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Poemas neste tema

Fiama Hasse Pais Brandão

Fiama Hasse Pais Brandão

Na Rua Das Mónicas

Nos meus vinte anos,almoçar em casa de Sofia era ouvir ferver em cachão, frigir na cozinha, arfar a cafeteira da poesia.
Era ver a ama de Sofia, e de todos os filhos, de muitos versos, cuidar de muitas gerações de memórias, no lar desses versos tão caseiros.
E era beber, ali, na mesa, uma água que ,mais do que a da torneira, concitou o mar para cada copo.
Era olhar um rosto de coral(o que exorciza as Fúrias, na cozinha) um rosto de mar novo,de geografia.
Era escutar as palavras da bocado vocábulo grego para sabedoria, o que me confirma o poder dos nomes, ao serem Verbo, sobre os seres e as coisas. Era sentar-me, lado a lado, no espaço irradiante da volúvel lareira, no Outono apagada, na Primavera acesa, e com o fogaréu alimentado por papéis venais de outra política(que não a da sua humanidade), que a prudência mandava destruir no fogo.
Era entrar e sair pela porta das Mónicas, a das mulheres congregadas sob invocação da mãe de Agostinho, o que para mim celebrava também o amor de mãe, da velha ama, da Poesia.
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Daniel Faria

Daniel Faria

Cruz,rosa

Cruz,rosa
Dos ventos sem direcção que não seja o centro.Coluna
Sustentada pelos braços como um amigo que chega.Rosa
De orvalho e sangue para o corpo trepassado de sede.Árvore
Que bebe do homem.Árvore
Em silêncio onde escutamos a palavra
Em carne viva.Verbo
Tão inteiro que se fez espelho

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
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Fernando Assis Pacheco

Fernando Assis Pacheco

Mas agora que vai descer a noite na minha vida

Mas agora que vai descer a noite na minha vida

Triste de mim mais triste que a tristeza

triste como a mão que segura o copo

como a luz do farol esgaçando a névoa

triste como o cão manco

deixado na estrada pelos caçadores

triste como a sopa entretanto azeda

mais triste que a idiotia congénita

ou que a palavra ampola

triste de mim triste e perdido

entre duas ruas

uma que vai para o Norte outra para o Sul

e ambas cortadas aos peões

que não cooperam devidamente

(com este governo de merda é claro)

triste como uma puta alentejana

num bar de Ourense

que me viu à cerveja e lesta

me chamou compadre

vozes que a gente colecciona

a tarde triste os anos tristes

a grande costura da tristeza

do esterno ao baixo ventre

triste e já sem nenhum reparo

a fazer à metafísica

senão que é um défice

porventura do córtex cerebral

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Gottfried Benn

Gottfried Benn

Campo dos infelizes

Campo dos infelizes

Farto da minha busca de ilhas,
rebanhos mudos, verde morto,
quero ser margem, ser baía,
de belos barcos ser um porto.
A minha praia quer sentir-se
pisada a vivo com pés quentes;
queixa-se a fonte a oferecer-se,
quer refrescar sedes ardentes.
E tudo quer a sangue estranho
subir, ir afogar-se a esmo,
até um outro ardor de vida,
nada ficar quer em si mesmo.

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Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill

Poesia-Cão

Com que então,coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.

Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,

meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.

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Florbela Espanca

Florbela Espanca

A Noite Desce...

Como pálpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce... Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim mãos de bondade me beijassem!
Assim me adormecessem! Caridosas
Em braçados de lírios, de mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz...
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe-me embriagada, louca!

E a noite vai descendo, sempre calma...
Meu doce Amor tu beijas a minh’alma
Beijando nesta hora a minha boca!
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Jules Laforgue

Jules Laforgue

Solo de Lua

Fumo, de frente para o céu,
Sobre a imperial da carruagem;
Meu corpo aos solavancos, minh’alma dança
Como um Ariel;
Sem mel, sem fel, minha bela alma dança,
Ó colinas, ó fumaças, ó vales, ó viagem!
Minha bela alma, recapitulemos.

Nós nos amávamos como dois loucos, perdidamente,
Nos separamos sem falar a respeito.
Um spleen me mantinha ausente
E esse spleen me vinha de tudo. Perfeito.

Seus olhos diziam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém quis dar o primeiro passo,
Querendo demais cair juntos num abraço.
(Entende?)

Onde está ela agora?
Talvez ela chora...
Onde está ela agora?
Ah! Cuide-se ao menos, senhora!

O frescor dos bosques ao longo da avenida,
O xale de melancolia, toda alma está um pouco à espia,
Pois minha vida
É malquerida!
Esta imperial da carruagem tem certa magia.

O irreparável acumulemos!
Nossa sorte desafiemos!
Há mais estrelas do que grãos de areia no mar,
Onde outros viram seu corpo se banhar;
Mas tudo acaba morto.
Não há porto.

Os anos vão passar,
Cada um vai teimar,
E muitas vezes, já posso imaginar,
Vamos dizer: "Se eu tivesse sabido..."
Mas se tivéssemos casado, não teríamos dito:
"Se eu tivesse sabido, se eu tivesse sabido!..."?
Ah! Encontro maldito!
Ah! Meu coração encurralado!...
Tenho-me mal comportado.

Maníacos por felicidade,
Então, que vamos fazer? Eu com a espiritualidade,
Ela com sua falível pouca idade?
Ó pecadora a envelhecer,
Oh! Quantas noites infame vou-me fazer
Para teu prazer!

Seus olhos piscavam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém deu o primeiro passo
Para cairmos juntos, ah!, num abraço.

A lua se eleva,
Ó estrada de grande sonho!...
Passamos as fiações, a serraria,
Mais que os marcos do caminho,
Nuvenzinhas de um rosa de confeitaria,
Enquanto um fino crescente de lua se eleva,
Ó nenhuma música, ó estrada de sonho...
Nesses bosques de pinho
Onde desde o começo do mundo
É sempre treva,
Que quarto limpo e profundo!
Oh! Para uma noite de mudança!
E eu os povôo e neles me vejo,
E é um casal de amantes, num beijo,
Que fora da lei dança.

E eu passo e os deixo,
E torno a me deitar frente ao céu.
A roda gira, sou Ariel,
Ninguém me espera, visitas desleixo,
Sou amigo só dos quartos de hotel.

A lua ascende,
Ó grande sonho de estrada,
Ó estrada sem escopo,
Eis a parada,
Onde a lanterna se acende,
Onde se bebe um copo
De leite, e fustiga o postilhão,
No estrilo dos grilos,
Sob as estrelas de verão.

Ó luar,
Festa de fogos de artifício afogando meu penar,
As sombras dos choupos sobre o caminho...
Ouve-se o borburinho...
Do riacho a cantar...
Do rio Lete a inundar...

Ó Solo de lua,
Desafias minha pluma,
Oh! Esta noite na estrada:
Ó estrelas, vocês dão medo, por nada,
E estão todas aí! todas agora!
Ó fugacidade desta hora...
Oh! Se eu pudesse bem
Proteger a alma até o outono que vem!

Faz frio, muito frio a esta hora,
Oh! se também agora,
Ela vai pelas florestas,
Sua desgraça afogar
Nas festas do luar!...
(Ela gosta tanto de passear a esta hora!)
Deve ter esquecido de se agasalhar,
Vai ficar doente, dada a beleza da hora!
Oh! Cuida-te, senhora!
Oh! Essa tosse não quero mais escutar!

Ah! Por que não caí de joelhos!
Ah! Por que não desmaiaste em meus joelhos!
Eu teria sido um marido modelo!
Como o frufru do teu vestido é o frufru modelo.

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Almeida Garrett

Almeida Garrett

Os cinco sentidos

São belas - bem o sei, essas estrelas
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho amor, olho para elas;
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!

Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!

Respira - naura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
E só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia
Do leito - se por certo em que me deito;
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti - em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

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Hilda Hilst

Hilda Hilst

Dez chamamentos ao amigo

Dez chamamentos ao amigo
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
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Ezra Pound

Ezra Pound

In a Station of the Metro

In a Station of the Metro

The apparition of these faces in the crowd;

Petals on a wet, black bough.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Segundo: O DAS QUINAS

Os Deuses vendem quanto dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!

Baste a quem baste o que lhe bsta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.

Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.

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Ângelo de Lima

Ângelo de Lima

Mia Soave

- Mariposa Azual...- Transe!...
Que d"Alado Lidar, Canse...
- Dorta em Paz...- Transpasse Ideia!...
- Do Ocaso pela Epopeia...
Dorto...Stringe...o Corpo Elance...
Vai à Campa...- Il c"or descanse...
- Mia soave...- Ave!...- Almeia!...
-Não dói Por Ti Meu Peito...
-Não Choro no Orar Cicio...
-Em Profano...-Edd"ora...Eleito!...
-Balsame-a campa-o Rocio
Que Cai sobre o Ultimo Leito!...
-Mi"Soave!...Eddora Addio!...
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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Desde a aurora

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago:vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu-a terra-que te procuro.

de Obscuro Domínio
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William Blake

William Blake

The Tyger

The Tyger

Tyger Tyger, burning bright

In the forests of the night,

What immortal hand or eye

Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies

Burnt the fire of thine eyes?

On what wings dare he aspire?

What the hand, dare sieze the fire?

And what shoulder, & what art,

Could twist the sinews of thy heart?

And when thy heart began to beat,

What dread hand? & what dread feet?

What the hammer? what the chain?

In what furnace was thy brain?

What the anvil? what dread grasp

Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears

And waterd heaven with their tears,

Did he smile his work to see?

Did he who made the Lamb make thee?

Tyger Tyger, burning bright

In the forests of the night,

What immortal hand or eye

Dare frame thy fearful symmetry?

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António Nobre

António Nobre

Pobre tísica

Quando ela passa à minha porta,
Magra, lívida, quase morta,
E vai até à beira-mar,
Lábios brancos, olhos pisados:
Meu coração dobra a finados,
Meu coração põe-se a chorar.

Perpassa leve como a folha,
E, suspirando, às vezes olha
Para as gaivotas, para o Ar:
E, assim, as suas pupilas negras
Parecem duas toutinegras,
Tentando as asas para voar!

Veste um hábito cor de leite,
Saiinha lisa, sem enfeite,
Boina maruja, toda luar:
Por isso, mal na praia alveja,
As mais suspiram com inveja:
«Noiva feliz, que vais casar...»

Triste, acompanha-a um "Terra Nova"
Que, dentro em pouco, à fria cova
A irá de vez acompanhar...
O chão desnuda com cautela,
Que "Boy" conhece o estado dela:
Qunado ela tosse, põe-se a uivar!

E, assim, sozinha com a aia,
Ao Sol, se assenta sobre a praia,
Entre os bebés, que é o seu lugar.
E o Oceano, trémulo avozinho,
Cofiando as barbas cor de linho,
Vai ter com ela a conversar.

Falam de sonhos, de anjos, e ele
Fala damor, fala daquele
Que tanto e tanto a faz penar...
E o coração parte-se todo,
Quando a sorrir, com tão bom modo,
O Mar lhe diz: «Há-de sarar...»

Sarar? Misérrima esperança!
Padres! ungi essa criança,
Podeis sua alma encomendar:
Corpinho danjo, casto e inerme,
Vai ser amada pelo verme,
Os bichos vão-na desfrutar.

Sarar? Da cor dos alvos linhos,
Parecem fusos seus dedinhos,
Seu corpo é roca de fiar...
E, ao ouvir-lhe a tosse seca e fina,
Eu julgo ouvir numa oficina
Tábuas do seu caixão pregar!

Sarar? Magrita como o junco,
O seu nariz (que é grego e adunco)
Começa aos poucos de afilar,
Seus olhos lançam ígneas chamas:
Ó pobre mãe, que tanto a amas,
Cautela! O Outono está a chegar...

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Helder Moura Pereira

Helder Moura Pereira

Fica ao menos o tempo de um cigarro,

evitacomigo que este tempo ande. Lá forasão as casas,
vive gente à luz de um candeeiro,o som que nos
chega apagado pela distânciasó denuncia o nosso
silêncio interrompido.Ajuda-me, faremos o inventário
das coisasmenos úteis, mágoas na mágoa maior do
tempo.Fica, não te aproximes, nenhum diaé menos sombrio,
quando anoitecer vamos veras árvores cercando a
casa.

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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Ignoro o que seja a flor da água

mas conheço o seu aroma:
depois das primeiras chuvas
sobe ao terraço,
entra nu pela varanda,
o corpo inda molhado
procura o nosso corpo e começa a tremer:
então é como se na sua boca
um resto de imortalidade
nos fosse dado a beber,
e toda a música da terra,
toda a música do céu fosse nossa,
até ao fim do mundo,
até amanhecer.

de Branco No Branco
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Paul Valéry

Paul Valéry

Le cimetière marin

Le cimetière marin

Ce toit tranquille, où marchent des colombes,

Entre les pins palpite, entre les tombes;

Midi le juste y compose de feux

La mer, la mer, toujours recommence

O récompense après une pensée

Quun long regard sur le calme des dieux!

Quel pur travail de fins éclairs consume

Maint diamant dimperceptible écume,

Et quelle paix semble se concevoir!

Quand sur labîme un soleil se repose,

Ouvrages purs dune éternelle cause,

Le temps scintille et le songe est savoir.

Stable trésor, temple simple à Minerve,

Masse de calme, et visible réserve,

Eau sourcilleuse, Oeil qui gardes en toi

Tant de sommeil sous une voile de flamme,

O mon silence! . . . Édifice dans lâme,

Mais comble dor aux mille tuiles, Toit!

Temple du Temps, quun seul soupir résume,

À ce point pur je monte et maccoutume,

Tout entouré de mon regard marin;

Et comme aux dieux mon offrande suprême,

La scintillation sereine sème

Sur laltitude un dédain souverain.

Comme le fruit se fond en jouissance,

Comme en délice il change son absence

Dans une bouche où sa forme se meurt,

Je hume ici ma future fumée,

Et le ciel chante à lâme consumée

Le changement des rives en rumeur.

Beau ciel, vrai ciel, regarde-moi qui change!

Après tant dorgueil, après tant détrange

Oisiveté, mais pleine de pouvoir,

Je mabandonne à ce brillant espace,

Sur les maisons des morts mon ombre passe

Qui mapprivoise à son frêle mouvoir.

Lâme exposée aux torches du solstice,

Je te soutiens, admirable justice

De la lumière aux armes sans pitié!

Je te tends pure à ta place première,

Regarde-toi! . . . Mais rendre la lumière

Suppose dombre une morne moitié.

O pour moi seul, à moi seul, en moi-même,

Auprès dun coeur, aux sources du poème,

Entre le vide et lévénement pur,

Jattends lécho de ma grandeur interne,

Amère, sombre, et sonore citerne,

Sonnant dans lâme un creux toujours futur!

Sais-tu, fausse captive des feuillages,

Golfe mangeur de ces maigres grillages,

Sur mes yeux clos, secrets éblouissants,

Quel corps me traîne à sa fin paresseuse,

Quel front lattire à cette terre osseuse?

Une étincelle y pense à mes absents.

Fermé, sacré, plein dun feu sans matière,

Fragment terrestre offert à la lumière,

Ce lieu me plaît, dominé de flambeaux,

Composé dor, de pierre et darbres sombres,

Où tant de marbre est tremblant sur tant dombres;

La mer fidèle y dort sur mes tombeaux!

Chienne splendide, écarte lidolâtre!

Quand solitaire au sourire de pâtre,

Je pais longtemps, moutons mystérieux,

Le blanc troupeau de mes tranquilles tombes,

Éloignes-en les prudentes colombes,

Les songes vains, les anges curieux!

Ici venu, lavenir est paresse.

Linsecte net gratte la sécheresse;

Tout est brûlé, défait, reçu dans lair

A je ne sais quelle sévère essence . . .

La vie est vaste, étant ivre dabsence,

Et lamertume est douce, et lesprit clair.

Les morts cachés sont bien dans cette terre

Qui les réchauffe et sèche leur mystère.

Midi là-haut, Midi sans mouvement

En soi se pense et convient à soi-même

Tête complète et parfait diadème,

Je suis en toi le secret changement.

Tu nas que moi pour contenir tes craintes!

Mes repentirs, mes doutes, mes contraintes

Sont le défaut de ton grand diamant! . . .

Mais dans leur nuit toute lourde de marbres,

Un peuple vague aux racines des arbres

A pris déjà ton parti lentement.

Ils ont fondu dans une absence épaisse,

Largile rouge a bu la blanche espèce,

Le don de vivre a passé dans les fleurs!

Où sont des morts les phrases familières,

Lart personnel, les âmes singulières?

La larve file où se formaient les pleurs.

Les cris aigus des filles chatouillées,

Les yeux, les dents, les paupières mouillées,

Le sein charmant qui joue avec le feu,

Le sang qui brille aux lèvres qui se rendent,

Les derniers dons, les doigts qui les défendent,

Tout va sous terre et rentre dans le jeu!

Et vous, grande âme, espérez-vous un songe

Qui naura plus ces couleurs de mensonge

Quaux yeux de chair londe et lor font ici?

Chanterez-vous quand serez vaporeuse?

Allez! Tout fuit! Ma présence est poreuse,

La sainte impatience meurt aussi!

Maigre immortalité noire et dorée,

Consolatrice affreusement laurée,

Qui de la mort fais un sein maternel,

Le beau mensonge et la pieuse ruse!

Qui ne connaît, et qui ne les refuse,

Ce crâne vide et ce rire éternel!

Pères profonds, têtes inhabitées,

Qui sous le poids de tant de pelletées,

Êtes la terre et confondez nos pas,

Le vrai rongeur, le ver irréfutable

Nest point pour vous qui dormez sous la table,

Il vit de vie, il ne me quitte pas!

Amour, peut-être, ou de moi-même haine?

Sa dent secrète est de moi si prochaine

Que tous les noms lui peuvent convenir!

Quimporte! Il voit, il veut, il songe, il touche!

Ma chair lui plaît, et jusque sur ma couche,

À ce vivant je vis dappartenir!

Zénon! Cruel Zénon! Zénon dÊlée!

Mas-tu percé de cette flèche ailée

Qui vibre, vole, et qui ne vole pas!

Le son menfante et la flèche me tue!

Ah! le soleil . . . Quelle ombre de tortue

Pour lâme, Achille immobile à grands pas!

Non, non! . . . Debout! Dans lère successive!

Brisez, mon corps, cette forme pensive!

Buvez, mon sein, la naissance du vent!

Une fraîcheur, de la mer exhalée,

Me rend mon âme . . . O puissance salée!

Courons à londe en rejaillir vivant.

Oui! grande mer de délires douée,

Peau de panthère et chlamyde trouée,

De mille et mille idoles du soleil,

Hydre absolue, ivre de ta chair bleue,

Qui te remords létincelante queue

Dans un tumulte au silence pareil,

Le vent se lève! . . . il faut tenter de vivre!

Lair immense ouvre et referme mon livre,

La vague en poudre ose jaillir des rocs!

Envolez-vous, pages tout éblouies!

Rompez, vagues! Rompez deaux réjouies

Ce toit tranquille où picoraient des focs!

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Antero de Quental

Antero de Quental

Uma amiga

Aqueles que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que a noite evoca o sentimento...

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim... mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!

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Miguel de Unamuno

Miguel de Unamuno

El cuerpo canta

El cuerpo canta

El cuerpo canta;

la sangre aúlla;

la tierra charla;

la mar murmura;

el cielo calla

y el hombre escucha.

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Rafael Alberti

Rafael Alberti

Si mi voz muriera en tierra

Si mi voz muriera en tierra

llevadla al nivel del mar

y dejadla en la ribera.

Llevadla al nivel del mar

y nombardla capitana

de un blanco bajel de guerra.

¡Oh mi voz condecorada

con la insignia marinera:

sobre el corazón un ancla

y sobre el ancla una estrella

y sobre la estrella el viento

y sobre el viento la vela!

2 067 1
David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Blocos

É isto vivemos dentro

de grandes blocos de gelo

sem aquecermos ao menos

com os dedos outros dedos

No fundo de nós temendo

que um dia se quebre o gelo

3 776 1
Alexandre S. Santos

Alexandre S. Santos

Ao Léu

Como a escoar silente,
o silêncio, fluía
por sobre ele mesmo
ecoando num vazio,
contente, descia
à procura de um largo
selvagem, intocado
no esmo profundo
cravado, no próprio seio.
Discretamente vibrava
pelos contornos, entornos
esquecidos em sono
difuso, profuso, gozoso;
deixando levar sem norte
a agulha emotiva
da bússola do desejo...

904 1
Gonzaga Leão

Gonzaga Leão

Soneto à Rosa Acontecida

Ela nasceu de abismo e foi rosa
ante o luar - lírio no céu se abrindo
leitoso e virgem, as sombras deglutindo;
lírio que a noite clara e imaginosa

criou para realce dela, a rosa:
chaga de luz e sangue ( a estou sentindo
ferir as minhas mãos, a alma ferindo...)
que vem a madrugada silenciosa-

mente solver, e vem ditando rotas
de paisagens pretéritas e ignotas
por que meus olhos tristes e magoados

todos os dias sofrem e adoecem.
Rosa por que jardins mortos florescem,
cambiantes de luz, ressuscitados.

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