Guerra e Paz

Poemas neste tema

Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Receita para fazer um herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cantata de paz

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
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Miguel Torga

Miguel Torga

Comunicado

Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.

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Carl Sandburg

Carl Sandburg

Além daquilo que faz chorar

Além daquilo que faz chorar os poetas, que faz com
que os soldados se lancem para a frente e percam
a vida à luz do sol: que será, Bill?
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Paz Sem Vencedor E Sem Vencidos

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tão Grande Dor

«Tão grande dor para tão pequeno povo»
Palavras de um timorense à RTP

Timor fragilíssimo e distante

«Sândalo flor búfalo montanha
Cantos danças ritos
E a pureza dos gestos ancestrais»

Em frente ao pasmo atento das crianças
Assim contava o poeta Ruy Cinatti
Sentado no chão
Naquela noite em que voltara da viagem

Timor
Dever que não foi cumprido e que por isso dói

Depois vieram notícias desgarradas
Raras e confusas
Violência mortes crueldade
E ano após ano
Ia crescendo sempre a atrocidade
E dia a dia — espanto prodígio assombro —
Cresceu a valentia
Do povo e da guerrilha
Evanescente nas brumas da montanha

Timor cercado por um muro de silêncio
Mais pesado e mais espesso do que o muro
De Berlim que foi sempre tão falado

Porque não era um muro mas um cerco
Que por segundo cerco era cercado
O cerco da surdez dos consumistas
Tão cheios de jornais e de notícias

Mas como se fosse o milagre pedido
Pelo rio da prece ao som das balas
As imagens do massacre foram salvas
As imagens romperam os cercos do silêncio
Irromperam nos écrans e os surdos viram
A evidência nua das imagens
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Agostinho Neto

Agostinho Neto

Luta

Violência
vozes de aço ao sol
incendeiam a paisagem já quente

E os sonhos
se desfazem
contra uma muralha de baionetas

Nova onda se levanta
e os anseios se desfazem
sobre os corpos insepulcos

E nova onda se levanta para a luta
e ainda outra e outra
até que da violência
apenas reste o nosso perdão.
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Fernando Sylvan

Fernando Sylvan

Meninas e Meninos

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!
E então?

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José Craveirinha

José Craveirinha

Moçambiquicida

Das incursões bem sucedidas aos povoados
sobressaem na paisagem as patrícias
sacarinas capulanas de fumaça
e uma fervura de cinco
tabuadas e uns onze
- ou talvez só dez -
cadernos e um giz
espólio das escolas destruídas.


Sobrevivos moçambiquicidas
imolam-se mesclados
no infuturo.
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Hélder Muteia

Hélder Muteia

Ensaio de lágrimas

Se as nossas lágrimas
apagassem o ódio que nos cerca
e apagassem também o fogo que nos mata
mãe
eu pediria as lágrimas de todos
sangrando as pupilas.

Mas temo, mãe
que nos afoguemos um dia
dentro das nossas lágrimas.
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Mário Cesariny

Mário Cesariny

ESTADO SEGUNDO

Não houve
nunca
acima do mundo
alegre aventura
de um sol militar

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José Craveirinha

José Craveirinha

Aldeia Queimada

Mas
nas noites
desparasitadas de estrelas
é que as hienas
actuam.

É
de cinzas
o vestígio das palhotas.
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Afonso X

Afonso X

Gula

Uivam
as suas maldições
as insidiosas hienas
própria sanha.

Rituais
de tão escabrosa gulodice
que até nos esfomeados
aldeões da tragédia
a gula das quizumbas
se baba nas beiças
das catanas,
dos machados.
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Luís Veiga Leitão

Luís Veiga Leitão

Não

Não queremos o sangue das crianças
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas

Não queremos o sangue dos jovens
cobrindo o frio das Baionetas
— morto lume verde sobre a neve
Mas correndo a arder nas noites pretas
para que as manhãs cantem breve...

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Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Poema da Alemanha

Os mortos dos campos da Alemanha crescem
lírios em suas sepulturas de raízes.

OS mortos dos campos da Alemanha escreveram
a história dos homens taciturnos.

Os mortos dos campos da Alemanha enferrujam
a alma aflita de quatro gerações.

Nas madrugadas de chuva os mortos dos campos
da Alemanha lustram as botas dos velhos soldados.

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Janice Japiassu

Janice Japiassu

O Discurso e o Deserto

Com o acre mel do deserto
De ouro veste-se o nome
Pronunciado na guerra.

O sol fecunda as espadas
Retesa o arco certeiro
E o sete nasce da pedra

No silêncio alumioso
Da noite mal-assombrada
Mistura o grito viçoso

Eis a palavra afiada
Nos pastos da solidão
Dentro do silêncio limpo
Voz de toda precisão

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António Borges Coelho

António Borges Coelho

Não tenhas medo

Não tenhas medo do sangue aberto
do corpo enfeitado pelas balas
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Manhã de Outono Num Palácio de Sintra

Um brilho de azulejo e de folhagem
Povoa o palácio que um jovem rei trocou
Pela morte frontal no descampado

Ele não quis ouvir o alaúde dos dias
Seu ombro sacudiu a frescura das salas
Sua mão rejeitou o sussurro das águas

Mas o pequeno palácio é nítido — sem nenhum fantasma —
Sua sombra é clara como a sombra de um palmar
No seu pátio canta um alvoroço de início
Em suas águas brilha a juventude do tempo
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Guerra Ou Lisboa 72

Partiu vivo jovem forte
Voltou bem grave e calado
Com morte no passaporte

Sua morte nos jornais
Surgiu em letra pequena
É preciso que o país
Tenha a consciência serena
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Conquista de Cacela

As praças fortes foram conquistadas
Por seu poder e foram sitiadas
As cidades do mar pela riqueza

Porém Cacela
Foi desejada só pela beleza
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Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Confronto

Em relâmpago os bárbaros
no espaço.
Passo a passo os tímidos
no tempo.

Sob os pés dos vândalos
as pedras arrasam-se.
Do chão limpo os pacíficos
erguem torres bíblicas.

Os rebeldes, de árbitros,
destroem os ídolos.
Os dóceis, na dúvida,
valorizam as órbitas.

A fibra dos bárbaros,
a astúcia dos tímidos.

de Miradouro e outros poemas (1976)

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Lúcio Cardoso

Lúcio Cardoso

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