Passado e Futuro

Poemas neste tema

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
25 441 98
Desconhecido

Desconhecido

Há quem sonhe com coisas que aconteceram

Há quem sonhe com coisas que aconteceram, e explicam porquê. Eu sonho com coisas que nunca acontecerão e pergunto: porque não?
5 277 34
Ruy Belo

Ruy Belo

Amei a mulher amei a terra amei o mar

Amei a mulher amei a terra amei o mar
amei muitas coisas que hoje me é difícil enumerar
De muitas delas de resto falei
13 557 23
Mário Cesariny

Mário Cesariny

lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

8 441 14
Luís Filipe Maçarico

Luís Filipe Maçarico

No Cripto-pórtico de Mértola

I
Quantos ditosos
trazendo flor de oliva
em seus cabelos
provaram do teu pão,
ó prodigioso celeiro?

II
Quantas bocas
sarracenas se
dessedentaram
em tua água silvestre,
ó rumorosa cisterna?

III
Quanta fatal decisão
em nome da Santa Cruz
no teu ventre vazou
proscritos,
ó sombria prisão?

(Mértola, 1994)
1 269 4
Mário Cesariny

Mário Cesariny

Os sebastiacas trombos não deixaram partir

Os sebastiacas trombos não deixaram partir
Portugal para o Brasil.
Vagos ficamos da amurada aos tombos
Para a largada rombos
Do corpo de Portugal.

Mas a Hora deixada ao sono vil
Dos que provendo tudo podem nada
Mais que o fogo senil
Do Império Final,
Cintila na amurada:
Não há Portugal e Brasil.
Brasil é Portugal.

Mário Cesariny

3 236 3
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VI. OS COLOMBOS

Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

6 866 3
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Jardim E a Casa

Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.
4 104 2
Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Contagem regressiva - Inéditos e Dispersos

Acreditei que se amasse de novo esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto
não esqueço e amo em ti os outros rostos
5 433 2
Thomas Hardy

Thomas Hardy

O OUTRO

Eis aqui o chão antigo,
tão gasto e liso de andado.
Eis aqui limiar amigo
que mortos pés hão cruzado

Na cadeira ela sentada
para o lume se sorria;
e dele a vida brincada
no fogo se consumia.

Criança, em sonhos dancei;
feliz o dia passou,
dourado brasão de um rei.
Mas nenhum de nós olhou.

1 858 2
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Três Parcas

As três Parcas que tecem os errados
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.

Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.

E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério

Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.
2 827 1
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Luminosos Os Dias Abolidos

Luminosos os dias abolidos
Quando o meio-dia inclinava a sombra das colunas
E o azul do céu tomava em si a terra
Apaziguada no murmúrio
Das folhagens e dos deuses.
1 767 1
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Confissão

De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.

2 706 1
Régis Bonvicino

Régis Bonvicino

O Provérbio Latino, dez 1981

o provérbio latino
ferrum natare doces
(ensinar
ferro a nadar /
querer
o impossível)

tornou-se
com a máquina a vapor de watt
letra
morta

deixando
galeras e caravelas
mar e rio
a ver navios


In: BONVICINO, Régis. Sósia da cópia, 1978/1983. São Paulo: Max Limonad, 1983
5 043 1
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Relicário

A noite do meu relógio
me manda arquivar mais um dia.
Um dia banal
ruminado a contragosto.

Mas sei
que este mesmo dia
há de ter seu momento
de glória
ao diluir-se na lágrima certa
dos guardados do meu futuro.

857 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Durmo. Regresso ou espero?

Durmo. Regresso ou espero?
Não sei. Um outro flui
Entre o que sou e o que quero
Entre o que sou e o que fui.


19/10/1927
4 423 1
Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 27

E já não haver lugar para as imagens.
Eu sei que cabe tudo em disco externo,
mas foi aí que nós perdemos a cabeça.
Temos placas, rígidas plataformas, luz
com pouca treva nas costas da cidade.
Havemos de trocar as nossas memórias,
viver as outras vidas. Que sonho é agora?

429
Renato Rezende

Renato Rezende

As Veias

O mesmo sangue que corre em minhas veias
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.


Nova York, 2 de março 1996
1 009
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

CINCO SONETETOS GROTESCOS V

É a mais nova versão do real.
Não tão bela quanto a anterior,
que no último verão fez furor
e não deixou vestígio. É natural.

Esta de agora, tímida e avara,
já bate as asas, feito um estertor,
e alça vôo. É a nossa cara.
688
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Peregrinação

O córrego é o mesmo.
Mesma, aquela árvore,
A casa, o jardim.

Meus passos a esmo
(Os passos e o espírito)
Vão pelo passado,
Ai tão devastado,
Recolhendo triste
Tudo quanto existe
Ainda ali de mim
— Mim daqueles tempos!

Petrópolis, 12.3.1943
1 207
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Passado, Presente e Futuro

Só o passado verdadeiramente nos pertence.
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
1 514
Marina Colasanti

Marina Colasanti

O gosto que se foi

Quando eu era menina
gostava de sugar nas flores de glicínia
no exato centro
no protegido ponto que as pétalas escondem:
o pistilo.
Tinha um tanto de açúcar
parecia
e era crocante.
Adulta
inutilmente busco
o mesmo gosto.
Estala em minha boca
a carne tenra
a língua escarva
sem que nada me chegue
nem o açúcar da infância
nem gosto de lembrança.
903
Marina Colasanti

Marina Colasanti

É nesse

Há sempre um ponto
fora
um ponto além da tela
da moldura
da armação dos óculos
um ponto além da linha de horizonte
na quina alheia ao campo visual.
E é nesse ponto
nesse ponto ausente
se atam os nós
e traçam rumos das
coisas por nascer
ditas
destino.
1 313
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Ristorante Etruria

Essa bela garçonete etrusca
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
1 107
Página 1 Seguinte