Chuva e Tempestades

Poemas neste tema

José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira

Chove!

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir na chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
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Mário Quintana

Mário Quintana

Canção da Garoa

Em cima do telhado
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.

O relógio vai bater:
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.

E chove sem saber porquê
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin...

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Cecília Meireles

Cecília Meireles

O canteiro está molhado

O canteiro está molhado.
Trarei flores do canteiro,
Para cobrir o teu sono.
Dorme, dorme, a chuva desce,
Molha as flores do canteiro.
Noite molhada de chuva,
Sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças..."

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Reynaldo Bessa

Reynaldo Bessa

um dia

um dia
caminhei descalço por entre as poças
deixadas pela chuva.
meus pés balançavam as estrelas,
baldeava o céu
relampejava e eu não tinha medo.
como pode alguém com fome
ter medo de relâmpagos?
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Setsuko Geni Oyakawa

Setsuko Geni Oyakawa

Haicai

Chuva fina
Alheio no canteiro
O gerânio brilha

Pétalas de seda
Flutuam, fazem festa
Borboletas

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Ricardo Akira Kokado

Ricardo Akira Kokado

Primavera

Nuvens de chuva
a brisa enruga os espelhos
na primavera

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Ise no miyasudokoro

Ise no miyasudokoro

Pende dos galhos

Pende dos galhos
de um verde salgueiro
chuva primeva
tal como se fora um
meandro de pérolas.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A água da chuva desce a ladeira.

A ÁGUA da chuva desce a ladeira.
É uma água ansiosa.
Faz lagos e rios pequenos, e cheira
A terra a ditosa.

Há muitos que contam a dor e o pranto
De o amor os não qu'rer...
Mas eu, que também não os tenho, o que canto
É outra coisa qualquer.

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Alice Ruiz

Alice Ruiz

Haicai

primavera
até a cadeira
olha pela janela

luzes acesas
vozes amigas
chove melhor

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Clicie Pontes

Clicie Pontes

Outono

Relâmpago na noite!
Revelando na colina
A capela branca...

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Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Canção

Chove e da janela
vejo as andorinhas
no poleiro dos fios
grossos da água
de muitos dias.

De asas molhadas
sacodem-se,
bicam e se encolhem
tristinhas.

Estou com duas blusas,
queria jogar-lhes uma
e sem poder
conto os fios.

São cinco — uma pauta
e as gotas dágua
caem como notas
de uma canção.

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Célia Lamounier de Araújo

Célia Lamounier de Araújo

Ao Sabor do Tempo

As gotas de chuva caídas
beijavam as reentrâncias dos beirais
e os umbrais da casa,
escorrendo fios de prata
em eterna ampulheta.

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Antero Coelho Neto

Antero Coelho Neto

A Fantasia da Natureza

Natureza alegre
do despertar repetido
que se eterniza plena
no horizonte colorido.

Ora a chuva cai
molhando terra e corpos.

Ora o pássaro azul
voa em canto e vai
dizendo que existe Deus.

Ora o céu é seco
e os animais sedentos
vagam loucos pelos campos
rachados, ardentes e mortos
parecendo não existir Deus.

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Gil Nunesmaia

Gil Nunesmaia

Haicai

Regresso de pescadores

Desmaia o poente,
e sobre as ondas dançando
velas negrejando

Depois da chuva

O sol surge pálido,
e lágrimas de alegria
caem da folhagem

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Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

A ÁRVORE E A NUVEM

Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.
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Marina Colasanti

Marina Colasanti

Águas de verão

Através da chuva
meu olhar se encharca
com a roxa enxurrada
roxa aguada
roxa cor
da buganvília
em flor.
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Marina Colasanti

Marina Colasanti

CINCO DA TARDE E SUDOESTE

Logo virá a tempestade
trazendo a noite.
Mas por enquanto tudo
é doce mucosa
e o cinza e o rosa
se tocam no horizonte.
Sábias como aves de rocha
as traineiras se aninham
os recortes da costa.
Uma primeira luz se acende
junto à ilha.
E o grilo ainda canta
quando ao longe
o trovão escancara a garganta.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. Nus Se Banharam Em Grandes Praias Lisas

Nus se banharam em grandes praias lisas
Outros se perderam no repentino azul dos temporais
1982
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Procelária

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dançam As Árvores Puras Sacudidas

Pelas chuvas verdes
O dia tem em si mãos interrompidas
Que um desejo absurdo ergue.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O som contínuo da chuva

O som contínuo da chuva
A se ouvir lá fora bem
Deixa-nos a alma viúva
Daquilo que já não tem.

[...]
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Thomas Brasch

Thomas Brasch

Canção

Chuva e nuvens ontem
Ninguém que permaneça
Eu não sou contra
Canto e bebo cerveja

Chora hoje e canta
Árvores cobrem a lua
Onde ninguém mais janta
Eu sempre acabo na rua

Folhas amanhã e trovões
Você terá me deixado
Eu louvarei os troncos
Das árvores a seu lado


(tradução de Ricardo Domeneck)
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Vivaldo Beldade

Vivaldo Beldade

A Morte da Arvore

Leio nos teus ramos desnudados
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.

1 007
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Colóquio

A chuva tamborila
pingos de prata
contra a noite.
A borboleta cinza
se enamora do poeta.

(In: revista O Saco. Fortaleza, ano 1, n. 5, 1976)

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