Medo e Ansiedade

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Andavam de noite aos segredos

ANDAVAM de noite aos segredos
Só porque era noite...
Os bosques enchiam de medos
Quem quer que se afoite...

Diziam [?] palavras que pesam [?]
À sombra de alguém...
Ninguém os conhece, e passam...
Não eram ninguém...

Fica só na aragem e na ânsia
Saudade a fingir...
Foi como se fora distância...
Eu torno a dormir.

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Gustavo Adolfo Bécquer

Gustavo Adolfo Bécquer

Levai-me por piedade onde a vertigem

Levai-me por piedade onde a vertigem
com a razão me arranque a memória.
Por piedade! Tenho medo de ficar
com a minha dor a sós!
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cantar

Tão longo caminho
Quanto passo andado
E todas as portas
Encontrou fechadas
Tão longo o caminho
Como vai sozinho
Sua sombra errante
Desenha as paredes
Sob o sol a pino
Sob as luas verdes
A água de exílio
É brilhante e fria
Por estradas brancas
Ou por negras ruas
Quanto passo andado
Por amor da terra
País ocupado
Onde o medo impera
Num quarto fechado
As portas se fecham
Os olhos se fecham
Fecham-se janelas
As bocas se calam
Os gestos se escondem
Quando ele pergunta
Ninguém lhe responde
Só insultos colhe
Solidão vindima
O rosto lhe viram
E não querem vê-lo
Seu longo combate
Encontra silêncio
Silêncio daqueles
Que em sombras tornados
Em monstros se tornam
Naquela cidade
Tão poucos os homens
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Desconhecido

Desconhecido

Hoje apetece-me o silêncio

Hoje apetece-me o silêncio das casas assombradas com sangue nas janelas...
sangue, sangue que jorra das feridas abertas como bocas escancaradas...
Noite. Pavor. Esquecimento. Silêncio... gritos amordaçados que calam a noite.
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Elefantinho

Onde vais, elefantinho
Correndo pelo caminho
Assim tão desconsolado?
Andas perdido, bichinho
Espetaste o pé no espinho
Que sentes, pobre coitado?

— Estou com um medo danado
Encontrei um passarinho!
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António Castañeda

António Castañeda

Quanto terror latente

Quanto terror latente
nesse mar gelado
que desde sempre
levamos na alma.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Fundo do Mar

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A Lua (dizem os Ingleses)

A LUA (dizem os ingleses)
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma idéia se perde.

E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De... não sei se é desejar.

Sim, todos os meus reveses
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando.

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Pedro Mexia

Pedro Mexia

Vamos morrer

Vamos morrer, mas somos sensatos,
e à noite, debaixo da cama,
deixamos, simétricos e exactos,
o medo e os sapatos.
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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Passos furtivos na escada

Passos furtivos na escada
Da minha imaginação.
Sabendo-os frutos de nada
São reais como os que são.

Basta que os oiça e provocam
A minha insónia de assalto.
Se fujo, seguem-me, voam
Se grito, gritam mais alto.

Por favor, bom senso Não!
É a resposta que eu não posso.
De que me serve a razão
Se não existe o que eu ouço?

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Glória de Sant'Anna

Glória de Sant'Anna

Batuque ao Longe

Do fundo da noite
a mesma toada batendo.
(É noite de medo?)

A mesma toada por sobre os telhados,
trazendo mensagens que tombam desfeitas.

(Coladas aos vidros
há vozes de greda).

A mesma toada roçando na porta,
batendo.

Por sobre as ramadas, calcando o capim,
em volta da serra, caindo do espaço,
em ecos de outrora por todos os lados.

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António Ferreira

António Ferreira

Os medos

A medo vivo, a medo escrevo e falo
Hei medo do que falo só comigo;
mas inda a medo cuido, a medo calo.
Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.
Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.
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Roberval Pereyr

Roberval Pereyr

A Falsa Musa

A noite filtra seus males
numa cadeira difusa:

maquinações, pistas falsas
(a noite é vasta), tumultos
não percebíveis, compacta
massa de sonho e de dúvidas.

Alguém vai morrer (não sabe)
daqui a sete minutos
e talvez sonhe com pássaros
ou reze, calmo, no escuro:

a noite, astuta, o enlaça
nos braços da falsa Musa.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Minotauro

Assim o Minotauro longo tempo latente
De repente salta sobre a nossa vida
Com veemência vital de monstro insaciado
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Ulisses Tavares

Ulisses Tavares

Vale de Lágrimas

triste sina de gerações:
perdendo o medo de trepar
descobrimos o medo de amar.


In: TAVARES, Ulisses. O eu entre nós. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1979. (Coleção PF).

NOTA: No livro PULSO (1995), foram acrescentados os versos "perdendo o medo de amar/descobrimos o medo de trepar
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Al Berto

Al Berto

Truque Inoxidável

faca

repito faca

escrevo faca pelo corpo,desenho faca no peito da noite

desembaraço-me do sumo inoxidável doutra faca

faca

sorrio faca no escuro dum beco

-Hoje não matarás!

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Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

Epigrama

Enche o teu copo, bebe o teu vinho,
enquanto a taça não cai das tuas mãos...

Há salteadores amáveis pelo teu caminho.
Repara como é doce o teu vizinho,
repara como é suave o olhar do teu vizinho,

e como são longas, discretas, as suas mãos...

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Som da Sineta

Já não soa a sineta
com a mesma nitidez.
Não aprende Alaor
a modelar o som.
Rotina de internato
era esperar o toque
tornado familiar
até para acordar.
O tocador bisonho
lanha nosso equilíbrio.
Éramos resignados,
eis-nos hoje assustados.

Que nos promete o dobre
irregular e seco?
O som antigo evola-se,
deixa baixar o medo.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Da Transparência

Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nocturno

Acordo quando os muros são o medo,
Acordo quando o tempo cai contado,
E no meu quarto entra o arvoredo,
E se desfolha ao longo dos meus membros.

Acordo quando a aurora nas paredes
Desenha nardos brancos e macios,
Acordo quando o sono vos convence
De que sois rios.
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Susana Thénon

Susana Thénon

Aqui, Agora

Sei que em algum lugar
a alegria se espalha
como o pólen
e que há tempos
os homens se erguem
como jardins definitivos.
Mas eu vivo aqui e agora
onde tudo é horrível
e tem dentes
e velhas unhas petrificadas.
Aqui e agora,
onde o ar sufoca
e o medo é impune.
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Ulisses Tavares

Ulisses Tavares

Sôfrego

meu medo é ficar sozinho.
abraço o primeiro copo
agarro o primeiro corpo
e amo na mais completa solidão.


In: TAVARES, Ulisses. O eu entre nós. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1979. (Coleção PF)
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Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

Aranha Enorme de Ventre

Amarelo...

Aranha enorme de ventre amarelo
sai a lua da teia do arvoredo...
E as estrelas fogem com medo.

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