Recomeço e Renascimento

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Um Dia

Um dia, mortos, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais,
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar,
E em nós germinará a sua fala.
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Miguel Torga

Miguel Torga

Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Passagem do Ano

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus. . .

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo.
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles. .. e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
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José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira

Viver sempre também cansa

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam
Não cai neve vermelha 
Não há flores que voem, 
A lua não tem olhos 
Ninguém vai pintar olhos à lua 

Tudo é igual, mecânico e exacto 

Ainda por cima os homens são os homens 
Soluçam, bebem riem e digerem 
sem imaginação. 

E há bairros miseráveis sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe 
automóveis de corrida... 

E obrigam-me a viver até à morte! 

Pois não era mais humano 
Morrer por um bocadinho 
De vez em quando 
E recomeçar depois 
Achando tudo mais novo? 

Ah! Se eu podesse suicidar-me por seis meses 
Morre em cima dum divã 
Com a cabeça sobre uma almofada 
Confiante e sereno por saber 
Que tu velavas, meu amor do norte. 

Quando viessem perguntar por mim 
Havias de dizer com teu sorriso 
Onde arde um coração em melodia 
Matou-se esta manhã 
Agora não o vou ressuscitar 
Por uma bagatela 

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..
 

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.



Sophia de Mello Breyner Andresen | "Dia do mar", págs. 58 e 59 | Edições Ática, 1974

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Juan Ramón Jiménez

Juan Ramón Jiménez

Inflama-me, poente: faz-me perfume e chama

Inflama-me, poente: faz-me perfume e chama;
que o meu coração seja igual a ti, poente!
descobre em mim o eterno, o que arde, o que ama,
...e o vento do esquecimento arraste o que é doente!
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Marina Colasanti

Marina Colasanti

Frutos e Flores

Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me traspassa.
14 061 24
José Amaro Dionísio

José Amaro Dionísio

Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar

Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar.
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Miguel Torga

Miguel Torga

Lírica

No meu
jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive....
E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!
O recuado
Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:
Este, de ser menino
Ao pé de ti......

6 807 11
Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill

Neste espaço a si próprio condenado

Neste espaço a si próprio condenado
Dum momento para o outro pode entrar
Um pássaro que levante o céu
E sustente o olhar
....................................
Com a tristeza acender a alegria
Com a miséria atear a felicidade
E no céu inocente da visão
Fazer pulsar um pássaro por vir
Fazer voar um novo coração

5 706 10
Manuel Rui

Manuel Rui

Não Vale a Pena Pisar

O capim não foi plantado
nem tratado,
e cresceu. É força
tudo força
que vem da força da terra.
Mas o capim está a arder
e a força que vem da terra
com a pujança da queimada
parece desaparecer.
Mas não! Basta a primeira chuvada
para o capim reviver.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Se Todo o Ser Ao Vento Abandonamos

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus, em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma beberá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
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João Miguel Fernandes Jorge

João Miguel Fernandes Jorge

A vila

A vila
o canto longínquo do tempo
deixa-me para sempre. É pouco.
nas dunas crescem as flores novas.
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Chacal

Chacal

20 anos recolhidos

chegou a hora de amar desesperadamente
apaixonadamente
descontroladamente
chegou a hora de mudar o estilo
de mudar o vestido
chegou atrasada como um trem atrasado
mas que chega

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Eu Me Perdi

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar
3 376 4
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Casa Branca

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.
… … … … … … … … … … … …

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.
6 229 4
Haroldo de Campos

Haroldo de Campos

Se



                                           se
                                           nasce
                                           morre  nasce 
                                           morre  nasce  morre
                                                                          renasce  remorre  renasce
                                                                                         remorre  renasce
                                                                                                        remorre
                                                 re                                                             re
                                     desnasce
                   desmorre  desnasce 
  desmorre  desnasce  desmorre
                                                     nascemorrenasce
                                                     morrenasce
                                                     morre
                                                     se


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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Inicial

O mar azul e branco e as luzidias
Pedras — O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida
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Paulo Leminski

Paulo Leminski

já me matei faz muito tempo

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

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Maria Dinorah

Maria Dinorah

Haicai

Coração vazio!
Amarrando o quase e o quando
numa pipa sem fio!

Hoje, sem razão,
no espaço do meu abraço
novo diapasão.

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Adélia Prado

Adélia Prado

Alvará de Demolição

O que precisa nascer
tem sua raiz em chão de casa velha.
À sua necessidade o piso cede,
estalam rachaduras nas paredes,
os caixões de janela se desprendem.
O que precisa nascer
aparece no sonho buscando frinchas no teto,
réstias de luz e ar.
Sei muito bem do que este sonho fala
e a quem pode me dar
peço coragem.
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José Saramago

José Saramago

Enigma

Um novo ser me nasce em cada hora.
O que fui, já esqueci. O que serei
Não guardará do ser que sou agora
Senão o cumprimento do que sei.
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