Vento e Ar
Poemas neste tema
Federico García Lorca
Terra Seca
Terra seca
terra quieta
de noites
imensas.
(Vento na oliveira,
vento na serra.)
Terra
velha
do candil
e da pena.
Terra
das fundas cisternas.
Terra
da morte sem olhos
e as flechas.
(Vento dos caminhos.
Brisa nas alamedas.)
terra quieta
de noites
imensas.
(Vento na oliveira,
vento na serra.)
Terra
velha
do candil
e da pena.
Terra
das fundas cisternas.
Terra
da morte sem olhos
e as flechas.
(Vento dos caminhos.
Brisa nas alamedas.)
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11
Ruy Belo
A missão das folhas
Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
3 766
4
Sophia de Mello Breyner Andresen
Novembro
A respiração de Novembro verde e fria
Incha os cedros azuis e as trepadeiras
E o vento inquieta com longínquos desastres
A folhagem cerrada das roseiras
Incha os cedros azuis e as trepadeiras
E o vento inquieta com longínquos desastres
A folhagem cerrada das roseiras
4 981
3
Nuno Júdice
Mar
Ventos estáveis, gaivotas sobre
os molhes. A rebentação fixa-se
no ouvido. O som da água
nas fissuras da rocha, os gritos
que se perdem nas praias.
Barco ancorados
na floresta.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 37 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
os molhes. A rebentação fixa-se
no ouvido. O som da água
nas fissuras da rocha, os gritos
que se perdem nas praias.
Barco ancorados
na floresta.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 37 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 543
3
Fernando Pessoa
Redemoinha o vento,
Redemoinha o vento,
Anda à roda o ar.
Vai meu pensamento
Comigo a sonhar.
Vai saber na altura
Como no arvoredo
Se sente a frescura
Passar alta a medo.
Vai saber de eu ser
Aquilo que eu quis
Quando ouvi dizer
O que o vento diz.
01/09/1933
Anda à roda o ar.
Vai meu pensamento
Comigo a sonhar.
Vai saber na altura
Como no arvoredo
Se sente a frescura
Passar alta a medo.
Vai saber de eu ser
Aquilo que eu quis
Quando ouvi dizer
O que o vento diz.
01/09/1933
5 719
4
Cleonice Rainho
A Pipa e o Vento
Aprumo a máquina,
dou linha à pipa
e ela sobe alto
pela força do vento.
O vento é feliz
porque leva a pipa,
a pipa é feliz
porque tem o vento.
Se tudo correr bem,
pipa e vento,
num lindo momento,
vão chegar ao céu.
dou linha à pipa
e ela sobe alto
pela força do vento.
O vento é feliz
porque leva a pipa,
a pipa é feliz
porque tem o vento.
Se tudo correr bem,
pipa e vento,
num lindo momento,
vão chegar ao céu.
6 149
3
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Vento
O vento sopra contra
As janelas fechadas
Na planície imensa
Na planície absorta
Na planície que está morta,
E os cabelos do ar ondulam loucos
Tão compridos que dão a volta ao mundo.
Sento-me ao lado das coisas
E bordo toda a noite a minha vida
Aqueles dias tecidos
Que tinham um ar de fantasia
Quando vieram brincar dentro de mim.
E o vento contra as janelas
Faz-me pensar que eu talvez seja um pássaro.
As janelas fechadas
Na planície imensa
Na planície absorta
Na planície que está morta,
E os cabelos do ar ondulam loucos
Tão compridos que dão a volta ao mundo.
Sento-me ao lado das coisas
E bordo toda a noite a minha vida
Aqueles dias tecidos
Que tinham um ar de fantasia
Quando vieram brincar dentro de mim.
E o vento contra as janelas
Faz-me pensar que eu talvez seja um pássaro.
2 386
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Mandei Para o Largo o Barco Atrás do Vento
Mandei para o largo o barco atrás do vento
Sem saber se era eu o que partia.
Humilhei-me e exaltei-me contra o vento
Mas não houve terror nem sofrimento
Que à praia não trouxesse
Morto o vento.
Sem saber se era eu o que partia.
Humilhei-me e exaltei-me contra o vento
Mas não houve terror nem sofrimento
Que à praia não trouxesse
Morto o vento.
2 337
2
Guilherme de Almeida
Maxixe
O chocalho dos sapos coaxa
como um caracaxá rachado. Tudo mexe.
Um vento frouxo enlaga uma nuvem baixa
fofa. E desce com ela, desce.
E não a deixa e puxa-a como uma faixa
e espicha-se e enrolam-se. E o feixe rola
e rebola como uma bola
na luz roxa
da tarde oca
boba
chocha.
como um caracaxá rachado. Tudo mexe.
Um vento frouxo enlaga uma nuvem baixa
fofa. E desce com ela, desce.
E não a deixa e puxa-a como uma faixa
e espicha-se e enrolam-se. E o feixe rola
e rebola como uma bola
na luz roxa
da tarde oca
boba
chocha.
3 718
2
Ricardo Akira Kokado
Primavera
Nuvens de chuva
a brisa enruga os espelhos
na primavera
a brisa enruga os espelhos
na primavera
812
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Evadir-Me, Esquecer-Me, Regressar
Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
2 086
1
Beto Caloni
Haicai
Vento no madrigal:
copio o som que sopra
no verde canavial.
A vaga da lua
me despenteia;
nem por isso me sinto feia.
copio o som que sopra
no verde canavial.
A vaga da lua
me despenteia;
nem por isso me sinto feia.
979
1
Fernando Pessoa
Gradual, desde que o calor
Gradual, desde que o calor
Teve medo,
A brisa ganhou alma, à flor
Do arvoredo.
Primeiro, os ramos ajeitaram
As folhas que há,
Depois, cinzentas, oscilaram,
E depois já
Toda a árvore era um movimento
E o fresco viera.
Medita sem ter pensamento!
Ignora e spera!
31/08/1930
Teve medo,
A brisa ganhou alma, à flor
Do arvoredo.
Primeiro, os ramos ajeitaram
As folhas que há,
Depois, cinzentas, oscilaram,
E depois já
Toda a árvore era um movimento
E o fresco viera.
Medita sem ter pensamento!
Ignora e spera!
31/08/1930
4 430
1
Fernando Pessoa
Fúria nas trevas o vento
Fúria nas trevas o vento
Num grande som de alongar.
Não há no meu pensamento
Senão não poder parar.
Parece que a alma tem
Treva onde sopre a crescer
Uma loucura que vem
De querer compreender.
Raiva nas trevas o vento
Sem se poder libertar.
Estou preso ao meu pensamento
Como o vento preso ao ar.
23/05/1932
Num grande som de alongar.
Não há no meu pensamento
Senão não poder parar.
Parece que a alma tem
Treva onde sopre a crescer
Uma loucura que vem
De querer compreender.
Raiva nas trevas o vento
Sem se poder libertar.
Estou preso ao meu pensamento
Como o vento preso ao ar.
23/05/1932
4 785
1
Valter Hugo Mãe
se o vento é a ignição
se o vento é a ignição
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina
999
Sérgio Medeiros
O que flutua
– a folha no chão é tal
qual a casca de uma banana
muito madura de
um marrom-escuro
mas de repente é
empurrada pelo vento
e flutua rente ao chão
indo embora loucamente
qual a casca de uma banana
muito madura de
um marrom-escuro
mas de repente é
empurrada pelo vento
e flutua rente ao chão
indo embora loucamente
697
Marina Colasanti
SOBRE FUNDO AZUL
O homem-asa brinca no sudoeste.
Incrédulo. Umm helicóptero
lhe inveja a cor e o silêncio.
Incrédulo. Umm helicóptero
lhe inveja a cor e o silêncio.
1 018
Pablo Neruda
V - A ilha
Todas as ilhas do mar foram feitas pelo vento.
Mas aqui, o coroado, o vento vivo, o primeiro,
fundou sua casa, fechou as asas, viveu:
a mínima Rapa Nui repartiu seus domínios,
soprou, inundou, manifestou seus dons
até o Oeste, até o Este, até o espaço unido
até que estabeleceu germes puros,
até que começaram as raízes.
Mas aqui, o coroado, o vento vivo, o primeiro,
fundou sua casa, fechou as asas, viveu:
a mínima Rapa Nui repartiu seus domínios,
soprou, inundou, manifestou seus dons
até o Oeste, até o Este, até o espaço unido
até que estabeleceu germes puros,
até que começaram as raízes.
1 104
José Saramago
O Beijo
Hoje, não sei porquê, o vento teve um grande gesto de renúncia, e as árvores aceitaram a imobilidade.
No entanto (e é bem que assim seja) uma viola organiza obstinadamente o espaço da solidão.
Ficamos sabendo que as flores se alimentam na fértil humidade.
É essa a verdade da saliva.
No entanto (e é bem que assim seja) uma viola organiza obstinadamente o espaço da solidão.
Ficamos sabendo que as flores se alimentam na fértil humidade.
É essa a verdade da saliva.
1 199
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Praia Lisa de Eurydice Morta
As ondas arqueadas como cisnes
As espumas do mar escorrem sobre um vidro
Num gesto solitário passam as gaivotas.
Endymion ressurge dos destroços
Os pinheiros gemem na duna deserta
O lírio das areias desabrocha
O vento dobra os ramos da floresta.
As espumas do mar escorrem sobre um vidro
Num gesto solitário passam as gaivotas.
Endymion ressurge dos destroços
Os pinheiros gemem na duna deserta
O lírio das areias desabrocha
O vento dobra os ramos da floresta.
1 153
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Minha Esperança Mora
No vento e nas sereias —
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias.
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias.
1 473
Sophia de Mello Breyner Andresen
Luar
O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.
1 318
António Ramos Rosa
Mediadora do Vento
Ligeira sobre o dia
ao som dos jogos,
desliza com o vento
num encantado gozo.
Pelas praias do ar
difunde-se em prodígios.
Tudo é acaso leve,
tudo é prodígio simples.
Pequena e magnífica
no seu amor volante
propaga sem destino
surpresas e carícias.
Pátria, só a do vento
de tão subtil e viva.
Azul, sempre azul
em completa alegria.
ao som dos jogos,
desliza com o vento
num encantado gozo.
Pelas praias do ar
difunde-se em prodígios.
Tudo é acaso leve,
tudo é prodígio simples.
Pequena e magnífica
no seu amor volante
propaga sem destino
surpresas e carícias.
Pátria, só a do vento
de tão subtil e viva.
Azul, sempre azul
em completa alegria.
866
António Ramos Rosa
Entre Mar E Sombra a Delícia
Entre mar e sombra a delícia
de um vento que abre um espaço original.
de um vento que abre um espaço original.
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