Natureza
Poemas neste tema
Chico Buarque
O que será (à flor da pele)
O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
2 199
1
Carlos Eduardo Armando
Quero beijar sua boca
quero beijar sua boca
1
com volúpia, com tesão
com saudade de mil anos
e a forca da solidão
fechar meus braços suados
sobre seu corpo arrepio
lambe-la feito cachorro
lambe uma fêmea no cio.
2
tarde vermelha se esgarça
perto das seis horas
começa a ave maria
noite colcha de éter
cai indiferente
sobre a terra fria.
3
quando te perder
pro tempo
quando te entregar
ao pó
quero que
o sol brilhe forte
vapor do solo
te agasalhe
energia de estrela
te alimente
na jornada
para onde fores.
1
com volúpia, com tesão
com saudade de mil anos
e a forca da solidão
fechar meus braços suados
sobre seu corpo arrepio
lambe-la feito cachorro
lambe uma fêmea no cio.
2
tarde vermelha se esgarça
perto das seis horas
começa a ave maria
noite colcha de éter
cai indiferente
sobre a terra fria.
3
quando te perder
pro tempo
quando te entregar
ao pó
quero que
o sol brilhe forte
vapor do solo
te agasalhe
energia de estrela
te alimente
na jornada
para onde fores.
991
1
Liz Christine
Lilith
Ah, delírio que me erotiza...
Você me despreza, você me pisa...
Me xinga e me avisa...
Que posso fazer?
Eu quero você e gosto de sofrer.
Não é doentio,
É doce esse martírio...
Você é meu desafio.
Quero ser amarrada,
Quero ser queimada...
Pelo fogo da paixão,
Me morde com tesão.
Me morde e me usa...
Depois você me acusa...
De louca e confusa.
Vai, usa, abusa,
Xinga, morde, pisa.
Quero ser espancada,
Quero ficar marcada...
Pela dor dessa paixão...
Quero a marca da sua mão...
Em meu corpo, olhos e coração.
Te amar é morrer...
Me afogar no prazer.
Você me despreza, você me pisa...
Me xinga e me avisa...
Que posso fazer?
Eu quero você e gosto de sofrer.
Não é doentio,
É doce esse martírio...
Você é meu desafio.
Quero ser amarrada,
Quero ser queimada...
Pelo fogo da paixão,
Me morde com tesão.
Me morde e me usa...
Depois você me acusa...
De louca e confusa.
Vai, usa, abusa,
Xinga, morde, pisa.
Quero ser espancada,
Quero ficar marcada...
Pela dor dessa paixão...
Quero a marca da sua mão...
Em meu corpo, olhos e coração.
Te amar é morrer...
Me afogar no prazer.
1 186
1
Octavio Paz
El mar
El mar, el mar y tú, plural espejo, el mar de torso perezoso y lento nadando por el mar, del mar sediento: el mar que muere y nace en un reflejo.
El mar y tú, su mar, el mar espejo:
roca que escala el mar con paso lento,
pilar de sal que abate el mar sediento,
sed y vaivén y apenas un reflejo.
De la suma de instantes en que creces,
del círculo de imágenes del año,
retengo un mes de espumas y de peces,
y bajo cielos líquidos de estaño
tu cuerpo que en la luz abre bahías
al oscuro oleaje de los días.
El mar y tú, su mar, el mar espejo:
roca que escala el mar con paso lento,
pilar de sal que abate el mar sediento,
sed y vaivén y apenas un reflejo.
De la suma de instantes en que creces,
del círculo de imágenes del año,
retengo un mes de espumas y de peces,
y bajo cielos líquidos de estaño
tu cuerpo que en la luz abre bahías
al oscuro oleaje de los días.
3 089
1
Li Shang-Yin
Pensamentos
Partiste. O rio subiu até ao meu portão. As cigarras calaram-se nos ramos cobertos de geada. Agora regresso ao portão, mas o tempo mudou. Como sempre os meus pensamentos são-te dirigidos. Estás tão longe como a Estrela Polar e a Primavera, Notícias tuas nunca se dirigem para sul. Quantas vezes, nos meus sonhos, vejo terras distantes - Encontraste outro amigo? Espero que não.
980
1
Bruna Lombardi
Uma mulher
Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela
a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca
uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela
a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca
uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
3 712
1
Marina Tsvetaeva
Poetas
Poetas
O poeta – começa a falar de longe.
Ao poeta – a fala leva-o longe.
Por planetas,agoiros, buracos de fábulas
Sinuosas Entre sim e não, mesmo
Ao lançar-se do campanário fará
Um rodeio Porque a roda dos cometas –
É a rota dos poetas. Com os elos dispersos
Da causalidade– se liga! Com a fronte
Virada ao alto – te desespera! Não constam
Do calendário os eclipses do poeta.
É aquele que baralha as cartas, ilude
O peso e a medida, o que faz perguntas
Interrompendo a professora, é aquele
Que desbarata o Kant.
É ele quem, no pétreo caixão das Bastilhas,
Se ergue como árvore em toda a sua beleza.
Aquele de quem se perdem sempre as pegadas,
É aquele comboio que toda a gente
Perde -
Porque a rota dos cometas
É a rota dos poetas: queimando sem calor,
Arrancando sem semear – explodir, romper –
O teu rumo, a tua curva de crinas,
Não consta do calendário!
8 de
Abril de 1923
(tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)
O poeta – começa a falar de longe.
Ao poeta – a fala leva-o longe.
Por planetas,agoiros, buracos de fábulas
Sinuosas Entre sim e não, mesmo
Ao lançar-se do campanário fará
Um rodeio Porque a roda dos cometas –
É a rota dos poetas. Com os elos dispersos
Da causalidade– se liga! Com a fronte
Virada ao alto – te desespera! Não constam
Do calendário os eclipses do poeta.
É aquele que baralha as cartas, ilude
O peso e a medida, o que faz perguntas
Interrompendo a professora, é aquele
Que desbarata o Kant.
É ele quem, no pétreo caixão das Bastilhas,
Se ergue como árvore em toda a sua beleza.
Aquele de quem se perdem sempre as pegadas,
É aquele comboio que toda a gente
Perde -
Porque a rota dos cometas
É a rota dos poetas: queimando sem calor,
Arrancando sem semear – explodir, romper –
O teu rumo, a tua curva de crinas,
Não consta do calendário!
8 de
Abril de 1923
(tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)
1 854
1
Bruna Lombardi
Elogio do pecado
Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza
você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa
Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza
você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa
Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.
2 608
1
José Tolentino Mendonça
Uma Coisa A Menos Para Adorar
Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome
2 374
1
Vitorino Nemésio
Regresso
Ao coronel Sacadura
Cavalo e cavaleiro o vento adornam
Com uma pata e uma pluma;
À tarde unidos tornam,
Um estame de sangue numa rosa de espuma.
Tanta pressa,para coisa nenhuma.
de O Cavalo Encantado
Cavalo e cavaleiro o vento adornam
Com uma pata e uma pluma;
À tarde unidos tornam,
Um estame de sangue numa rosa de espuma.
Tanta pressa,para coisa nenhuma.
de O Cavalo Encantado
2 633
1
Janice Caiafa
Luz-sem luz
Meia-lua escura
na unha é anel
de musa, ao céu
é ranhura de luz
no sexo marca difusa
vala ventosa que suga
com ar rarefeito
Palma acidental só vulto
varia vertente convulsa
versátil em ondas em outra
de uma estrela
ausente veluda
o rastro de pontas.
na unha é anel
de musa, ao céu
é ranhura de luz
no sexo marca difusa
vala ventosa que suga
com ar rarefeito
Palma acidental só vulto
varia vertente convulsa
versátil em ondas em outra
de uma estrela
ausente veluda
o rastro de pontas.
1 008
1
Natália Correia
A verdadeira litania para os tempos da revolução
Burgueses somos nós todos
ó literatos
burgueses somos nós todosratos e gatos Mário Cesariny
Mário nós não somos todos burgueses
os gatos e os ratos se quiseres,
os literatos esses são franceses
e todos soletramos malmequeres.
Da vida o verbo intransitivo
não é burguês é ruim;
e eu que nas nuvens vivo
nuvens!o que direi de mim?
Burguês é esse menino extraordinário
que nasce todos os anos em Belém
e a poesia se não diz isto Mário
é burguesa também.
Burguês é o carro funerário.
Os mortos são naturalmente comunistas.
Nós não somos burgueses Mário
o que nós somos todos é sebastianistas.
de Inéditos(1959/61)
ó literatos
burgueses somos nós todosratos e gatos Mário Cesariny
Mário nós não somos todos burgueses
os gatos e os ratos se quiseres,
os literatos esses são franceses
e todos soletramos malmequeres.
Da vida o verbo intransitivo
não é burguês é ruim;
e eu que nas nuvens vivo
nuvens!o que direi de mim?
Burguês é esse menino extraordinário
que nasce todos os anos em Belém
e a poesia se não diz isto Mário
é burguesa também.
Burguês é o carro funerário.
Os mortos são naturalmente comunistas.
Nós não somos burgueses Mário
o que nós somos todos é sebastianistas.
de Inéditos(1959/61)
3 413
1
Luís Miguel Nava
Virgínia
Embora o sol fosse alto ainda, àquela
hora já dali desertara, as sombras iam
saindo aos poucos de debaixo dos armários.
De vez em quando as mãos, completamente absortas,
detinham-se no ferro, sobre a tábua, ao lado
do gigo agora esvaziado e dos pesados
tabuleiros de verga, onde se erguia a roupa.
Tornavam-se mais nítidos, assim, os seus
contornos recortados contra a luz.
Dali podia-se avistar o mundo inteiro.
Ao longo dos telhados, por onde um ou outro gato
corria atrás das pombas, oscilava
ligeiramente a corda, onde a cidade, o céu
e os montes pareciam pendurados.
hora já dali desertara, as sombras iam
saindo aos poucos de debaixo dos armários.
De vez em quando as mãos, completamente absortas,
detinham-se no ferro, sobre a tábua, ao lado
do gigo agora esvaziado e dos pesados
tabuleiros de verga, onde se erguia a roupa.
Tornavam-se mais nítidos, assim, os seus
contornos recortados contra a luz.
Dali podia-se avistar o mundo inteiro.
Ao longo dos telhados, por onde um ou outro gato
corria atrás das pombas, oscilava
ligeiramente a corda, onde a cidade, o céu
e os montes pareciam pendurados.
1 490
1
Natércia Freire
A morte de calar
As viagens que sou
prenderam-se em redomasAo corpo das palavras. À morte de
calar.Do alfabeto meu ignoro as cristalinasFormas de
aladas letras nestes versos finais.São fantasmas de
sol. São fantasmas de sedeQue chegam alta noite
para nenhum lugar.Decifro nas entranhas das
trevas migradorasO solstício da vida além da morte
clara.Mas quem me vem cegar, com setas voadorasNega-me
agora a paz das secretas paisagens.Meus Irmãos
de astronaves, guiadas por um morto,Que me
esperam e estão, que me cantam e falam.Que na vazia
Cruz crucificam meu corpoE abandonam a flor, mesmo
a meio da sala.À janela rasgada, para as
cinzentas águas,Encostam-me, sem olhos, e deixam-me
ficar.Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.E
mesmo que tivesse, ninguém leria o mar.
prenderam-se em redomasAo corpo das palavras. À morte de
calar.Do alfabeto meu ignoro as cristalinasFormas de
aladas letras nestes versos finais.São fantasmas de
sol. São fantasmas de sedeQue chegam alta noite
para nenhum lugar.Decifro nas entranhas das
trevas migradorasO solstício da vida além da morte
clara.Mas quem me vem cegar, com setas voadorasNega-me
agora a paz das secretas paisagens.Meus Irmãos
de astronaves, guiadas por um morto,Que me
esperam e estão, que me cantam e falam.Que na vazia
Cruz crucificam meu corpoE abandonam a flor, mesmo
a meio da sala.À janela rasgada, para as
cinzentas águas,Encostam-me, sem olhos, e deixam-me
ficar.Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.E
mesmo que tivesse, ninguém leria o mar.
1 356
1
Cláudia Marczak
Quero um homem
Quero um homem
que toque minha alma,
que entre pelos meus olhos
e invada meus sonhos.
Quero que me possua inteira,
corpo e alma,
fazendo dos meus desejos
breves segundos de êxtase
o prazer do encontro total.
Quero sentir seus braços longos
envolvendo meu abraço,
seus lábios mudos
calando o meu silêncio
sem precisar nada dizer...
apenas me olhando
com olhos negros e úmidos
e me tomando devagar,
como o mar avança na praia,
como eu sei que tem que ser
e sei que um dia será.
que toque minha alma,
que entre pelos meus olhos
e invada meus sonhos.
Quero que me possua inteira,
corpo e alma,
fazendo dos meus desejos
breves segundos de êxtase
o prazer do encontro total.
Quero sentir seus braços longos
envolvendo meu abraço,
seus lábios mudos
calando o meu silêncio
sem precisar nada dizer...
apenas me olhando
com olhos negros e úmidos
e me tomando devagar,
como o mar avança na praia,
como eu sei que tem que ser
e sei que um dia será.
1 316
1
Rui Nogar
Xicuembo
Eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco
agora eu quero dormir quer comer
mas não pode mais dormir
não pode mais comer
suruma dos teus olhos Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração
eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração
e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente
menos meu minhamor.
dos teus ólho Ana Maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco
agora eu quero dormir quer comer
mas não pode mais dormir
não pode mais comer
suruma dos teus olhos Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração
eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração
e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente
menos meu minhamor.
1 449
1
Manuel da Fonseca
Segunda
Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.
Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...
Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.
Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...
Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!
1 770
1
Paul Celan
Cristal
Cristal
Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima.
Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho,
sete corações mais fundo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.
Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima.
Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho,
sete corações mais fundo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.
2 587
1
Vitorino Nemésio
Navio
Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei de onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm,vêm suaves;
Partindo,tão gordas vão!
Como eu gosto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar:
-Olha-me um navio sem rumo!
E,de vê-lo,dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave,em resumo,
Aqui,na minha janela.
de Nem Toda A Noite A
Vida
Do pousar de umas aves
Que não sei de onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm,vêm suaves;
Partindo,tão gordas vão!
Como eu gosto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar:
-Olha-me um navio sem rumo!
E,de vê-lo,dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave,em resumo,
Aqui,na minha janela.
de Nem Toda A Noite A
Vida
2 308
1
José Agostinho Baptista
Urgência
Levanta-te e deixa-me entrar,
diria se pudesse,
junto a esta cama onde a dor te contempla,
sob este tecto frio que não inventa qualquer
paisagem,
qualquer lembrança de barcos ancorados no
vazio da nossa alma,
diria que lá fora escuto a sirene que se
aproxima
e a chuva que bate com as suas gotas de
angústia na pedras da estrada,
diria que essas quatro rodas vão levar-te,ao
longo do pánico e da noite,
para outras paredes onde nenhum crucifixo
redime a desolação das casas,
diria que se afastaram para sempre os
dias antigos,
as suas laranjas,a sua água,
uma cerejeira breve onde os melros cantavam.
diria se pudesse,
junto a esta cama onde a dor te contempla,
sob este tecto frio que não inventa qualquer
paisagem,
qualquer lembrança de barcos ancorados no
vazio da nossa alma,
diria que lá fora escuto a sirene que se
aproxima
e a chuva que bate com as suas gotas de
angústia na pedras da estrada,
diria que essas quatro rodas vão levar-te,ao
longo do pánico e da noite,
para outras paredes onde nenhum crucifixo
redime a desolação das casas,
diria que se afastaram para sempre os
dias antigos,
as suas laranjas,a sua água,
uma cerejeira breve onde os melros cantavam.
1 864
1
Luiza Neto Jorge
SO-NETO JORGE,Luiza
A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo;
sismos,orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu,quase a rimar,exulto.
Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos,um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.
Nos desertos-íntimos,insuspeitos-
já caem com a calma as avestruzes
-ou a distância,com os oásis,finda;
à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego,e à vinda.
de O Amor e o Ócio
o amado abre os dentes e eu deslizo;
sismos,orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu,quase a rimar,exulto.
Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos,um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.
Nos desertos-íntimos,insuspeitos-
já caem com a calma as avestruzes
-ou a distância,com os oásis,finda;
à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego,e à vinda.
de O Amor e o Ócio
1 937
1
José Tolentino Mendonça
Às escondidas
Os primeiros chuviscos restituem-nos
o incrível cheiro da terra
mas nós estaremos quem sabe longe
do que tem significado
Preenchemos a inscriçõa numa piscina municipal
não sabemos bem o motivo ou não dizemos a ninguém
como os dias nos pedem a dureza
ofegante,instintiva
que têm para os nadadores as braçadas
Uma sombra nos acalma
Uma claridade nos dói
Cedo receamos a felicidade daquelas imagens
que reeencontramos dentro de nós
e não se ligam a nada
o incrível cheiro da terra
mas nós estaremos quem sabe longe
do que tem significado
Preenchemos a inscriçõa numa piscina municipal
não sabemos bem o motivo ou não dizemos a ninguém
como os dias nos pedem a dureza
ofegante,instintiva
que têm para os nadadores as braçadas
Uma sombra nos acalma
Uma claridade nos dói
Cedo receamos a felicidade daquelas imagens
que reeencontramos dentro de nós
e não se ligam a nada
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José Tolentino Mendonça
Sobre um improviso de John Coltrane
Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia
primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é didícil
é cada vez mais difícil entrar em casa
não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores
e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia
primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é didícil
é cada vez mais difícil entrar em casa
não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores
e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção
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Amparo Jimenez
Entrega
Una ola rompe violenta
en la playa de nuestros cuerpos
nos inunda un rugido de mar
contra las rocas.
Al retirarse,
lenta,
nos deja una brisa erótica
que nos envuelve
uniéndonos
para siempre
en un beso.
en la playa de nuestros cuerpos
nos inunda un rugido de mar
contra las rocas.
Al retirarse,
lenta,
nos deja una brisa erótica
que nos envuelve
uniéndonos
para siempre
en un beso.
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