Trabalho e Profissão

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Lusitânia

Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.
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Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill

Velha Fábula em Bossa Nova

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

(-Obrigado,formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe...)
6 502 11
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Poema do Jornal

O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensangüentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.

Vem da sala de linotipos uma doce música mecânica
18 731 10
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Construção

Um grito pula no ar como foguete.
Vem da paisagem de barro úmido, caliça e andaimes hirtos.
O sol cai sobre as coisas em placa fervendo.
O sorveteiro corta a rua.

E o vento brinca nos bigodes do construtor.
18 487 8
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Rei de Ítaca

A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado
7 559 9
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

A raiz do linho

A raiz do linho
foi meu alimento,
foi o meu tormento.

Mas então cantava.
12 352 8
Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Os Andaimes

Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.


Publicado no livro Poesia Vária (1925). Poema integrante da série II. Parte: Os Meus Haikais.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
2 798 6
Érico Veríssimo

Érico Veríssimo

Haicai

Serviço Consular

Com cartas brancas,
senhor cônsul solta
Pombos de papel.

Gota de orvalho
na corola dum lírio:
Jóia do tempo.

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Daniel Faria

Daniel Faria

Explicação Do Poeta

Pousa devagar a enxada sobre o ombro
Já cavou muito silêncio
Como punhal brilha em suas costas
A lâmina contra o cansaço

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 950 5
Amaryllis Schloenbach

Amaryllis Schloenbach

Haicai

Angústia

O suor escorre
junto com as lágrimas
e o tempo.

Laborterapia

Rastrear adubo,
à tarde, no campo,
para as plantas da varanda.

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Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Ópera do Operário

A ópera
do operário
é um grito sem fim.

É um grito de paz
a ópera do
operário
que é poeta.

Poeta
que rima
a dor à agonia
seu salário à família.

Operário
poeta maior
de todos os dias.

Poeta da vida

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tu Sentado À Tua Mesa

Bebes vinho comes pão
Quem é que plantou a vinha?
Quem é que semeia o grão?

Lá no socalco da serra
Anda a cavar teu irmão
Debruçado sobre a terra
P’ra que tenhas vinho e pão

Para além daquela serra
P’ra que tenhas vinho e pão
Abrindo o corpo da terra
Dobra o corpo o teu irmão

Sua mão concha do cacho
Sua mão concha do grão
Em cada gesto que faz
Põe a vida em comunhão
1 886 1
Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

O Haikai

Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.


Publicado no livro Poesia Vária (1925). Poema integrante da série II. Parte: Os Meus Haikais.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
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Gil Nunesmaia

Gil Nunesmaia

Haicai

Regresso de pescadores

Desmaia o poente,
e sobre as ondas dançando
velas negrejando

Depois da chuva

O sol surge pálido,
e lágrimas de alegria
caem da folhagem

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Herberto Helder

Herberto Helder

Canções de Camponeses do Japão - Arrozal de Madrugada

Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
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Herberto Helder

Herberto Helder

Iii C

Em recessos, com picareta e pá, sem máscara, trabalha
na especialidade
do ouro:
e um corpo de astronomia,
travejado, violento, refractário, doendo, arrancado ao chão,
ilumina-se de si mesmo
— obreiro e obra são uma só forma instantânea
do verbo ouro nativo.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Dos Trabalhos do Mundo Corrompida

dos trabalhos do mundo corrompida
que servidões carrega a minha vida
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Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

Milena

gosto quando milena fala
dos homens
que comeu durante a noite

é a única voz soante
nesta cantina de repartição

onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril

sem a voz de milena
o café desce amargo
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Simone Brantes

Simone Brantes

Às vezes o corpo

Às vezes o corpo é batido
como roupa na máquina de lavar
você fez tantas coisas hoje em casa
que mereciam enriquecer
seu lattes
Mas essa é só a única maneira
que a alma tem às vezes
de sair lavada
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Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

a mulher virou homem

: a mulher virou homem o trabalho
e a desigualdade por baixo da saia: trouxa
na cabeça camisa cáqui de mangas compridas
chapéu de palha quartinha de cabaça e só

calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
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Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

MORTE SOB CARBONO

a floresta (dentro
da sala)
espia o homem
que se apóia na caneta

nomes números nódoas

as velhas esperam
o ventilador gira
o café esfria o bigode do funcionário

— papel poeira pesares
— idades vãs
entre
um documento e outro
um carimbo e outro
uma certidão e outra

as velhas

acertam um grampo na alma
e pactuam um prazo com a morte
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Daniel Jonas

Daniel Jonas

UMA SAISON NOS INFERNOS

Tudo é breve: um deus,
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.

A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:

Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
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Mário Chamie

Mário Chamie

SIDERURGIA S.O.S.

Se  der  o  ouro  sidéreo  opus  horáriO
Sem   sol   o   sal   do   erário   saláriO

Ser der orgia  semistério o empresáriO
Siderurgia   do   opus  o  só  do  eráriO

Se  der  a  via  do  pus   opus    erradO
Se der o certo no errado o  empregadO

Se  der  errado  no certo o emprecáriO
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Joaquim Manuel Magalhães

Joaquim Manuel Magalhães

Uma pá

Uma pá, a equipa de alumínio.
Cravelha e picareta.

Piquete de granizo.
Resíduo, tina, pilar.

A sanguínea aviva
o souto na aduela
de goivo e poejo.

A caleira gafa,
o lasso ferrolho
do herbicida e do adubo.

Açucena albarrã.
Ancoradouro. A vaga
uma voluptuosa vereda.

Colmeia, taça, maçã.
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