Ecologia e Meio Ambiente
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dai-me a casa vazia
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida.
(Inédito sem data)
Ulisses Tavares
Maravilhas da Fauna
tigres de circo,
patos que apitam,
peixes contaminados,
aves sem pés nem cabeça
quietas no supermercado.
In: TAVARES, Ulisses. Caindo na real. Il. Angeli. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.60. (Jovens do mundo todo
Manuel Bandeira
Trucidaram o Rio
Maltratai o rio
Trucidai o rio
À água não morre
A água que é feita
De gotas inermes
Que um dia serão
Maiores que o rio
Grandes como o oceano
Fortes como os gelos
Os gelos polares
Que tudo arrebentam.
1935
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Anémona dos Dias
Aquele que profanou o mar
E que traiu o arco azul do tempo
Falou da sua vitória
Disse que tinha ultrapassado a lei
Falou da sua liberdade
Falou de si próprio como de um Messias
Porém eu vi no chão suja e calcada
A transparente anémona dos dias.
Ulisses Tavares
Maravilhas da Flora
flores cor-de-fuligem,
arbustos esqueléticos,
florestas de antenas de TV,
alfaces com DDD.
In: TAVARES, Ulisses. Caindo na real. Il. Angeli. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.59. (Jovens do mundo todo
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 30
Na serra aliamos as tendas, aquecemos
música. A luz é da tribo, a Grande Pedra
escuta. Somo xamãs foragidos da pele da
Cidade, despidos do Futuro junto ao rio.
Vamos aprender a fabricar-nos alimentos,
esquecer digitalmente o Sucesso, renascer as
mãos na utopia. Neste mundo deus vai dançar.
Marina Colasanti
Dai de beber a quem
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
José Saramago
Assente Em Água E Fogo
Na vertigem do espaço, a terra densa
Ultrapassa a palavra que a nomeia.
Carlos Drummond de Andrade
Sussurro
ao decifrar a voz dos vegetais,
eis que suspira a muda de pau-ferro
no silêncio do ser:
— Eu sei que fui plantada
com música, discurso e tudo mais,
para a alguém, no futuro, oferecer
sem discurso e sem música o prazer
da derrubada.
Carlos Drummond de Andrade
Indagação
o fantasma do pássaro
inquiriu
ao fantasma da árvore
(que não lhe respondeu):
— A Primavera já era
ou ainda não nasceu?
Carlos Drummond de Andrade
Recomendação
que pelo menos você plante
com eufórica
emoção ecológica
num pote de plástico
uma flor de retórica.
Carlos Drummond de Andrade
Ai Dos Macacos
sul-americanos!
Sem mais florestas
para morada
e são caçados
de noite, de dia.
Se ainda tivessem
matos bacanos,
que adiantaria?
Serem guardados
para experiências,
anos e anos
(a ciência é um fato)
de neuropato-
logia.
03/11/1968
António Ramos Rosa
Mediadora da Coincidência
Conversa confiante com a pedra.
Solidária do sílex e dos campos
luminosos. Trabalha
nos flancos do mundo, na medula
obscura. Conhece os mínimos
movimentos, os íntimos
tecidos, a pupila,
o sexo da terra. Vibra
discreta e lancinante, espera
coincidir.
António Ramos Rosa
Para Que Se Chame
terra
animal
Nelson Ascher
No Centenário da Av Paulista
na happy hour, o stress
das horas de brain storming
dissolve-se on the rocks,
estende-se, através
das fendas da camada
de ozônio, a contra-céu,
um arco-íris negro.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p. 33
Reinaldo Ferreira
Tractor, Deus desta Idade
Não poupa as rosas inúteis.
E esmaga nelas, tão fúteis,
A outra finalidade
Das coisas, desde o início
Criadas para que houvesse
Horas de paz no bulício
Em que a existência acontece.
Vitor Casimiro
Entre o Céu e a Terra
Hoje não me contento
Estou rodeado
Por cimento
Vivemos em sociedades
Não somos primitivos
Ganhamos adjetivos
Enquanto perdemos qualidades
Será uma máquina,
Arranha-céu, ou fato extraordinário
capaz de apagar o cenário
bonito, do anil infinito?
João Augusto Sampaio
Ilhota Verde Oportunista
Uma pedra no centro, algumas algarobas
Tudo mais é secura e pó.
Miracolo!
Uma moitinha de grama verde
Só podia ser prumode do vazamento do cano d’água.
Água aqui não cai do céu, em Jaguarari.
Mário Donizete Massari
Pássaro
As asas são meros instrumentos
que aos olhos se moldam
E o universo é um pequeno trecho
em suas aspirações,
que na virtude de galgar
espaços delineou sua missão
(a reconstrução)
E o pássaro voa
libertinamente no
azul poluído da cidade,
UM GRANDE PÁSSARO HOMEM
Maurício Uzêda
Terra Mulher
Qual menina sempre virgem
A se entregar por amor
Deixando-se tocar e marcar
Tudo enchendo de vida e de cor
Se abrindo num abraço fecundo
Vertendo sua dor e sua alegria
Na lágrima corrente dos rios
No suor que encontro no orvalho
Assim ela vive
Mulher
Marta Gonçalves
Água da Chuva
envenenam a água da chuva
esquecem que existe um rosto no cosmo.
Antônio Fernando Guardado
Haicai
ligeiro sopro desbotado
asfixia
fragmento de azul
no espelho das águas
as nuvens despedem-se
Natália Correia
Violentámos a natureza
Os homens copiavam os anjos;
Os anjos copiavam os homens;
Ambos copiavam a inocência;
A inocência copiava as feras.
As feras devoraram os homens;
Os anjos devoraram as feras.
A inocência vestiu-se de roxo
Pelo luto das futuras eras.
de Dimensão Encontrada(1957)
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