Paciência

Poemas neste tema

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Sê paciente; espera

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
23 381 58
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Sossegue coração

sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

7 918 2
Adélia Prado

Adélia Prado

O Ajudante de Deus

Invoquei o Santo Espírito,
Ele me disse: sofre,
come na paciência
esta amargura,
porque tens boca
e eu não.
Toma o pequeno cálice,
massa de cinza e fel
não transmutados.
É pão de mirra,
come.
1 808 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Duas horas te esperei/Dois anos te esperaria

Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia?
1 776 1
Daniel Faria

Daniel Faria

Houvesse um sinal a conduzir-nos

Houvesse um sinal a conduzir-nos

E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores

A incomparável paciência de procurar o alto

A verde bondade de permanecer

E orientar os pássaros

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 766 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XIX - Prazer, mas devagar,

Prazer, mas devagar,
2 306 1
Daniel Jonas

Daniel Jonas

A RESISTÊNCIA À TEORIA

Eu ficarei à espera de que as uvas
das minhas videiras
amadureçam
à luminosidade da palavra
dia
690
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Oração no Saco de Mangaratiba

Nossa Senhora me dê paciência
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência pra que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...

1926
1 699
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Lento

Dom Rápido Rodriguez
não me convém;
Dona Pirilampa Aguda
não é meu amor;
para andar com meus passos amarelos
tem que viver dentro
das coisas espessas:
— barro, madeira, quartzo,
metais,
construções de ladrilho
— tem que saber fechar os olhos
na luz,
os abrir na sombra,
esperar.
552
José Saramago

José Saramago

Hibernação

No regaço do tempo me conchego:
Passam e passam os dias em modorra
E bolor, que os gestos entorpece.

Não há nesta dormência outro sossego
Que estar ciente o corpo da desforra,
Se a hora prometida lhe amanhece.
1 060
José Saramago

José Saramago

Tenho a Alma Queimada

Tenho a alma queimada
Por saliva de sapo
Fingindo que descubro
Tapo
A palavra me infecta
Sob a pele da aparência
Deito o certo remédio
Paciência
Neste mal não se vive
Mas também ninguém morre
Quando a ave não voa
Corre
Quem às estrelas não chega
Pode vê-las da terra
Quem não tem voz de cantar
Berra
1 011
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Enquanto Longe Divagas

I
Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
— Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
— Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras
— Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
— Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba
II
O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso
III
Pois no ar estremece tua alegria
— Tua jovem rijeza de arbusto —
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso
Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso
Junho de 1974
1 277
Adélia Prado

Adélia Prado

Fragmento

Bem-aventurado o que pressentiu
quando a manhã começou:
não vai ser diferente da noite.
Prolongados permanecerão o corpo sem pouso,
o pensamento dividido entre deitar-se primeiro
à esquerda ou à direita
e mesmo assim anunciou paciente ao meio-dia:
algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda,
um vento bom entra nessa janela.
845
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Habitando a Paciência da Ondulada

Habitando a paciência da ondulada
sombra vibramos numa rede
de veemências suaves de sabores secretos
e sentimos a terra deslizando connosco.
925
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Querer Na Espera

Não querer na espera
até ao tácito oculto que interroga.
Arquear-se entre os arcos de água
até ao fundo e nascer flexível signo.
946
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Final

Mas na janela o ângulo intacto duma espera
Resolve em si o dia liso.
2 162
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Duas horas te esperei./Duas mais te esperaria.

Duas horas te esperei.
Duas mais te esperaria.
Se gostas de mim não sei...
Algum dia há-de ser dia...
1 275
Fábio Roberto Rodrigues Belo

Fábio Roberto Rodrigues Belo

Passaporte

passeport

porque porta passo pra
poder te ver?

que passatempo fará resistir minha
paciência?

faço-me forte
saro-me o corte
temo a morte
caço a sorte
passaporte

por onde
o pássaro faz
seupercurso?

preciso ter alegria
paraguerrear...

per fas et nefas

persistamos
em
existir:
é o
que
im-porta.

944
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Discurso do Tempo

se a pressa iguala
o santo à fera
espera.
Não peça à pressa insana
faça-se, Quimera.
Nem pense que o porvir
será de pura primavera
pois que ao nascer a flor em si se desinteira.
Por isso o tempo passava
antes dos relógios
e era maior
quanto selvagem era.

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