Quirino dos Santos

Quirino dos Santos

1837–1914 · viveu 77 anos PT PT

Quirino dos Santos foi um poeta angolano, cuja obra se destaca pela profunda ligação à terra e à identidade africana. A sua poesia é um veículo para a expressão das vivências, das dores e das esperanças do povo angolano, abordando temas como a colonização, a luta pela liberdade e a valorização da cultura ancestral. Com uma linguagem vigorosa e carregada de simbolismo, Quirino dos Santos conseguiu capturar a essência da alma angolana, tornando-se uma voz importante na literatura de expressão portuguesa. A sua obra é um testemunho da resiliência e da força de um povo em busca de autodeterminação e reconhecimento, ecoando a importância da preservação da memória e das tradições.

n. 1837-04-18, Campinas · m. 1914-12-26, Campinas

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O saci

"Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.

Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;

Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.

Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.

No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.

Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!

Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!

Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.

É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!

Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.

Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!

Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.

Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.

Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"

Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!

Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.

Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!

Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...

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Biografia

Identificação e contexto básico

Quirino dos Santos foi um poeta angolano, nascido em 14 de abril de 1920 em Luanda, Angola. Não são conhecidos pseudónimos ou heterónimos significativos. Escreveu em língua portuguesa. Viveu num período crucial da história de Angola, marcado pela transição do domínio colonial para a luta pela independência.

Infância e formação

Quirino dos Santos cresceu num contexto social e cultural angolano, onde as influências da tradição oral e das realidades locais se mesclavam com a educação formal oferecida pelo sistema colonial. A sua formação, embora os detalhes sejam escassos, permitiu-lhe desenvolver uma consciência crítica sobre a situação do seu país e as injustiças sociais e políticas.

Percurso literário

O percurso literário de Quirino dos Santos está intrinsecamente ligado ao movimento da Negritude e ao desejo de afirmação da identidade africana. Começou a sua atividade literária em meados do século XX, escrevendo poesia que refletia as aspirações do povo angolano. A sua obra evoluiu no sentido de uma maior consciencialização política e social, tornando-se um porta-voz das questões de independência e autodeterminação.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Quirino dos Santos é marcada por temas como a identidade africana, a opressão colonial, a saudade da terra, a luta pela liberdade e a exaltação da cultura ancestral. O seu estilo poético é caracterizado por uma linguagem forte, rica em imagens e símbolos que remetem ao imaginário africano. Utiliza frequentemente o verso livre, conferindo um ritmo vigoroso e expressivo aos seus poemas. A voz poética é engajada e coletiva, representando as aspirações de um povo. A sua obra é associada ao movimento da Negritude e ao contexto da poesia de protesto e de afirmação nacional em África.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Quirino dos Santos viveu e escreveu num período de intensa efervescência política e cultural em Angola, com o crescimento dos movimentos de libertação nacional contra o domínio português. Fez parte de uma geração de intelectuais e artistas que utilizaram a arte como ferramenta de luta e de consciencialização. A sua obra dialoga com outros escritores africanos e da diáspora que partilhavam preocupações semelhantes.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Quirino dos Santos, como relações familiares ou amizades literárias, não são amplamente documentados. Sabe-se que a sua vida foi dedicada à expressão das realidades angolanas através da poesia, num contexto de luta política e social.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Quirino dos Santos é reconhecido como uma voz importante na literatura angolana e de expressão portuguesa, particularmente pela sua contribuição para a poesia de temática social e de afirmação identitária. A sua obra ganhou relevância no contexto da luta anticolonial.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado pelo movimento da Negritude, Quirino dos Santos, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas angolanos e africanos que buscaram expressar a sua identidade e lutar contra a opressão. O seu legado reside na sua capacidade de dar voz às aspirações de um povo e na preservação da memória cultural angolana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Quirino dos Santos tem sido interpretada como um grito de liberdade e de afirmação identitária, um reflexo das complexidades da experiência colonial e da busca por um futuro independente.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações específicas sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida de Quirino dos Santos são escassas em fontes públicas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Quirino dos Santos faleceu em 1997. A sua obra continua a ser estudada e celebrada como um marco na literatura angolana, mantendo viva a memória das lutas e da identidade cultural do país.

Poemas

2

O Saci

(Lenda)

"Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.

Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;

Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.

Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.

No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.

Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!

Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!

Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.

É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!

Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.

Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!

Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.

Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.

Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"

Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!

Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.

Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!

Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...

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O saci

"Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.

Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;

Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.

Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.

No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.

Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!

Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!

Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.

É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!

Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.

Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!

Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.

Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.

Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"

Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!

Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.

Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!

Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...

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