que sublimará o meu canto.

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Monólogo em Noite sem Estrelas

Da pátria chegam as noites
como semáforos vermelhos
a interromper o caminho
por onde me afoito.

E o jogo de palavras
percorre o tempo
à procura de um sonho entorpecido.

O continente esvazia-se
e flutua sobre pélagos
gelados:
só contém loucura
e sonhos sufocados.

Emergem estranhos arquipélagos
de um estranho rito
de anjos mascarados.

As estrelas apagam suas luzes
e o céu dorme às escuras
na longa noite sem poemas.

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Manifesto 3 - Contra o Número

Qualquer lugar
é destino
para quem não quer ficar.

Eu vou
porque estou cansado de esperar
nesta indiferença.
Alquimia de esperança
que vem da fé
que me conforma
e que adoça e amansa
a alma do guerreiro
dividida
entre a renúncia e a lança!...

Vou, porque não suporto
o hálito podre que exala
do respirar colectivo da Cidade
e do sonho frustrado
que a embala.

Vou, porque tudo é vulgaridade.
Vou, porque se eu protestar
será contra a Humanidade.
E ela é número
e ela é erro
em quantidade...
Ela é maioria
ela é a "Cidade"!...
em sua soberana fantasia.

E eu não suporto o desterro
de ser vivo em minoria...

Eu vou porque não quero ser número
à esquerda ou à direita
deste silencioso túmulo
colectivo, uniforme, inseguro.

De ferro frio, como o aço
da lança que eu não uso...

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Despertar

Sonhei com barcos

e velas

navegando no meu quarto.

Em cada vela a promessa

de novos sonhos

no mar...

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