Emoções
Poemas neste tema
Fernando Tavares Rodrigues
Elegia
Só tu que
não existes
Me dás calma.
Porque não tens alma,
Porque não consistes.
Mesmo quando voltas
- tu que não estiveste-
não me trazes nada;
nem mesmo o calor
da chama apagada.
Porque não te tenho
E vivo contigo,
Porque não te quero
Nem sou teu amigo
Deixa-me o teu corpo:
Ânfora vazia,
Vinho de ciúme.
Deixa-me o que fui
- o meu eco em ti...
não existes
Me dás calma.
Porque não tens alma,
Porque não consistes.
Mesmo quando voltas
- tu que não estiveste-
não me trazes nada;
nem mesmo o calor
da chama apagada.
Porque não te tenho
E vivo contigo,
Porque não te quero
Nem sou teu amigo
Deixa-me o teu corpo:
Ânfora vazia,
Vinho de ciúme.
Deixa-me o que fui
- o meu eco em ti...
1 327
Sandra Falcone
Não Chorou
quando
nasceu
não desperdiçava nada
nem lágrimas
não era triste
nem alegre
pra quê?
se nem menino
chegou a ser?
nasceu a assim
pronto pra vida
e da vida
que já sabia tudo
já não pedia quase mais nada
pra quê?
se até da fome
que já era tanta
nem mais lembrava?
nasceu
não desperdiçava nada
nem lágrimas
não era triste
nem alegre
pra quê?
se nem menino
chegou a ser?
nasceu a assim
pronto pra vida
e da vida
que já sabia tudo
já não pedia quase mais nada
pra quê?
se até da fome
que já era tanta
nem mais lembrava?
727
Joaquim Pessoa
Outono
Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
2 219
Fernando Namora
Cantar D'Amigo
Estrangeiro!
talharam-nos em redor fossos, limites
e o cerco das fronteiras.
Estrangeiro! Ninguém entendeu, e nem tu, estrangeiro,
que entre nós não existem cordilheiras.
Ficaste de mãos desastradas, indiferentes,
quando a minha vida roçou a tua vida.
De olhos parados, indiferentes,
quando passei a teu lado.
Estrangeiro! Ficou-me esse desperdício de um adeus
que as tuas mãos frias não disseram,
nem os teus olhos vidrados,
nem a tua boca selada,
mas que eu pressenti, como alguém á beira de um cais,
ao ver sair barcos com gente que nos é estranha,
agitando lenços estranhos
alguém que sofre por nada.
Iludimos a vida, amigo!
E como para ultrapassar as fronteiras
os fossos,
as ironias
bastaria um só olhar!...
Não, estrangeiro! Vamos misturar o sangue dos rios
o abismo dos mapas
fazer qualquer coisa! misturar, misturar.
talharam-nos em redor fossos, limites
e o cerco das fronteiras.
Estrangeiro! Ninguém entendeu, e nem tu, estrangeiro,
que entre nós não existem cordilheiras.
Ficaste de mãos desastradas, indiferentes,
quando a minha vida roçou a tua vida.
De olhos parados, indiferentes,
quando passei a teu lado.
Estrangeiro! Ficou-me esse desperdício de um adeus
que as tuas mãos frias não disseram,
nem os teus olhos vidrados,
nem a tua boca selada,
mas que eu pressenti, como alguém á beira de um cais,
ao ver sair barcos com gente que nos é estranha,
agitando lenços estranhos
alguém que sofre por nada.
Iludimos a vida, amigo!
E como para ultrapassar as fronteiras
os fossos,
as ironias
bastaria um só olhar!...
Não, estrangeiro! Vamos misturar o sangue dos rios
o abismo dos mapas
fazer qualquer coisa! misturar, misturar.
2 537
António Botto
Canções
Pedir
amparo a alguém é uma loucura.
Pedir amor,
Também nada resolve – e para quê?
O amor corre – e em seus próprios movimentos
Isola-se, e de tudo parece que descrê;
E quando vem dizer-nos que é verdade,
Vê-se a mentira
Em que ele a rir afirma o que não vê.
amparo a alguém é uma loucura.
Pedir amor,
Também nada resolve – e para quê?
O amor corre – e em seus próprios movimentos
Isola-se, e de tudo parece que descrê;
E quando vem dizer-nos que é verdade,
Vê-se a mentira
Em que ele a rir afirma o que não vê.
2 857
Joaquim Pessoa
Ícaro
A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.
Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...
Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:
Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.
Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...
Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:
Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
1 630
Angela Santos
Anunciação
Pior
que tudo
foi o inverno ter chegado
assim de repente,
quando ansiava ainda
manhãs de estio
Pior que tudo, este vento
varrendo dos sentidos
toda a volúpia
Pior que tudo
é este sentir-me estrangeira,
estar dentro e fora da festa…
Lá ao longe eu oiço
musica.. rufares.. alarido
e os convivas chamando
a entrar na dança
e a beber da taça
que colheu o dia.
que tudo
foi o inverno ter chegado
assim de repente,
quando ansiava ainda
manhãs de estio
Pior que tudo, este vento
varrendo dos sentidos
toda a volúpia
Pior que tudo
é este sentir-me estrangeira,
estar dentro e fora da festa…
Lá ao longe eu oiço
musica.. rufares.. alarido
e os convivas chamando
a entrar na dança
e a beber da taça
que colheu o dia.
945
Angela Santos
Caminhos
Há
caminho, e caminhos
largos uns, estreitando-se
outros.
Há os que caminham
a par de outros que caminham
outros caminhos
Há os que seguem seus caminhos,
solitários
à força de o querer
Há os solitários
que buscam caminhos paralelos
mas sempre e só
a solidão companheira
suspensa no seu caminho.
caminho, e caminhos
largos uns, estreitando-se
outros.
Há os que caminham
a par de outros que caminham
outros caminhos
Há os que seguem seus caminhos,
solitários
à força de o querer
Há os solitários
que buscam caminhos paralelos
mas sempre e só
a solidão companheira
suspensa no seu caminho.
1 056
Angela Santos
Em má companhia
Olho
o meu passado
vejo os sonhos apagando-se
ainda inteiros
e não sei como trazia tais sonhos
em mim
Onde me perdi,
o que perdi no caminho
por onde seguiram meus passos
que os vejo lá marcados no chão
e eu presa aqui?
Ah! Esta solidão que farta…
Nem Deus, nem o Diabo
comigo vão
sobrei eu no meio desta
imensidão
apenas eu comigo,
e da companhia me cansei.
o meu passado
vejo os sonhos apagando-se
ainda inteiros
e não sei como trazia tais sonhos
em mim
Onde me perdi,
o que perdi no caminho
por onde seguiram meus passos
que os vejo lá marcados no chão
e eu presa aqui?
Ah! Esta solidão que farta…
Nem Deus, nem o Diabo
comigo vão
sobrei eu no meio desta
imensidão
apenas eu comigo,
e da companhia me cansei.
1 060
Angela Santos
Humanum
Nada
mais,
além deste humano sentir…
à força de quê
calar a mágoa que nos afoga ?
Humano querer,
simples traço da humanidade,
indelével marca impressa
na verdade de humano
ser.
mais,
além deste humano sentir…
à força de quê
calar a mágoa que nos afoga ?
Humano querer,
simples traço da humanidade,
indelével marca impressa
na verdade de humano
ser.
637
Angela Santos
Ao Sul
Nas
terras do sul
há uma lonjura que entra pelos olhos
Instala-se na alma e deixa-se ficar
Nas terras do sul
há homens cansados, colados às paredes
brancas de cal lisa
A planície entende-se e lembra o mar
outras vezes lembra
um deserto vasto a perder de vista
E os homens do sul
cansados de olhar o que foi planície
e parece mar
quando o sol abrasa perdem-se na miragem
que os desertos guardam
Nas terras do sul
há um destino vago e dias de incerteza
e é junto às árvores
que se erguem a prumo e a sombra espelham
que param cansados e choram a terra
com seu olhar vago, seu olhar sem rumo
E na corda a prumo que à arvore se enlaça
em silencio acenam um ultimo adeus
ao sol, à planície, ao vazio ao mundo.
terras do sul
há uma lonjura que entra pelos olhos
Instala-se na alma e deixa-se ficar
Nas terras do sul
há homens cansados, colados às paredes
brancas de cal lisa
A planície entende-se e lembra o mar
outras vezes lembra
um deserto vasto a perder de vista
E os homens do sul
cansados de olhar o que foi planície
e parece mar
quando o sol abrasa perdem-se na miragem
que os desertos guardam
Nas terras do sul
há um destino vago e dias de incerteza
e é junto às árvores
que se erguem a prumo e a sombra espelham
que param cansados e choram a terra
com seu olhar vago, seu olhar sem rumo
E na corda a prumo que à arvore se enlaça
em silencio acenam um ultimo adeus
ao sol, à planície, ao vazio ao mundo.
944
Angela Santos
Meninos
Olho
os meninos que habitam a rua
casa que abriga
quem dentro das casas escoa os restos
da sua alma nua
E nas noites frias
em bando se juntam, sacudindo o frio
que trazem colado à pele e à vida,
Meninos,
perdidos pelas esquinas
nem sabem que existe um tempo adiante
que já não conjugam,
futuro imperfeito cravado nos dias.
E os meninos olham-nos
com seus olhos fundos que nos desafiam
e sentimos medo… não sentimos culpa!
os meninos que habitam a rua
casa que abriga
quem dentro das casas escoa os restos
da sua alma nua
E nas noites frias
em bando se juntam, sacudindo o frio
que trazem colado à pele e à vida,
Meninos,
perdidos pelas esquinas
nem sabem que existe um tempo adiante
que já não conjugam,
futuro imperfeito cravado nos dias.
E os meninos olham-nos
com seus olhos fundos que nos desafiam
e sentimos medo… não sentimos culpa!
1 051
Angela Santos
Aguarela
Matizes
cinza suspensos,
em eco passos e risos
mistura de fumo
e nuvens
que se cruzam apressadas
Gritos, ecos e latidos
a lembrar a vida , breve……
e a suave batida do gotejar
da água
sobre os remendos de musgo
que cresceram nos beirais…
Contínuo o som da chuva
é um adagio na vidraça,
como cinzento é o dia
que o sopro da tarde arrasta
e lentas se desprendendo
de um relógio de parede
as horas gastam o dia,
escoando devagar o tempo.
Da varanda da memória
colhem-se pedaços de azul.
e um quadro de girassóis
lembra estios passados,
enquanto a palavra emerge
e vai traçando os contornos
que compõem a aguarela
que com o dia se vai.
cinza suspensos,
em eco passos e risos
mistura de fumo
e nuvens
que se cruzam apressadas
Gritos, ecos e latidos
a lembrar a vida , breve……
e a suave batida do gotejar
da água
sobre os remendos de musgo
que cresceram nos beirais…
Contínuo o som da chuva
é um adagio na vidraça,
como cinzento é o dia
que o sopro da tarde arrasta
e lentas se desprendendo
de um relógio de parede
as horas gastam o dia,
escoando devagar o tempo.
Da varanda da memória
colhem-se pedaços de azul.
e um quadro de girassóis
lembra estios passados,
enquanto a palavra emerge
e vai traçando os contornos
que compõem a aguarela
que com o dia se vai.
984
Angela Santos
Resistência
No caminhar silente
cresce um ventre
prenhe de vozes que não sei
mas adivinho,
eco sussurrante, tão perto , tão irmão…
ainda te oiço…
rompe o silencio
rasga as paredes de solidão
a estreitarem dentro de mim…
quase cedo…
à impotência de gestos,
à recusa de passos,
à inutilidade de cada grito que amordaço.
cresce um ventre
prenhe de vozes que não sei
mas adivinho,
eco sussurrante, tão perto , tão irmão…
ainda te oiço…
rompe o silencio
rasga as paredes de solidão
a estreitarem dentro de mim…
quase cedo…
à impotência de gestos,
à recusa de passos,
à inutilidade de cada grito que amordaço.
967
Nauro Machado
Com os dez dedos da mão
Falhei
de tudo o pouco que ainda pude:
se o ser real não pôde ser virtude,
e o irreal ser só pôde , em represália
dizer ao ser real, sem que o abale a
vida em mim a ser só da ilusão:
de ti já sou, por fim, teu falso irmão,
eis o peso da angústia, o enxofre do ouro,
onde enterrei meu possível tesouro.
Feito de quê? De sombra mais que luz,
na assombração debaixo de uma cruz.
descobri-me à verdade, enfim capaz
de oferecer-se a mim - dela incapaz -
mas, sobretudo, pão, rosa ou dejeto,
Uma verdade feita de alfabeto.
de tudo o pouco que ainda pude:
se o ser real não pôde ser virtude,
e o irreal ser só pôde , em represália
dizer ao ser real, sem que o abale a
vida em mim a ser só da ilusão:
de ti já sou, por fim, teu falso irmão,
eis o peso da angústia, o enxofre do ouro,
onde enterrei meu possível tesouro.
Feito de quê? De sombra mais que luz,
na assombração debaixo de uma cruz.
descobri-me à verdade, enfim capaz
de oferecer-se a mim - dela incapaz -
mas, sobretudo, pão, rosa ou dejeto,
Uma verdade feita de alfabeto.
1 431
Nauro Machado
Duplo Ruim
Toda existência
é voraz.
Todo ser deveria ser só.
Não unir-se nunca, jamais,
não enroscar-se a nenhum pó.
Ter por casa o mundo todo.
Ter por lar o que é do chão.
Carne, ó dinheiro de um soldo
ganho só com maldição!
Vilipendiar-se? Por quê?
Unir-se a outro? Mas com qual?
Ser um só, para mais ser,
fruto embora de um casal.
Toda existência é nenhuma,
Se feita para outra , em dois.
Role o mar, eterna espuma,
Presente ontem e depois.
é voraz.
Todo ser deveria ser só.
Não unir-se nunca, jamais,
não enroscar-se a nenhum pó.
Ter por casa o mundo todo.
Ter por lar o que é do chão.
Carne, ó dinheiro de um soldo
ganho só com maldição!
Vilipendiar-se? Por quê?
Unir-se a outro? Mas com qual?
Ser um só, para mais ser,
fruto embora de um casal.
Toda existência é nenhuma,
Se feita para outra , em dois.
Role o mar, eterna espuma,
Presente ontem e depois.
1 718
Angela Santos
Do Poeta
A
palavra do Poeta é um canto
arrancado à raiz do ser,
cifra encontrada
na opaca fundura do tempo
contínuo e sem medida…
Chão secreto é o ser do Poeta
onde o sentido germina
tempestade de clarões
que atravessa e torna prenhe
a palavra solta .. sibilina
Uma dor de punhais cresce
quando o silencio é rasgado
mas a alma do Poeta,
renascida a cada golpe fundo,
transfigurada revela
a própria dimensão
do mundo!
palavra do Poeta é um canto
arrancado à raiz do ser,
cifra encontrada
na opaca fundura do tempo
contínuo e sem medida…
Chão secreto é o ser do Poeta
onde o sentido germina
tempestade de clarões
que atravessa e torna prenhe
a palavra solta .. sibilina
Uma dor de punhais cresce
quando o silencio é rasgado
mas a alma do Poeta,
renascida a cada golpe fundo,
transfigurada revela
a própria dimensão
do mundo!
992
Mauricio Segall
O voraz saboreio
O voraz
saboreio de cada milímetro
da tua epiderme cor de centeio
das costas aos seios da fronte aos poros
dispostos nas teias de veios azulados
que tateio com lábios sem peias
e leio com olhos que seguem amorosos
todo meneio ameno e ondular sereno do laceio
dos músculos e do recheio carnudo pleno que mordo com dentes afiados
de permeio aos suspiros dolentes na procura do odor perfumado
nas grutas dispersas que cheiro em todo teu corpo macio e cheio
desejado sofregamente na expressão máxima
do meu inexaurível amor anseio.
saboreio de cada milímetro
da tua epiderme cor de centeio
das costas aos seios da fronte aos poros
dispostos nas teias de veios azulados
que tateio com lábios sem peias
e leio com olhos que seguem amorosos
todo meneio ameno e ondular sereno do laceio
dos músculos e do recheio carnudo pleno que mordo com dentes afiados
de permeio aos suspiros dolentes na procura do odor perfumado
nas grutas dispersas que cheiro em todo teu corpo macio e cheio
desejado sofregamente na expressão máxima
do meu inexaurível amor anseio.
906
Nauro Machado
Caxangá
Há um desespero
real na palavra
um desespero contra o desespero
enlouquecido em tudo que é palavra
incapaz de dizer o real nela,
e um desespero dentro, um desespero
da palavra assentada na palavra,
da palavra assentada nela mesma,
canal e boca de uma angustia virgem,
de um dia novo contra a noite fora
envolvendo de luto os nomes todos:
antônio, ténis, sonho, árvore, morte.
sombra dentro de sombra, mas girando
em rodopio eterno, o pião da sombra,
o que fazer da voz, senão clamar
em uivos de absurda sombra , á noite
geradora de braços e destroços
vogando intérminos no extinto brado?
real na palavra
um desespero contra o desespero
enlouquecido em tudo que é palavra
incapaz de dizer o real nela,
e um desespero dentro, um desespero
da palavra assentada na palavra,
da palavra assentada nela mesma,
canal e boca de uma angustia virgem,
de um dia novo contra a noite fora
envolvendo de luto os nomes todos:
antônio, ténis, sonho, árvore, morte.
sombra dentro de sombra, mas girando
em rodopio eterno, o pião da sombra,
o que fazer da voz, senão clamar
em uivos de absurda sombra , á noite
geradora de braços e destroços
vogando intérminos no extinto brado?
1 451
Angela Santos
Ao Largo
Vaga
esqueleto de navio
ausência de mastro e velas,
um piloto exausto no convés
navio a desfazer-se nas ondas
sem outro destino,
distante de um porto
a que ancorar.
Sonho partidas, chegadas
portos ignotos,
águas claras,
e uma ilha lá longe
onde espraiar o cansaço.
esqueleto de navio
ausência de mastro e velas,
um piloto exausto no convés
navio a desfazer-se nas ondas
sem outro destino,
distante de um porto
a que ancorar.
Sonho partidas, chegadas
portos ignotos,
águas claras,
e uma ilha lá longe
onde espraiar o cansaço.
1 225
Angela Santos
Condição
Se
de um mistério me queres falar
lembra-me a semente prenhe
acoitada no seio da terra
em silencio a germinar
Se me queres falar
do amor – dor
fala-me do tenro tronco
que em grito rasga
o corpo da mulher
Se me queres falar da alegria
lembra-me um rútila boca pequenina
que sem sombra de cuidado
ri ainda
Se me queres falar de paz
leva-me ao fim do dia
junto ao esplendor de um sol
em brasa
sobre a mansidão do mar.
Se me queres falar da vida
mostra-me o homem que procura
fala-me do amor, da dor
e às vezes da alegria!
de um mistério me queres falar
lembra-me a semente prenhe
acoitada no seio da terra
em silencio a germinar
Se me queres falar
do amor – dor
fala-me do tenro tronco
que em grito rasga
o corpo da mulher
Se me queres falar da alegria
lembra-me um rútila boca pequenina
que sem sombra de cuidado
ri ainda
Se me queres falar de paz
leva-me ao fim do dia
junto ao esplendor de um sol
em brasa
sobre a mansidão do mar.
Se me queres falar da vida
mostra-me o homem que procura
fala-me do amor, da dor
e às vezes da alegria!
952
Nauro Machado
A Rosa Total
Amo, como
ilusão do gesto,
a presença que se desfaz,
para florescer de novo
sobre o inexaurível nada.
Amo, como debalde quero,
apenas o odor do ser:
essa presença, breve e etérea,
logo restrita á eternidade.
ilusão do gesto,
a presença que se desfaz,
para florescer de novo
sobre o inexaurível nada.
Amo, como debalde quero,
apenas o odor do ser:
essa presença, breve e etérea,
logo restrita á eternidade.
1 528
Mauricio Segall
Gostaria de Chegar
Gostaria
de chegar ao século vinte e um
cavalgando um rojão de velas
acompanhado da minha fada
aureolada por uma chuva de estrelas.
Por isto é que é tão, tão triste,
meu braço desnudo, já com a lua desligada,
explorar todo universo
e encontrar somente o frio da alvorada.
Com quem despertar na manhã seguinte?
eis a angústia que me testa
pois não sei se paga a pena
afrontar, gelado, o resto de vida que ainda resta.
de chegar ao século vinte e um
cavalgando um rojão de velas
acompanhado da minha fada
aureolada por uma chuva de estrelas.
Por isto é que é tão, tão triste,
meu braço desnudo, já com a lua desligada,
explorar todo universo
e encontrar somente o frio da alvorada.
Com quem despertar na manhã seguinte?
eis a angústia que me testa
pois não sei se paga a pena
afrontar, gelado, o resto de vida que ainda resta.
729
Angela Santos
Asas
Do
cimo de uma falésia
olhou com olhos despidos de mágoa
dentro do sonho suspenso no tempo
e fez dos gestos um grito
de encontro ao silencio
dos que o olhavam.
Olhos abertos ao devir
e ao sonho,
esfinge resistindo ao tempo
afrontando o vago de almas
e o olhar sem deslumbre,
ao chão da evidência preso.
cimo de uma falésia
olhou com olhos despidos de mágoa
dentro do sonho suspenso no tempo
e fez dos gestos um grito
de encontro ao silencio
dos que o olhavam.
Olhos abertos ao devir
e ao sonho,
esfinge resistindo ao tempo
afrontando o vago de almas
e o olhar sem deslumbre,
ao chão da evidência preso.
694
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