Relações Tóxicas

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tapas os caminhos

Tapas os caminhos que vão dar a casa
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas

Pões guardas atentos espiando no jardim
Madrastas nas histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam

Depois secas a água e deitas fora o pão
Tiras a esperança
Rejeitas a matriz
E quando já só restam os sinais
Convocas devagar os vendavais

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem
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Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill

A história da moral

Você tem-me cavalgado
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá--lo.

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Walmir Ayala

Walmir Ayala

XII [O que É o Ciúme?

Afiadas as unhas, não baixarás amor.
Te sangro, amor. Te incito e te assassino,
amor. E te assassino.
E me assassino, amor. E sou silêncio
corroído de inveja
de amor.


Publicado no livro Questionário (1967).

In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.28
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Em Minha Frente Caminhas

Em minha frente caminhas
Pesado do teu desejo,
Pesado da tua graça,
E as tuas mãos tocam as coisas que hão-de vir
E a sua sombra cobre a tua face.

E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda apaga
Os meus frágeis gestos de alegria.
E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda quebra
A minha vida.

Às vezes todo o dia o teu sorriso
Está presente em cada coisa:
No fundo dos espelhos e nos vidros,
No vermelho das rosas e nos astros.
E através dessa presença caminho em delírio
Para o grande cintilar dos teus desastres
Onde me quero destruir.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Reconheci-Te

I

Reconheci-te logo destruída
Sem te poder olhar porque tu eras
O próprio coração da minha vida
E eu esperei-te em todas as esperas.
II

Conheci-te e vivi-te em cada deus
E do teu peso em mim é que eu fui triste
Sempre. Tu depois só me destruíste
Com os teus passos mais reais que os meus.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Olhos de veludo falso

Olhos de veludo falso
E que fitam a entender,
Vós sois o meu cadafalso
A que subo com prazer.
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Afrânio Peixoto

Afrânio Peixoto

Herança

Ele pó, modesto,
Ela neve, pura: deram
Um pouco de lama.


In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
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Almeida Garrett

Almeida Garrett

Víbora

Como a víbora gerado,
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que à nascença o espedaçou.

Para ele nascer morri;
E em meu cadáver nutrido,
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.
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Sergio Hartenberg

Sergio Hartenberg

Gazela

O que desejo
quando entro em tua carne,
é te rasgar TODA
(pra acalmar
a imensa ANGÚSTIA
de você não ser minha).
Gemer de excitação,
com essas caras, línguas e bocas,
apenas aguça minha RAIVA.
INFINITA
desse gozo
tão efêmero...

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Ronaldo Cunha Lima

Ronaldo Cunha Lima

O medo e a falta

Você me faz medo,
mas você me faz falta.

A diferença entre o medo e a falta
é que o medo você sabe quando tem,
e na falta você sente que não tem.

A falta, com o medo, sobressalta.
Entre o medo que você me traz
e a falta que você me faz,

você é o medo que me falta.

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Amália Bautista

Amália Bautista

Ondas

Sei que me estou a afogar, mas ao menos
consigo manter de fora a cabeça.
De modo que, por favor,
não venhas tu fazer ondas.

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Reynaldo Bessa

Reynaldo Bessa

quando cai da rede

quando cai da rede
vi que eu existia mesmo
minha mae apareceu no umbral da porta
logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou
ele queria terminar de foder com ela, e
parece que comigo também
os dois, silenciosamente, desapareceram na sombra
vi que eu nao existia mesmo
quando cai da rede.
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Simone Brantes

Simone Brantes

Diálogo

I
Eu disse a ela
que eu tenho um
bom coração
Ela disse
sim claro que
você tem
quando tem
coração

II
Olha aqui,
eu falei,
esse
poeminha
nós duas
que fizemos
juntas
Ela respondeu
engano seu
o poema é todo
meu
você
só escreveu
462
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Perfeitamente domesticada

Perfeitamente domesticada,
aparentando todo um rebanho de boas intenções,
atacava pela calada.
Desta vez, foi em pleno palco,
à frente de toda a gente.
Unhas e peles, braços em volta.
O bico dos abutres
a rasgar o dia em dois.
Ninguém gritou,
mas houve sangue.
Não me lembro se fui César,
se fui Bruto.
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Olga Tokarczuk

Olga Tokarczuk

Gratidão

Não pense que não sou grata por tuas pequenas 
gentilezas.
Gosto de pequenas gentilezas.
De fato as prefiro à gentileza mais 
substancial, que está sempre a te cravar os olhos,
feito um grande animal sobre o tapete
até que tua vida inteira se reduza
a nada além de levantar manhã após manhã 
embotada, e o sol luminoso rebrilhando em seus caninos.
837
Marina Colasanti

Marina Colasanti

JANTAR FAMILIAR

Caçada estampada na louça
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
Somos nós que
por cima do prato
por cima da pêra
por cima das láminas
arreganhamos dentes e
rosnamos
na antiga caça
da familia
à mesa.
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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Amor E Ódio

Amor, te odeio
pelo que me fazes sofrer,
te odeio
porque não paro
de te querer,
te odeio porque sofro,
e, vivo, morro,
te odeio porque
em ti naufrago
quando era de ti
que tinha que vir
o meu socorro.
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Stela do Patrocínio

Stela do Patrocínio

você está me comendo tanto pelos olhos

você está me comendo tanto pelos olhos
que eu já não tenho de onde tirar força
pra te alimentar
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Stela do Patrocínio

Stela do Patrocínio

Eu já não tenho mais voz

Eu já não tenho mais voz
Porque já falei tudo o que tinha pra falar
Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada
Eu sinto fome e matam minha fome
Eu sinto sede e matam a minha sede
Fico cansada falo que tô cansada
Matam meu cansaço
Eu fico com preguiça matam minha preguiça
Fico com sono
Quando eu reclamo
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José Saramago

José Saramago

Opção

Antes arder ao vento como archote
Num deserto de sombras e de medos,
Que ser a dócil rima do teu mote,
Um morrão de cigarro nos teus dedos.
1 250
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu perguntava quantas foram

eu perguntava quantas foram
e você falava sobre o tempo
eu indagava quantas vezes
e você acendia outro cigarro
eu suplicava quantas mais
e você não respondia
pedia pra mudar de assunto
pra que pudesse mentir sobre outra coisa
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

milionário

milionário
tem o controle acionário
da minha companhia
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

sente minha raiva canibal

sente minha raiva canibal
te mordo te sinto te como
e como me fazes mal
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

aquele amor poderia ter me matado

aquele amor poderia ter me matado
como mata centenas de mulheres por aí


certos amores não passam
de uma bomba a ser desativada a tempo
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