Juventude

Poemas neste tema

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Os Pêssegos

Lembram adolescentes nus:
a doirada pele das nádegas
com marcas de carmim, a penugem
leve, mais encrespada e fulva
em torno do sexo distendido
e fácil, vulnerável aos desejos
de quem só o contempla e não ousa
aproximar dos flancos matinais
a crepuscular lentidão dos dedos.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Che Guevara

Contra ti se ergueu a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra
De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas
Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece
Lisboa, 1972
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Varandas

É na varanda que os poemas emergem
Quando se azula o rio e brilha
O verde-escuro do cipreste — quando
Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina
E sobre a página do caderno o poema se alinha

Noutra varanda assim num Setembro de outrora
Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava
Amei a vida como coisa sagrada
E a juventude me foi eternidade
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Caderno I

Quando me perco de novo neste antigo
Caderno de capa preta de oleado —
Que um dia rasguei com fúria e que um amigo
Folha a folha recolou com vagar e paciência —

Tudo me dói ainda como faca e me corta
Pois diante de mim estão como sussurro e floresta
As longas tardes as misturadas noites
Onde divago e divagam incessantemente
Os venenosos perfumes mortais da juventude

E dói-me a luz como um jardim perdido
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Por Delicadeza

Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi:

«Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida»
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Para o Ernesto Veiga de Oliveira No Dia da Sua Morte

Àquele que hoje morreu tendo sido
Fiel a cada hora do vivido
Trago o poema desse tempo antigo:
Irisado cintilar dos areais
Na breve eternidade desse instante
Que não pode jamais ser repetido

Foi nesse tempo o tempo:
Longas tardes conversas demoradas
No extático fervor adolescente
Das grandes descobertas deslumbradas
Versos dança música pintura
Um mundo vivo em canto e em figura
Que a vida inteira ficará comigo
Agradecendo a graça do ter sido

Assim pudesse o tempo regressar
Recomeçarmos sempre como o mar
1992
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Horácio Dídimo

Horácio Dídimo

As Doces Meninas de Outrora

as doces meninas de outrora
amanheceram
vestiram os vestidos novos
pintaram as unhas de vermelho
por um instante resplandeceram
depois baixaram as cabecinhas louras
e envelheceram como as flores

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Martha Medeiros

Martha Medeiros

Bicho-Papão

bicho-papão
viu moça em flor
e papoula
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Herberto Helder

Herberto Helder

Quatro Poemas Árabes - Tudo o Oue É Novo É Belo

De tudo O que é novo nasce um novo prazer,
mas eu sei que não é boa a jovem morte.

Ela fere pelas costas, e não é doce como o açúcar,
nem é como o vinho, nem como o sumo das uvas.
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Fernando Fitas

Fernando Fitas

Havia um barco

Havia um barco
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.

O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã

Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
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Renato Rezende

Renato Rezende

Poemas

Sou ainda muito moço,
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.


Nova York, 23 de julho 1995
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Renato Rezende

Renato Rezende

Fine Art

O menino de 17 anos
caminhou até mim
e conversou comigo um pouco.

Bonito, puro, doce
como eu também era doce
aos 17, e não sabia.

Amo-o
como se fosse uma pintura,
uma fotografia em preto e branco
(me seduz
uma coreografia que já não danço).

Sorrio,
enquanto ele me empurra para morte.


Nova York, maio 1996
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Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

CINE-OLHO

Um
menino
não.

Era
mais
um
felino,
um

Exu
afelinado
chispando
entre
os
carros
um
ponto
riscado
a
laser
na
noite
de
rua
cheia
para
os
lados
do
Mercado.
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Saúl Dias

Saúl Dias

Desenho de rapariga

Corpo suave,
de traços finos,
modulados trinos
ao entardecer…

A linha esguia
que delimita
e acaricia
o braço de ave
é tão bonita…

Quase mulher…
Quase criança…
Toda pureza…

— Vede
a beleza
como se enlaça
na sua trança!
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sorte

certa vez
fomos jovens
diante desta
máquina...
bebendo
fumando
escrevendo
foi o mais
esplêndido e
miraculoso
dos tempos
ainda
é
acontece que agora
em vez de
nos movermos na direção
do tempo
ele
se move na nossa
direção
faz com que cada palavra
perfure
o
papel
clara
veloz
dura
alimentando um
espaço que se
fecha.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sapatos

quando você é jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
simplesmente parados
sozinhos
no armário
podem incendiar os seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
1 131
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Começando Rápido

cada um de nós
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.

para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha

o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
1 113
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sapatos

quando você é jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Célia

Que idade risonha e bela,
Célia, a dos vinte anos! Eu
Que já possuo de meu
Perto de três vezes ela,
Os teus vinte anos saúdo,
Desejando que os renoves,
Faças conta e fora os noves,
Te reste em venturas tudo!
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

uma nissei não sabe

uma nissei não sabe
tudo que sei
meus olhos arregalados
não piscam pra qualquer um
nem fecham pra qualquer medo
uma nissei
não sabe todo o segredo
periga guardar bilhetes
mas quieta comete enganos
decifra letras do mal
mal sabe meus vinte anos


uma nissei dança muito bem
mas sei que ela dorme cedo
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Canção do Amor Primeiro

Tão jovem o Tempo
Tudo amanhecia
O loiro do rosto
Sob o negro da noite
Desde sempre o sabia

O loiro do rosto
A dança do cabelo
Doirado sobre a testa
Sob o choupo escondidos
Como sob floresta

E o loiro do cabelo
A voar na testa
E o linho do rosto
Entre os brilhos da festa

Tão jovem o Tempo
Que tudo luzia
De espanto e surpresa
Redonda a maçã
Que parecia acesa

Era Junho e o perfume
Da rosa e seu lume
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Era o Tempo

Era o tempo das amizades visionárias
Entregues à sombra à luz à penumbra
E ao rumor mais secreto das ramagens
Era o tempo extático das luas
Quando a noite se azulava fabulosa e lenta
Era o tempo do múltiplo desejo e da paixão
Os dias como harpas ressoavam
Era o tempo de oiro das praias luzidias
Quando a fome de tudo se acendia
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Orpheu E Eurydice

Juntos passavam no cair da tarde
Jovens luminosos muito antigos
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Rapariga E a Praia

Uma rapariga vai como uma espiga
São cor de areia suas pernas finas
Seu íris é azul verde e cinzento

Uma rapariga vai como uma espiga
Carnal e cereal intacta cerrada
Mas nela enterra sua faca o vento

E tudo espalha com suas mãos o vento
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