Flores e Jardins

Poemas neste tema

Cecília Meireles

Cecília Meireles

No mistério do sem-fim

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Rosas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.
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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Foi para ti que criei as rosas

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei ás romãs a cor do lume.
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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Hoje roubei todas as rosas dos jardins

Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Rosa Rosae

Rosa
e todas as rimas
Rosa
e os perfumes todos
Rosa
no florindo espelho
Rosa
na brancura branca
Rosa
no carmim da hora
Rosa
no brinco e pulseira
Rosa
no deslumbramento
Rosa
no distanciamento
Rosa
no que não foi escrito
Rosa
no que deixou de ser dito
Rosa
pétala a pétala
despetalirosada

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Juan Ramón Jiménez

Juan Ramón Jiménez

Todas as rosas são a mesma rosa

Todas as rosas são a mesma rosa,
amor!, a única rosa;
e tudo está contido nela,
breve imagem do mundo,
amor!, a única rosa.
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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Rosa do Mundo

Rosa. Rosa do mundo.
Queimada.
Suja de tanta palavra.

Primeiro orvalho sobre o rosto.
que foi pétala
a pétala lenço de soluços.

Obscena rosa. Repartida
Amada.
Boca ferida, sopro de ninguém.

Quase nada.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O criador

A mão de meu irmão desenha um jardim
e ele surge da pedra. Há uma estrela no pátio.
Uma estrela de rosa e de gerânio.
Mas seu perfume não me encanta a mim.
O que respiro é a glória de meu mano.

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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

As Abelhas

A aaaaaaabelha-mestra
E aaaaaaas abelhinhas
Estão toooooooodas prontinhas
Pra iiiiiiir para a festa.

Num zune que zune
Lá vão pro jardim
Brincar com a cravina
Valsar com o jasmim.

Da rosa pro cravo
Do cravo pra rosa
Da rosa pro favo
V olta pro cravo.

Venham ver como dão mel
As abelhinhas do céu!
10 354 10
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Jardim Perdido

Jardim em flor, jardim da impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.

A verdura das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava,
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.

A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidade e suspensão.

Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.
9 331 10
Cecília Meireles

Cecília Meireles

O canteiro está molhado

O canteiro está molhado.
Trarei flores do canteiro,
Para cobrir o teu sono.
Dorme, dorme, a chuva desce,
Molha as flores do canteiro.
Noite molhada de chuva,
Sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças..."

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Manuel Botelho de Oliveira

Manuel Botelho de Oliveira

Rosa na Mão de Anarda Envergonhada

Na bela Anarda uma rosa,
brilhando desvanecida,
padeceu por atrevida
menoscabos de formosa:
porém não, que vergonhosa
com mais bela galhardia
do que era dantes, se via;
pois quando se envergonhava,
mais vermelha se jactava,
mais formosa se corria.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

São flores ou são nalgas

São flores ou são nalgas
estas flores
de lascivo arabesco?

São nalgas ou são flores
estas nalgas
de vegetal doçura e macieza?
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Érico Veríssimo

Érico Veríssimo

Haicai

Serviço Consular

Com cartas brancas,
senhor cônsul solta
Pombos de papel.

Gota de orvalho
na corola dum lírio:
Jóia do tempo.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sonhei Com Lúcidos Delírios

Sonhei com lúcidos delírios
À luz de um puro amanhecer
Numa planície onde crescem lírios
E há regatos cantantes a correr.
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Corsino Fortes

Corsino Fortes

Girassol

Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.

Amanheceu!

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!
4 324 4
Castro Alves

Castro Alves

O CORAÇÃO

O coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um — tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.

O outro — voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel — a que se chama — crenças —,
Vive do aroma — que se diz — amor. —

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

33 - Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.

Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas mudavam...
2 965 4
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Coroai-me de rosas! [3]

Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas –
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.


12/06/1914 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)
7 505 4
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Flores

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.
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Júlia Lopes de Almeida

Júlia Lopes de Almeida

A laranjeira

Perfumada laranjeira,
Linda assim dessa maneira,
Sorrindo à luz do arrebol,
Toda em flores, branca toda
- Parece a noiva do Sol
Preparada para a boda.

E esposa do Sol, que a adora,
Com que cuidados divinos
Curva ela os ramos, agora!
E entre as folhas abrigados,
Seus filhos, frutos dourados,
Parecem sois pequeninos.

5 032 3
Setsuko Geni Oyakawa

Setsuko Geni Oyakawa

Haicai

Chuva fina
Alheio no canteiro
O gerânio brilha

Pétalas de seda
Flutuam, fazem festa
Borboletas

2 287 3
Amaryllis Schloenbach

Amaryllis Schloenbach

Haicai

Angústia

O suor escorre
junto com as lágrimas
e o tempo.

Laborterapia

Rastrear adubo,
à tarde, no campo,
para as plantas da varanda.

1 045 3
José Régio

José Régio

Novo epitáfio para um poeta

Na terra nua, as asas desdobraram,
Espigaram,
Deram flor.
Se ali passar alguém
Que tenha o olfacto fino e o dom do humor,
Dirá que aquele morto é um amor:
Dá flor e cheira bem.

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