Reynaldo Jardim

Reynaldo Jardim

1926–2011 · viveu 84 anos BR BR

Reynaldo Jardim é um poeta, ensaísta e tradutor brasileiro, conhecido por sua obra que transita entre a reflexão filosófica e a experimentação formal. Sua poesia se caracteriza pela densidade intelectual e pela exploração de temas universais como o tempo, a memória e a condição humana, frequentemente através de uma linguagem que desafia as convenções. Jardim também se destaca por sua atuação como crítico literário e por suas traduções de autores estrangeiros. Sua obra representa uma importante contribuição para a poesia contemporânea em língua portuguesa, marcada pela erudição e pela busca incessante de novas formas de expressão.

n. 1926-12-13, São Paulo · m. 2011-02-02, Brasília

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A coisa útil

Um fruto (ou mesmo o pão)
é útil à proporção que alimenta.
A couve-flor (ou mesmo o ar)
é bela porque germina.
Assim o trigo e o canavial,
o café e o porto,
a mulher e o tempo.
Sementes de gordos horizontes.
Comei deste poema
um gomo ou a laranja integral.
O pó não alimenta,
mas na terra o pasto viceja.
No pensamento vazio nada vive,
mas onde houver substância,
ali o alimento existe.
Mastigai o poema,
com casca, polpa, germens, ácidos.
Os resíduos seguirão o doloroso fim.
A seiva enriquecerá teu plasma sanguíneo:
em ferro e iodo,
em sol e tempo
e horizontes palpáveis.
Uma fruta (ou mesmo a harmonia),
o agrião, as greves e as alfaces,
- palavras indigestas à poesia…
No entanto, o nutritivo poema se fermenta
e sobre cidades, soldado, fábrica, menino,
explica a anemia,
nutre a revolução.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Reynaldo Jardim é um poeta, ensaísta, tradutor e crítico literário brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro e é uma figura significativa na literatura contemporânea em língua portuguesa. Sua obra se destaca pela profundidade intelectual e pela constante exploração da linguagem poética.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância de Reynaldo Jardim não são amplamente divulgadas. Sabe-se, no entanto, que sua formação intelectual é sólida, com grande interesse pela filosofia, literatura e artes em geral, o que se reflete na complexidade de seus textos.

Percurso literário

O percurso literário de Reynaldo Jardim é marcado por uma produção consistente em poesia e ensaio, além de uma importante atividade como tradutor. Desde o início de sua carreira, demonstrou uma inclinação para a experimentação e a reflexão, buscando uma linguagem poética que pudesse abarcar as complexidades do mundo moderno. Sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo, contudo, uma linha de coerência temática e estilística.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Reynaldo Jardim é conhecida por sua densidade intelectual, frequentemente abordando temas filosóficos e existenciais como o tempo, a memória, a identidade e a finitude. Seu estilo é marcado pela experimentação formal, pela ruptura com a sintaxe convencional e pela exploração de um vocabulário preciso e, por vezes, erudito. O verso livre é predominante, mas com uma musicalidade e um ritmo próprios, que conferem à sua poesia uma cadência particular. O tom de sua obra pode variar entre o lírico, o reflexivo e o contemplativo, com uma voz poética que busca desvelar as profundezas da experiência humana. Jardim dialoga com a tradição poética, mas também com as vanguardas e a filosofia, propondo uma renovação da linguagem poética contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Reynaldo Jardim insere-se no contexto da produção literária brasileira e lusófona contemporânea, dialogando com outros escritores e intelectuais de sua geração e de gerações posteriores. Sua obra reflete as inquietações e os debates culturais do Brasil e do mundo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Reynaldo Jardim não são amplamente divulgados, mas sua obra sugere uma vida dedicada ao estudo, à escrita e à reflexão.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Reynaldo Jardim tem sido reconhecida pela crítica especializada por sua originalidade, profundidade e rigor formal. Sua poesia é valorizada pela capacidade de instigar o leitor à reflexão e pela inovação linguística.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Reynaldo Jardim abrangem a filosofia, a literatura universal e a própria tradição poética brasileira. Seu legado reside na sua contribuição para a renovação da poesia em língua portuguesa, abrindo novos caminhos para a expressão lírica e intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Reynaldo Jardim oferece um vasto campo para interpretação crítica, com suas camadas de significado e sua complexidade estrutural. As análises frequentemente se concentram na relação entre linguagem, pensamento e experiência existencial em sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Como tradutor, Reynaldo Jardim tem um papel importante na divulgação de obras literárias estrangeiras no Brasil, ampliando o diálogo cultural. Sua dedicação à poesia e ao ensaio demonstra um compromisso profundo com a arte e o pensamento.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Reynaldo Jardim está vivo e continua a produzir e a divulgar sua obra, sendo uma referência ativa na cena literária contemporânea.

Poemas

8

O que se odeia no índio

O que se odeia no índio
não é apenas o ocupado espaço.
O que se odeia no índio
é o puro animal que nele habita,
é a sua cor em bronze arquitetada.
A precisão com que a flecha voa
e abate a caça; o gesto largo
com que abraça o rio; o gosto de
afagar as penas e tecer o cocar;
O que se odeia no índio
é o andar sem ruído; a presteza
segura de cada movimento; a eugenia
nítida do corpo erguido
contra a luz do sol.
O que se odeia no índio é o sol.
A árvore se odeia no índio.
O rio se odeia no índio.
O corpo a corpo com a vida
se odeia no índio.
O que se odeia no índio
é a permanência da infância.
E a liberdade aberta
se odeia no índio.
997

Receituário

De que fel preparava
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
703

Desamores

Quero me despojar
de tudo o que não tenho.
Limpar meus horizontes
de artes e de engenho.
Quero me desfazer
de tudo o que não tive.
A certeza certeira
de quem viveu não vive.
Quero me entristecer
de alegria e calma.
Olhar no espelho e ver
a cara de minha alma.
E quero dessofrer
o que nunca sofri.
O gosto do prazer:
sumo de sapoti.
614

Não somos um

Não lhe direi o impossível,
a verdade alastrou-me:
o seu valor equivale
à densidade dos outros.
Não somos um. Que outrora
éramos um, ou pensamos
sermos eu, você, o outro,
três elementos distintos.
Cada movimento teu
altera, sem restrição,
o passo próximo dado
pelo seu pai ou amigo.
A função é coligada,
contínua, una, solúvel,
se arrebentarmos todos,
você se dissolverá.
Calarei o impossível
a multidão alastrou-me.
O meu valor equivale
à conjunta redenção.
705

Brilhos

A palavra brilha
(repentina brilha)
onde repentina
fulgurante brilha?
Na boca do estômago,
na garganta seca,
no ar respirado,
na vulva, na teta.
Onde dá o bote
e sacode o guizo?
Na fronte, na mente,
lábios ou juízo?
É a castanhola?
Cascavel safada?
— Crótalo!
E a sua faca
já está cravada.
761

O bom cabrito não berra

- O bom cabrito não berra,
o bom malandro não estrila,
o bom aluno não erra,
o bom humor desopila,
o bom cantador não teme
nem o Martinho da Vila.


- O bom cabrito não berra
porque não tem berrador.
O bom malandro não estila
porque sabe que o amor
consegue tudo o que quer,
cachaça, pão e mulher
na medida, peso e cor.


- O bom aluno não erra
e errando é que se aprende.
O erro de não errar
é que nunca se compreende
os erros de quem acerta
comprando o que não se vende,
vendendo que não se compra,
apagando o que se acende,
acendendo o que se apaga
sem nunca dizer: depende.


- O bom humor desopila
se for melhor, faz pensar
porque mantém chama viva
a verdade popular.
Coelho, Pato ou Galinha
humorista de verdade
nunca se há de chamar.
O melhor humor responde
Pelo nome de Jaguar.*


- O bom cantador não teme
porque se temer não canta.
E se cantar desafina
o som preso na garganta.
E o povo logo atina
com o medo do cantador
que em vez de cantar a vida
canta sua própria dor.


- Se o bom cabrito não berra
de berrar eu sou capaz.
Se o bom malandro não estrila
passo o malandro pra trás.
Se o bom aluno não erra
eu não erro muito mais.
Se o bom cantador não teme
de temer eu sou capaz.
781

A coisa útil

Um fruto (ou mesmo o pão)
é útil à proporção que alimenta.
A couve-flor (ou mesmo o ar)
é bela porque germina.
Assim o trigo e o canavial,
o café e o porto,
a mulher e o tempo.
Sementes de gordos horizontes.
Comei deste poema
um gomo ou a laranja integral.
O pó não alimenta,
mas na terra o pasto viceja.
No pensamento vazio nada vive,
mas onde houver substância,
ali o alimento existe.
Mastigai o poema,
com casca, polpa, germens, ácidos.
Os resíduos seguirão o doloroso fim.
A seiva enriquecerá teu plasma sanguíneo:
em ferro e iodo,
em sol e tempo
e horizontes palpáveis.
Uma fruta (ou mesmo a harmonia),
o agrião, as greves e as alfaces,
- palavras indigestas à poesia…
No entanto, o nutritivo poema se fermenta
e sobre cidades, soldado, fábrica, menino,
explica a anemia,
nutre a revolução.
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Maternal

la se deita,
Diz que não se importa
E deixa a porta
Escancarada e nua
Ela projeta
Uma sombra torta,
Iluminada pela luz da rua.
A lua bate e ela
se comporta
Como se a lua fosse
Seu cachorro
que amestrado
Lhe beijasse a boca,
que sensitivo
Lhe aplacasse o choro.
E esse quarto
vira uma loucura
de bocas,de cachorro
de ternuras
de luas espalhadas
Água em chamas.
No incêndio dourado
de seus pêlos
queimam-se desvarios
e desvelos.
O mel de leite
Brota em suas mamas.
833

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