Ciúme e Inveja

Poemas neste tema

Artur de Azevedo

Artur de Azevedo

Milagre

Com cinco pães o Cristo
Deu de comer a cinco mil pessoas!
Eu não me assombro disto,
Pois tu, que o meu espírito magoas,
Tens um só coração,
E amas, contudo, uma população!


In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
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Walmir Ayala

Walmir Ayala

XII [O que É o Ciúme?

Afiadas as unhas, não baixarás amor.
Te sangro, amor. Te incito e te assassino,
amor. E te assassino.
E me assassino, amor. E sou silêncio
corroído de inveja
de amor.


Publicado no livro Questionário (1967).

In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.28
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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

No amor que sentes põe amor, mais nada

No amor que sentes põe amor, mais nada.
Guarda o ciúme para quem odeias
E, se algum dia hás-de cortar as veias,
Seja a do tédio ou da renúncia a estrada
Que tu escolheres, não da paixão frustrada...

Pede à carne só carne, e não ideias;
Triste recurso das solteiras feias...

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Juan Ramón Jiménez

Juan Ramón Jiménez

UNIVERSO

Teu corpo: ciúmes do céu.
Minhalma: ciúmes do mar.
(Pensa minhalma outro céu.
Teu corpo sonha outro mar.)

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vi-te a dizer um adeus

Vi-te a dizer um adeus
A alguém que se despedia,
E quase implorei dos céus
Que eu partisse qualquer dia.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vendo passar amantes

Vendo passar amantes
Nem propriamente inveja ou ódio sinto,
Mas um rancor e uma aversão imensa
Ao universo inteiro, por cobri-los.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando vieste da festa,

Quando vieste da festa,
Vinhas cansada e contente.
A minha pergunta é esta:
Foi da festa ou foi da gente?
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Sergio Hartenberg

Sergio Hartenberg

Gazela

O que desejo
quando entro em tua carne,
é te rasgar TODA
(pra acalmar
a imensa ANGÚSTIA
de você não ser minha).
Gemer de excitação,
com essas caras, línguas e bocas,
apenas aguça minha RAIVA.
INFINITA
desse gozo
tão efêmero...

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Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas do Antigo Egipto - Exorcismo

Oh vai, vai dormir, e vai aonde estão as tuas belas mulheres,
sobre cujos cabelos se verteu a mirra
e sobre cujos ombros se verteu o incenso fresco.
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Juião Bolseiro

Juião Bolseiro

Ai Madre, Nunca Mal Sentiu

Ai madre, nunca mal senti[u],
nem soubi que x'era pesar,
a que seu amigo nom viu,
com'hoj'eu vi o meu, falar
       com outra, mais poilo eu vi,
       com pesar houvi a morrer i.

E, se molher houve d'haver
sabor d'amigo, u lho Deus deu,
sei eu que lho nom fez veer,
com'a mi fez vee'lo meu,
       com outra, mais poilo eu vi,
       com pesar houvi a morrer i.
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João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Martim Jograr, Ai Dona Maria

Martim jograr, ai Dona Maria,
jeita-se vosco já cada dia,
        e lazero-m'eu mal.

And'eu morrend'e morrendo sejo,
e el tem sempr'o cono sobejo,
       e lazero-m'eu mal.

Da mia lazeira pouco se sente;
fod'el bom con[o] e jaz caente,
       e lazero-m'eu mal.
463
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

PEDIDO

Houvesse Deus e os deuses
A fim de que lhes pedisse:

o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije

todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída

da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Canção

Mandaste a sombra de um beijo
Na brancura de um papel:
Tremi de susto e desejo,
Beijei chorando o papel.

No entanto, deste o teu beijo
A um homem que não amavas!
Esqueceste o meu desejo
Pelo de quem não amavas!

Da sombra daquele beijo
Que farei, se a tua boca
É dessas que sem desejo
Podem beijar outra boca?
1 475
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não me traia

não me traia
nessas noites nupciais
em que sais com outras mulheres sem
que eu saiba
1 096
Adélia Prado

Adélia Prado

Paixão de Cristo

Apesar do vaso
que é branco,
de sua louça
que é fina,
lá estão no fundo,
majestáticas,
as que no plural
se convocam:
fezes.
Para que me insultem
basta um grama
de felicidade:
‘baixe o tom de sua voz,
não acredite tanto
em seu poder’.
O martírio é incruento
mas a dor é a mesma.
1 222
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ouvi-te cantar de dia.

Ouvi-te cantar de dia.
De noite te ouvi cantar.
Ai de mim, se é de alegria!
Ai de mim, se é de penar!
1 369
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tu, ao canto da janela,

Tu, ao canto da janela,
Sorrias a alguém da rua.
Porquê ao canto, se aquela
Posição não é a tua?
1 380
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quem te deu aquele anel

Quem te deu aquele anel
Que ainda ontem não tinhas?
Como tu foste infiel
A certas ideias minhas!
1 198
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei em que coisa pensas

Não sei em que coisa pensas
Quando coses sossegada...
Talvez naquelas ofensas
Que fazes sem dizer nada.
1 376
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quero lá saber por onde

Quero lá saber por onde
Andaste todo este dia!
Nunca faz bem quem se esconde...
Mas onde foste, Maria?
1 590
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Levas a mão ao cabelo

Levas a mão ao cabelo
Num gesto de quem não crê.
Mas eu não te disse nada.
Duvidas de mim? Porquê?
1 264
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há dois dias que não vejo

Há dois dias que não vejo
Modo de tornar-te a ver.
Se outros também te não vissem,
Desejava sem sofrer.
1 214
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Os Teus Olhos

O céu azul, não era
Dessa cor, antigamente;
Era branco como um lírio,
Ou como estrela cadente.

Um dia, fez Deus uns olhos
Tão azuis como esses teus,
Que olharam admirados
A taça branca dos céus.

Quando sentiu esse olhar:
“Que doçura, que primor!”
Disse o céu, e ciumento,
Tornou-se da mesma cor!
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Felipe Vianna

Felipe Vianna

INVEJA

Poesia de uma nota só
Para a inveja.

Dó!

18/11/1997

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