Traição e Desilusão
Poemas neste tema
Silvaney Paes
Espicaçada
Árvore
Espicaçada
Verte Seiva
Branca, Alva.
Saudade Espicaçada
Verte Água
Luminosa, Clara.
Traição Espicaçada
Verte Raiva
Densa, Descontrolada.
Paixão Espicaçada
Verte Amor
Calor na Madrugada
Amizade Espicaçada
Verte Tudo
Amor, saudade e Lágrima
Espicaçada
Verte Seiva
Branca, Alva.
Saudade Espicaçada
Verte Água
Luminosa, Clara.
Traição Espicaçada
Verte Raiva
Densa, Descontrolada.
Paixão Espicaçada
Verte Amor
Calor na Madrugada
Amizade Espicaçada
Verte Tudo
Amor, saudade e Lágrima
1 098
4
Florbela Espanca
Verdades Cruéis
Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.
Hoje amam, amanhã ’squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!...
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.
Hoje amam, amanhã ’squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!...
2 925
2
Ronald de Carvalho
Epigrama
Enche o teu copo, bebe o teu vinho,
enquanto a taça não cai das tuas mãos...
Há salteadores amáveis pelo teu caminho.
Repara como é doce o teu vizinho,
repara como é suave o olhar do teu vizinho,
e como são longas, discretas, as suas mãos...
enquanto a taça não cai das tuas mãos...
Há salteadores amáveis pelo teu caminho.
Repara como é doce o teu vizinho,
repara como é suave o olhar do teu vizinho,
e como são longas, discretas, as suas mãos...
3 494
2
Marly de Oliveira
Pior que o cão é sua fúria
Pior que o cão é sua fúria,
pior que o gato é sua garra,
pior que a sanha de ferir
a que se esconde
sob feição de amor.
Pior que a vida é a não-vida
do que se faz espectador;
nem mergulha, nem nada, nem conhece
o mar fundo:
está sempre à beira da estrada.
pior que o gato é sua garra,
pior que a sanha de ferir
a que se esconde
sob feição de amor.
Pior que a vida é a não-vida
do que se faz espectador;
nem mergulha, nem nada, nem conhece
o mar fundo:
está sempre à beira da estrada.
1 187
1
Golgona Anghel
Perfeitamente domesticada
Perfeitamente domesticada,
aparentando todo um rebanho de boas intenções,
atacava pela calada.
Desta vez, foi em pleno palco,
à frente de toda a gente.
Unhas e peles, braços em volta.
O bico dos abutres
a rasgar o dia em dois.
Ninguém gritou,
mas houve sangue.
Não me lembro se fui César,
se fui Bruto.
aparentando todo um rebanho de boas intenções,
atacava pela calada.
Desta vez, foi em pleno palco,
à frente de toda a gente.
Unhas e peles, braços em volta.
O bico dos abutres
a rasgar o dia em dois.
Ninguém gritou,
mas houve sangue.
Não me lembro se fui César,
se fui Bruto.
1 057
Affonso Romano de Sant'Anna
Pós-Amigo
Você sempre foi falso
e eu era seu amigo.
O que em mim era canção
era, em você, ruído.
Você inda distorce
qualquer coisa que digo.
Você persegue a glória
e se diz perseguido.
Como é falsa sua vida
meu dileto inimigo,
entre nós vai se abrindo
cada vez mais o abismo,
você é pós-moderno
e eu sou pré-antigo.
e eu era seu amigo.
O que em mim era canção
era, em você, ruído.
Você inda distorce
qualquer coisa que digo.
Você persegue a glória
e se diz perseguido.
Como é falsa sua vida
meu dileto inimigo,
entre nós vai se abrindo
cada vez mais o abismo,
você é pós-moderno
e eu sou pré-antigo.
924
Martha Medeiros
agora eu sei como se sente
agora eu sei como se sente
uma noiva abandonada no altar
você podia tudo na minha vida
menos faltar
uma noiva abandonada no altar
você podia tudo na minha vida
menos faltar
1 054
Martha Medeiros
eu perguntava quantas foram
eu perguntava quantas foram
e você falava sobre o tempo
eu indagava quantas vezes
e você acendia outro cigarro
eu suplicava quantas mais
e você não respondia
pedia pra mudar de assunto
pra que pudesse mentir sobre outra coisa
e você falava sobre o tempo
eu indagava quantas vezes
e você acendia outro cigarro
eu suplicava quantas mais
e você não respondia
pedia pra mudar de assunto
pra que pudesse mentir sobre outra coisa
1 140
Martha Medeiros
não me traia
não me traia
nessas noites nupciais
em que sais com outras mulheres sem
que eu saiba
nessas noites nupciais
em que sais com outras mulheres sem
que eu saiba
1 097
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cânon
Sombrios profetas do exílio abandonai vosso vestido de cinza
Pois o Filho do Homem na véspera da sua morte
Se sentou à mesa entre os homens
E abençoou o pão e o vinho e os repartiu
E aquele que pôs com ele a mão no prato o traiu
E uma noite inteira no horto agonizou sozinho
Pois os seus amigos tinham adormecido
E no tribunal esteve só como todos os acusados da terra
E muitos o renegaram
E à hora do suplício ouviu o silêncio do Pai
Porém ao terceiro dia ergueu-se do túmulo
E partilhou a sua ressurreição com todos os homens
1993
Pois o Filho do Homem na véspera da sua morte
Se sentou à mesa entre os homens
E abençoou o pão e o vinho e os repartiu
E aquele que pôs com ele a mão no prato o traiu
E uma noite inteira no horto agonizou sozinho
Pois os seus amigos tinham adormecido
E no tribunal esteve só como todos os acusados da terra
E muitos o renegaram
E à hora do suplício ouviu o silêncio do Pai
Porém ao terceiro dia ergueu-se do túmulo
E partilhou a sua ressurreição com todos os homens
1993
1 192
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Veste Dos Fariseus
Era um Cristo sem poder
Sem espada e sem riqueza
Seus amigos o negavam
Antes do galo cantar
A polícia o perseguia
Guiada por Fariseus
O poder lavou as mãos
Daquele sangue inocente
Crucificai-o depressa
Lhe pedia toda a gente
Guiada por Fariseus
Foi cuspido e foi julgado
No centro duma cidade
Insultos o perseguiam
E morreu desfigurado
O templo rasgou seus véus
E Pilatos seus vestidos
Rasgaram seu coração
Maria Mãe de João
João Filho de Maria
A treva caiu dos céus
Sobre a terra em pleno dia
Nem uma nódoa se via
Na veste dos Fariseus
Sem espada e sem riqueza
Seus amigos o negavam
Antes do galo cantar
A polícia o perseguia
Guiada por Fariseus
O poder lavou as mãos
Daquele sangue inocente
Crucificai-o depressa
Lhe pedia toda a gente
Guiada por Fariseus
Foi cuspido e foi julgado
No centro duma cidade
Insultos o perseguiam
E morreu desfigurado
O templo rasgou seus véus
E Pilatos seus vestidos
Rasgaram seu coração
Maria Mãe de João
João Filho de Maria
A treva caiu dos céus
Sobre a terra em pleno dia
Nem uma nódoa se via
Na veste dos Fariseus
942
Sophia de Mello Breyner Andresen
Electra
Os muros da casa dos Manon escorrem sangue
E as árvores do jardim escorrem lágrimas.
O lago busca em vão o reflexo antigo duma infância
Que se tornou homens, mulheres, ódios e armas.
Numa janela aparecem duas mãos torcidas
E nos corredores ressoam as palavras
Da traição, da náusea, da mentira
E o tempo vestido de verde senta-se nas salas.
O rosto de Electra é absurdo.
Ninguém o pediu e não pertence ao jogo.
As suas mãos vingadoras destoam na conversa
Assustam a penumbra e ofendem o pecado.
E as árvores do jardim escorrem lágrimas.
O lago busca em vão o reflexo antigo duma infância
Que se tornou homens, mulheres, ódios e armas.
Numa janela aparecem duas mãos torcidas
E nos corredores ressoam as palavras
Da traição, da náusea, da mentira
E o tempo vestido de verde senta-se nas salas.
O rosto de Electra é absurdo.
Ninguém o pediu e não pertence ao jogo.
As suas mãos vingadoras destoam na conversa
Assustam a penumbra e ofendem o pecado.
1 301
Sophia de Mello Breyner Andresen
Meditação do Duque de Gandia Sobre a Morte de Isabel de Portugal
Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.
Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.
Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
4 220
Fernando Pessoa
Não me digas que me queres
Não me digas que me queres
Pois não sei acreditar.
No mundo há muitas mulheres
Mas mentem todas a par.
Pois não sei acreditar.
No mundo há muitas mulheres
Mas mentem todas a par.
693
Fernando Pessoa
Aparta o cabelo ao meio
Aparta o cabelo ao meio
A do cabelo apartado.
É a estrelinha em que leio
Que estou a ser enganado.
A do cabelo apartado.
É a estrelinha em que leio
Que estou a ser enganado.
1 346
Fernando Pessoa
Vejo lágrimas luzir
Vejo lágrimas luzir
Nos teus olhos de fingida.
É como quando à janela
Chegas, um pouco escondida.
Nos teus olhos de fingida.
É como quando à janela
Chegas, um pouco escondida.
1 338
Fernando Pessoa
Quem te deu aquele anel
Quem te deu aquele anel
Que ainda ontem não tinhas?
Como tu foste infiel
A certas ideias minhas!
Que ainda ontem não tinhas?
Como tu foste infiel
A certas ideias minhas!
1 199
Fernando Pessoa
Tu és Maria das Dores,
Tu és Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
1 491
Fernando Pessoa
Roçou-me
Roçou-me
O [...] pelo rosto o manto seu
E o seu manto é de Mal e Escuridão.
Coroou-me rei e a coroa que me deu
É um sinal de servidão.
O [...] pelo rosto o manto seu
E o seu manto é de Mal e Escuridão.
Coroou-me rei e a coroa que me deu
É um sinal de servidão.
1 341
Fernando Pessoa
Tinhas um vestido preto
Tinhas um vestido preto
Nesse dia de alegria...
Que certo! Pode pôr luto
Aquele que em ti confia.
Nesse dia de alegria...
Que certo! Pode pôr luto
Aquele que em ti confia.
1 634
Fernando Pessoa
Porque o olhar de quem não merece
Porque o olhar de quem não merece
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.
Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.
Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!
1 458
Fernando Pessoa
Tens uma salva de prata
Tens uma salva de prata
Onde pões os alfinetes...
Mas não tem salva nem prata
Aquilo que tu prometes.
Onde pões os alfinetes...
Mas não tem salva nem prata
Aquilo que tu prometes.
1 412
Caio Valério Catulo
LXX
Minha mulher diz que prefere ninguém mais
Do que eu para se casar, caso o próprio
Júpiter não se imponha. Assim ela tem dito:
Mas o que uma mulher diz ao amante
Apaixonado deveria ser escrito
Sobre o vento e na água torrencial.
Do que eu para se casar, caso o próprio
Júpiter não se imponha. Assim ela tem dito:
Mas o que uma mulher diz ao amante
Apaixonado deveria ser escrito
Sobre o vento e na água torrencial.
1 284
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