Pai e Paternidade

Poemas neste tema

Adélia Prado

Adélia Prado

Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Tu, Baby, ao leres um dia

Tu, Baby, ao leres um dia
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -

Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.

Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!

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Helena Parente Cunha

Helena Parente Cunha

Tempo

fronteira no tempo
me rompo entre dois prantos

antes de outrora
era meu pai

além de após
o mesmo ai

entre
antes
e depois
sem agora de meu pai

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Valter Hugo Mãe

Valter Hugo Mãe

se o vento é a ignição

se o vento é a ignição
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina
999
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Alphonsus de Guimaraens Filho

Refrão de glória, eis vem no trilho
Do pai — dois mestres em refrães —
Trás Alphonsus de Guimaraens,
Alphonsus de Guimaraens Filho.
977
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Otávio Tarquínio de Sousa

Não só no nome que brilha
Este é imperador e rei.
Pois tem n'alma, ó maravilha,
Dois tronos de ouro de lei:
- Lúcia esposa e Lúcia filha.
978
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Poema de Finados

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemintério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
2 380
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Nietzschiana

Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
— Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.
1 119
Marina Colasanti

Marina Colasanti

A medida do pai

O filho primogênito
abaixa a cabeça
sempre que passa
por aquela porta.
O filho primogênito cresceu.

Alteie a porta,
digo para ele,
não abaixe a cabeça.

Não posso,
me responde,
já tentei, mas
a porta foi feita
e posta a viga
na minha antiga medida.

O filho primogênito cresceu
e a casa do pai
só lhe cabe
abaixando a cabeça.  


El Moro, Roma, 2001
1 054
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Por ser meu pai

Agradeço
por ser meu pai
o louco
e não o probo
por ser o perdulário
e não o avaro
que tudo conservou.
Agradeço a meu pai
as mãos abertas
por onde se escoaram nossos bens
nossas dispersas casas
nossas terras
mãos pontuais
dando ao vento
a herança avita
os quadros
os papéis
a identidade
mas com as quais
ridente
soube agarrar a vida
e transmiti-la.
1 264
José Saramago

José Saramago

Aniversário

Pai, que não conheci (pois conhecer não é
Este engano de dias paralelos,
Este tocar de corpos distraídos,
Estas palavras vagas que disfarçam
O intransponível muro):
Já nada me dirás, e eu não pergunto.
Olho, calado, a sombra que chamei
E aceito o futuro.
1 197
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Saudade de Manuel Bandeira

Não foste apenas um segredo
De poesia e de emoção
Foste uma estrela em meu degredo
Poeta, pai! áspero irmão.

Não me abraçaste só no peito
Puseste a mão na minha mão
Eu, pequenino - tu, eleito
Poeta! pai, áspero irmão.

Lúcido, alto e ascético amigo
De triste e claro coração
Que sonhas tanto a sós contigo
Poeta, pai, áspero irmão?
1 236
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Lamento Ouvido Não Sei Onde

Minha mãe, toma cuidado
Não zanga assim com meu pai
Um dia ele vai-se embora
E não volta nunca mais.

O mau filho à casa torna
Mãe... nem carece tornar
Mas pai que larga a família
Pra que desgraça não vai!
1 259
Adélia Prado

Adélia Prado

A Poesia, a Salvação E a Vida Ii

Eu vivo sob um poder
que às vezes está no sonho,
no som de certas palavras agrupadas,
em coisas que dentro de mim
refulgem como ouro:
a baciinha de lata onde meu pai
fazia espuma com o pincel de barba.
De tudo uma veste teço e me cubro.
Mas, se esqueço a paciência,
me escapam o céu
e a margarida-do-campo.
1 449
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Lavra Dor

O lavrador
lavra a terra,
como quem gera
um filho.

A semente é o sêmen
fértil nascente,
que logo frutifica
e gera novos filhos.

O lavra dor
lavra a terra,
gera os filhos
e frutifica

E vive a paixão eterna
do pai pelo filho . . .

1 036
Emílio Moura

Emílio Moura

Mar Alto

Que hei de fazer, se não me encontro,
se há tanto tempo estou perdido?
É o mar, meu pai: é o mar! E o mar está crescendo.
O mar é fundo, o mar é frio.

Meu pai, que silêncio,
que grave silêncio!
Por que não sorris?

Meu pai, estou perdido:
há tantos caminhos
no fundo do mar.
Como hei de votar?

1 139
Daniel Faria

Daniel Faria

Chamavas os bois com a mão

Chamavas os bois com a mão

Mais mansa. A mão

Com que adubavas a terra

Com que puxavas o banco

Para a frente da lareira

Com que me mediste

Palmo a palmo na infância.

de Dos Líquidos (2000)
1 591