Família
Poemas neste tema
Manuela Amaral
Nasci-te
No meu ventre de mulher cresceu teu feto
e foi a minha boca que te deu palavras
e silêncios para tu gritares
Dos meus braços multipliquei teus braços
e dei distâncias para tu voares
Dei-te tempos-de-nada
medidos de coragem
E foste. E és.
e foi a minha boca que te deu palavras
e silêncios para tu gritares
Dos meus braços multipliquei teus braços
e dei distâncias para tu voares
Dei-te tempos-de-nada
medidos de coragem
E foste. E és.
4 837
21
Adélia Prado
Ensinamento
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
‘coitado, até essa hora no serviço pesado’.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água
[quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
‘coitado, até essa hora no serviço pesado’.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água
[quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
23 590
19
Carlos Drummond de Andrade
O criador
A mão de meu irmão desenha um jardim
e ele surge da pedra. Há uma estrela no pátio.
Uma estrela de rosa e de gerânio.
Mas seu perfume não me encanta a mim.
O que respiro é a glória de meu mano.
e ele surge da pedra. Há uma estrela no pátio.
Uma estrela de rosa e de gerânio.
Mas seu perfume não me encanta a mim.
O que respiro é a glória de meu mano.
8 924
12
Federico García Lorca
Canção Tonta
Mama.
Eu quero ser de prata.
Filho,
Terás muito frio.
Mama.
Eu quero ser de água.
Filho,
Terás muito frio.
Mama.
Borda-me em teu travesseiro.
Isso sim!
Agora mesmo!
Eu quero ser de prata.
Filho,
Terás muito frio.
Mama.
Eu quero ser de água.
Filho,
Terás muito frio.
Mama.
Borda-me em teu travesseiro.
Isso sim!
Agora mesmo!
3 903
5
Ulisses Tavares
papai e mamãe
papai e mamãe
moram separados.
como só tenho um coração,
cada um mora de um lado.
In: TAVARES, Ulisses. Aos poucos fico louco. Il. Ota. Rio de Janeiro: Globo, 1987.
NOTA: Publicado com título "Kramer With Kramer" no livro PULSO (1995
moram separados.
como só tenho um coração,
cada um mora de um lado.
In: TAVARES, Ulisses. Aos poucos fico louco. Il. Ota. Rio de Janeiro: Globo, 1987.
NOTA: Publicado com título "Kramer With Kramer" no livro PULSO (1995
4 433
3
Charles Bukowski
Para Os 18 Meses de Marina Louise
sol sol
é minha pequena
menina
sol
no tapete –
sol sol
saindo pela
porta
colhendo uma
flor
esperando que eu
me levante
para
brincar.
um velho
emerge
de sua
cadeira,
castigado de batalha,
e ela olha
e só
vê
amor, no que eu
me transformo
por meio de sua
majestade
de seu infinito
e mágico
sol.
é minha pequena
menina
sol
no tapete –
sol sol
saindo pela
porta
colhendo uma
flor
esperando que eu
me levante
para
brincar.
um velho
emerge
de sua
cadeira,
castigado de batalha,
e ela olha
e só
vê
amor, no que eu
me transformo
por meio de sua
majestade
de seu infinito
e mágico
sol.
4 501
2
Adão Ventura
Alfabetização
Papai
levava tempo
para redigir uma carta
Já mamãe Sebastiana de José Teodoro
teve a emoção de assinar seu
nome completo
já quase aos setenta anos
levava tempo
para redigir uma carta
Já mamãe Sebastiana de José Teodoro
teve a emoção de assinar seu
nome completo
já quase aos setenta anos
893
1
Malangatana Valente Ngwenya
Amor Verde
Porque o amor não é sempre verde
que bom quando verde é
nem quero que mudes de cor
ó amor verde, verde, verde
ele é tão bom, bom, bom
Na cama quando passei a primeira noite
senti-me feliz quando corria dentro dela
a lágrima que nos fez amigos infinitos
porque dela veio quem nos chama: Papá e Mamã
o nosso primeiro filho, tão lindo, lindo.
que bom quando verde é
nem quero que mudes de cor
ó amor verde, verde, verde
ele é tão bom, bom, bom
Na cama quando passei a primeira noite
senti-me feliz quando corria dentro dela
a lágrima que nos fez amigos infinitos
porque dela veio quem nos chama: Papá e Mamã
o nosso primeiro filho, tão lindo, lindo.
2 043
1
Maria Azenha
as mães
olhou o pão na mesa e deixou cair
as mãos como sementes
para que tudo crescesse a partir
do chão
olhou o mar
e viu as lágrimas
das trevas
iluminadas pelo firmamento
depois sentiu que se fechasse os olhos
por um pequeno instante
tudo voltaria ao caos
as mães têm as mãos grandes
1 192
1
Caetano Ximenes Aragão
Poema
João vivia no precisado
de pertences só os penduricalhos
Maria vivia no acontecido
de emprenhar todos os anos
Seus filhos viviam de morrer
sem saber, antes do tempo.
de pertences só os penduricalhos
Maria vivia no acontecido
de emprenhar todos os anos
Seus filhos viviam de morrer
sem saber, antes do tempo.
870
1
Reynaldo Bessa
quando cai da rede
quando cai da rede
vi que eu existia mesmo
minha mae apareceu no umbral da porta
logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou
ele queria terminar de foder com ela, e
parece que comigo também
os dois, silenciosamente, desapareceram na sombra
vi que eu nao existia mesmo
quando cai da rede.
vi que eu existia mesmo
minha mae apareceu no umbral da porta
logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou
ele queria terminar de foder com ela, e
parece que comigo também
os dois, silenciosamente, desapareceram na sombra
vi que eu nao existia mesmo
quando cai da rede.
1 190
Matilde Campilho
Two-Lane Blacktop
Aprenderei a amar as casas
quando entender que as casas são feitas de gente
que foi feita por gente
e que contem em si a possibilidade
de fazer gente.
quando entender que as casas são feitas de gente
que foi feita por gente
e que contem em si a possibilidade
de fazer gente.
1 579
Nuno Fernandes Torneol
Dizede-M'ora, Filha, Por Santa Maria
- Dizede-m'ora, filha, por Santa Maria,
qual est o voss'amigo, que mi vos pedia?
- Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
- Qual e[st o] voss'amigo que mi vos pedia?
se mi o vós mostrássedes, gracir-vo-lo-ia.
- Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
- [S]e mi o vós amostrardes, gracir-vo-lo-ia,
e direi-vo-l'eu logo em que s'atrevia.
- Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
qual est o voss'amigo, que mi vos pedia?
- Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
- Qual e[st o] voss'amigo que mi vos pedia?
se mi o vós mostrássedes, gracir-vo-lo-ia.
- Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
- [S]e mi o vós amostrardes, gracir-vo-lo-ia,
e direi-vo-l'eu logo em que s'atrevia.
- Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
625
Nuno Fernandes Torneol
Aqui Vej'eu, Filha, o Voss'amigo
Aqui vej'eu, filha, o voss'amigo,
o por que vós baralhades migo,
delgada.
Aqui vejo, filha, o que amades,
o por que vós migo baralhades,
delgada.
[O] por que vós baralhades migo;
quero-lh'eu bem, pois é voss'amigo,
delgada.
O por que vós migo baralhades;
quero-lh'eu bem, poilo vós amades,
delgada
o por que vós baralhades migo,
delgada.
Aqui vejo, filha, o que amades,
o por que vós migo baralhades,
delgada.
[O] por que vós baralhades migo;
quero-lh'eu bem, pois é voss'amigo,
delgada.
O por que vós migo baralhades;
quero-lh'eu bem, poilo vós amades,
delgada
675
João Soares Coelho
Dom Estêvam Fez[O] Sa Partiçom
Dom Estêvam fez[o] sa partiçom
com seus irmãos e caeu mui bem
em Lixboa e mal em Santarém,
mais em Coimbra caeu bem provado:
caeu em Runa atá eno Arnado,
em tôd[ol]os três portos que i som.
com seus irmãos e caeu mui bem
em Lixboa e mal em Santarém,
mais em Coimbra caeu bem provado:
caeu em Runa atá eno Arnado,
em tôd[ol]os três portos que i som.
431
Estêvão da Guarda
Dizede-M'ora, Filha, Por Santa Maria
- Dizede-m'ora, filha, por Santa Maria,
qual est o voss'amigo, que mi vos pedia?
- Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
- Qual e[st o] voss'amigo que mi vos pedia?
se mi o vós mostrássedes, gracir-vo-lo-ia.
- Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
- [S]e mi o vós amostrardes, gracir-vo-lo-ia,
e direi-vo-l'eu logo em que s'atrevia.
- Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
qual est o voss'amigo, que mi vos pedia?
- Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
- Qual e[st o] voss'amigo que mi vos pedia?
se mi o vós mostrássedes, gracir-vo-lo-ia.
- Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
- [S]e mi o vós amostrardes, gracir-vo-lo-ia,
e direi-vo-l'eu logo em que s'atrevia.
- Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
658
Bernal de Bonaval
Filha Fremosa, Vedes Que Vos Digo
Filha fremosa, vedes que vos digo:
que nom faledes ao voss'amigo
sem mi, ai filha fremosa.
E se vós, filha, meu amor queredes,
rogo-vos eu que nunca lhi faledes
sem mi, ai filha fremosa.
E al há i de que vos nom guardades:
perdedes i de quanto lhi falades
sem mi, ai filha fremosa.
que nom faledes ao voss'amigo
sem mi, ai filha fremosa.
E se vós, filha, meu amor queredes,
rogo-vos eu que nunca lhi faledes
sem mi, ai filha fremosa.
E al há i de que vos nom guardades:
perdedes i de quanto lhi falades
sem mi, ai filha fremosa.
663
Ricardo Aleixo
Noite
O menino viu
sair da boca
da mulher, talvez
sua mãe, uma voz
estrídula e lábil, que
logo desandou,
em cadência
de sonho, a quê?
– A enumerar desas-
tres já ocorridos
e por ocorrer,
a fecundar
harpias, a frisar
as marcas
da passagem
da pantera pelo quarto,
a aturdir relógios,
a enegrecer o sol
e outras mais
de tais proezas.
sair da boca
da mulher, talvez
sua mãe, uma voz
estrídula e lábil, que
logo desandou,
em cadência
de sonho, a quê?
– A enumerar desas-
tres já ocorridos
e por ocorrer,
a fecundar
harpias, a frisar
as marcas
da passagem
da pantera pelo quarto,
a aturdir relógios,
a enegrecer o sol
e outras mais
de tais proezas.
390
Ricardo Aleixo
ÁLBUM DE FAMÍLIA
Meu pai viu Casablanca três vezes (duas
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.
670
Ricardo Aleixo
TEOFAGIA
Aqui, eu —
consumada falha
de papai e mamãe:
meia ¾ (acho
que de menina),
uma palma
e uma folha
de papel na mão,
minutos depois
de deglutir
Deus, à guisa
de primeira
comunhão.
consumada falha
de papai e mamãe:
meia ¾ (acho
que de menina),
uma palma
e uma folha
de papel na mão,
minutos depois
de deglutir
Deus, à guisa
de primeira
comunhão.
608
Armando Silva Carvalho
34
com mãos, olfacto, dentes, boca
que procuro o cheiro dos animais à mesa,
da roupa amarrotada duma antiga
posse viva e de criança,
da comida espessa na sua longa espera,
a mais reconfortante,
o rumor entontecido dos pássaros,
os amigos seguros, a ternura dos tios, a pancada cega,
sempre repetida,
e pelo amor da mãe desmoronada.
que procuro o cheiro dos animais à mesa,
da roupa amarrotada duma antiga
posse viva e de criança,
da comida espessa na sua longa espera,
a mais reconfortante,
o rumor entontecido dos pássaros,
os amigos seguros, a ternura dos tios, a pancada cega,
sempre repetida,
e pelo amor da mãe desmoronada.
1 060
Manuel Bandeira
No Aniversário de Maria da Glória
Trôpego, reumático, surdo,
Eu, poeta oficial da família,
Junto as últimas forças e urdo
Em mansa, amorosa vigília
Estes versos para Maria
Da Glória no glorioso dia!
Eu, poeta oficial da família,
Junto as últimas forças e urdo
Em mansa, amorosa vigília
Estes versos para Maria
Da Glória no glorioso dia!
983
Manuel Bandeira
Carla
Carla, és bonita. Pudera!
Sendo filhinha de Allinges,
O fato era de prever.
Mas o que ver eu quisera
É se a beleza materna
Tu, quando mulher, atinges,
Doce e pequenino ser
Feito da essência mais terna.
Sendo filhinha de Allinges,
O fato era de prever.
Mas o que ver eu quisera
É se a beleza materna
Tu, quando mulher, atinges,
Doce e pequenino ser
Feito da essência mais terna.
578
Manuel Bandeira
Tomy
Este menino, que só
Com me olhar me cativou,
Se tem o nome do avô,
Tenha os encantos da avó.
Com me olhar me cativou,
Se tem o nome do avô,
Tenha os encantos da avó.
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