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Poemas neste tema

Langston Hughes

Langston Hughes

ASPIRAÇÃO

Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
E até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
Quando já entardeceu,
Enquanto a noite vem
- Negra como eu -
Descansar... É o que quero!

Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
Cantar, pular, dançar
Até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
- Este o desejo meu -
Quando a noite baixar
Negra como eu.

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Paul Éluard

Paul Éluard

EM SEU LUGAR

Raio de sol entre dois límpidos diamantes
E a lua a se fundir nos trigais obstinados

Uma imóvel mulher tomou lugar na terra
No calor ela se ilumina lentamente
Profundamente como um broto e como uni fruto

Nele a noite floresce o dia amadurece.

(Tradução de Manuel Bandeira)

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William Shakespeare

William Shakespeare

Soneto XXIX

Quando em desgraça aos olhos dos humanos,
sozinho choro o meu maldito estado,
e ao surdo céu gritando vou meus danos,
e a mim me vejo e amaldiçoa o Fado,

sonhando-me outro, fico de esperanças,
coa imagem del. como el tão respeitado,
invejo as artes de um, doutro as usanças,
do que mais gozo menos contentado.

Mas se ao pensar assim, quase me odiando,
acaso penso em ti, logo meu estado,
como ave, às portas celestiais cantando,
se ergue na terra, quando o sol é nado.

Pois que lembrar-te, amor, tem tal valia,
que nem com grandes reis me trocaria.
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Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

PORTO SEPULTO

Aí chega o poeta
e depois volta à luz com seus cantos
e os dispersa.

Desta poesia
resta-me um
nada
de inexaurível segredo.

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Michelangelo

Michelangelo

RENDETE A GLI OCHI MIEI

A meus olhos volvei, ó fonte, ó rio,
essas ondas não vossas, forte veia,
que mais vos ergue e cresce, grande cheia,
maior que é vosso natural desvio.

E tu, ar denso, de que me alumio
a luz não escondas, se suspiro enfreia
quem só de contemplá-la se recreia,
e só de suspirar te faz sombrio.

Devolva a terra os passos a meus pés,
e erva germine já por els pisada,
e Eco, tão surdo, o que eu chorei me chore.

E a vista a mim, o teu olhar cortês.
Que uma outra vez outra beleza adore,
já que de mim te não contentas nada.

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Ivaldo Gomes

Ivaldo Gomes

Ao norte de mim

E o mundo gira em círculos,
Cada vez mais fechados.
É como se fosse uma roda,
A moer minhas esperanças
Sem dó nem piedade.

E gira o mundo em mim,
E muda os fusos
E difusos eu fico,
Eu vou.

E olho o norte da
Minha bússola amorosa,
E o magnético aponta.
O meu desapontamento.

E fico girando os pensamentos,
Ungüentos dos meus
Sonhos, desejos.
Lembro dos beijos,
Dados em ti.
Do universo de
Encantos do céu
Da tua boca.

E rouca fica a voz,
O violão e o verso.
E no reverso dos dias,
Ao Norte de mim.

E rola a vida lá fora...
E gira o desejo no peito...

E o meu astrolábio,
Salgado da maresia,
Molhados dos pingos
Das lágrimas.
Que caem assim.

Ai de mim, prisioneiro.
Desse olhar, que roda, roda,
Ao Norte de mim.

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Virgínia Schall

Virgínia Schall

Amor em azul e branco

Nuvens brancas
espumas flutuando os andes
Brancas geleiras
pinceladas impressionistas
descendo sobre os cimos
do Ozorno
Branco em flor
campo de margaridas
ondulando ao vento
Branco-amor
esvoaça em lençois e cortinas
desnudando os corpos no quarto
róseos, ardentes, úmidos e ungidos
Branco enevoado do ar
em cheiro de sêmen-vida
do encontro que exala
e enche a casa
perfuma a brisa e se espalha
por entre as ondas suaves
do marinho Pacífico,
ornando a cena, túrgido e cingido
ao azul celeste da Terra em cio.

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Eugénia Tabosa

Eugénia Tabosa

Haicais

teu corpo deitado
acorda desejos
não confessados

meus dedos-olhos
desvendam sem pressa
doces mistérios

palmo a palmo
dedo a dedo
inicio teu percurso

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Cristiane Neder

Cristiane Neder

Queria experimentar no seu corpo

(para Lorraine Williams)

Queria experimentar
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do Deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura.

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Rômulo do Amaral Filho

Rômulo do Amaral Filho

Sibilo

Sibilo me lembra serpente
Serpente me lembra bote
Bote me lembra picada
Picada me lembra veneno
Veneno me lembra teu beijo
Teu beijo me lembra desejo
Desejo me lembra amor
Amor me lembra prazer
Prazer me lembra teu corpo
Teu corpo me lembra sonhar
Sonhar me lembra te amar
Te amar lembra
Morrer de paixão

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Douglas Mondo

Douglas Mondo

Mulher das águas

És mulher das águas,
quando recebes em teu corpo a espuma
como bruma e beijas sábia ventura.

Tão doce tua voz como mel,
quando acalentas o rouxinol cansado
e embriagas de amor o querubim no céu.

No campo desabrocha o suave lírio,
quando tuas mãos tocam o vento
e no etéreo molduras um mosaico delírio.

Teus afagos são gemidos como músicas lascivas,
quando entorpecem as almas dos poetas loucos
e calam a noite de inveja das estrelas em orgia.

Cai a última pétala em tua túnica suave graça,
quando brilham os olhos da esmeralda e da pérola
e silencia quem passa e nunca vira mulher tão bela.

És mulher tão linda e sábia,
quando a manhã faz da sabedoria um sorriso dela
e da poesia um desejo lânguido nesse dia.

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Eliana Mora

Eliana Mora

As portas do meu cofre

Insensata alma
às vezes presa por um fio
A conviver interpretar
como quizer
a luta e o delírio de morar
num corpo
que respira que se inspira
E permanece assim
calado
Como que a temer
os seus escritos
seu papel
algum teclado

E o desafio de morar
num bicho
um ente
que não retoca seus
segredos
[só os sente]

Em tolas gotas
de um secreto mal de amor

Que vivem presas
muito mais por que
trancaram-se
as portas de seu cofre
Do que por desistir
ou esquecer
de ter sonhado

Com o fascínio
e o sabor de certo
beijo
tom carmim

Que já não está
em tua boca

[cor marfim]

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Letícia Luccheze

Letícia Luccheze

Tulipa vermelha


A livraria, perfumaria, supermercado, floricultura.
O cinema.
A loja de roupas, acessórios, cremes.

Ao cair da tarde.

O decote em meios as pernas e nos seios transpirarem.
No olhar um convite ao deleito do prazer.
Flutuava no caminhar,
levando os homens à perdição.

Pessoas vinham e iam.

O maço de flores.

Desejada!
Chamava atenções.

A negra noite cobriu o gramado umedecido;
juntamente com as estrelas que o céu acolhia.

Do alto da janela a fragrância.
Doce, quente, sagaz, ardente.
Libertava os instintos selvagens.

...sussurros de gemidos...
...gemidos de sussurros...
...sussurros de gemidos...

Flores ao ar foram ao chão.
Suadas, embranquecidas.

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Martha Medeiros

Martha Medeiros

Bicho-Papão

bicho-papão
viu moça em flor
e papoula
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José Félix

José Félix

Os teus seios

Os teus seios na palma da mão
são duas laranjas novembrinas
como aromáticas concubinas
a mentir desejos e amor não.

Sorvo o sumo doce e laranjeiro,
prostituido, sim, mas com paixão
os frutos rijos do pomareiro.

Os teus seios na palma da mão.

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Julieta Lima

Julieta Lima

Ninguém vai saber

Ninguém vai saber
Do meu segredo.
Tenho um amante
Belo como Deus
E todo nu
Aqui deitado ao meu lado!
Seus beijos são azuis
E a sua voz vermelha como o lume!
Tenho um amante só meu
E ninguém vai saber,
Ninguém mo vai roubar,
Porque ele é meu, só meu:
É feito de poemas e de fumo...

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Luís Caeiro

Luís Caeiro

Escondido entre o arvoredo

Vejo escondido entre o arvoredo,
Mulheres banhando-se no rio.
Vestidas de nada, nuas, sem medo,
Aquece-as o sol, esquece-lhes o frio.

Invejo o rio que numa carícia,
Afaga todos os seus recantos.
Cresce em mim uma malícia,
Perco-me a fitar os seus encantos.

Banham-se, brincam e gracejam,
Cantam melodias de encantar.
Ainda sinto que ali estejam,
Mesmo depois de acordar.

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Chico Buarque

Chico Buarque

Sem açúcar

Todo dia ele faz diferente
Não sei se ele volta da rua
Não sei se me traz um presente
Não sei se ele fica na sua
Talvez ele chegue sentido
Quem sabe me cobre de beijos
Ou nem me desmancha o vestido
Ou nem me adivinha os desejos

Dia ímpar tem chocolate
Dia par eu vivo de brisa
Dia útil ele me bate
Dia santo ele me alisa
Longe dele eu tremo de amor
na presença dele me calo
Eu de dia sou sua flor
Eu de noite sou seu cavalo

A cerveja dele é sagrada
A vontade dele é a mais justa
A minha paixão é piada
A sua risada me assusta
Sua boca é um cadeado
E meu corpo é uma fogueira
Enquanto ele dorme pesado
Eu rolo sozinha na esteira

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Helga Holtz

Helga Holtz

Uma tarde

Banho os pés em águas derramadas
na tarde em que você chorou em mim.
De todos os seus líquidos diários
só me faltava sentir suas lágrimas...
Sobrevivo agora de vento e escuro,
de muros, sonos, torpores, das tinas
com seu choro, suor, tanto esporro.
Largo as estrelas, recordo resoluta
os vapores sentimentais liberados
naquele exato momento do adultério:
você partindo, o Morrer chegando...

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Clément Marot

Clément Marot

A bela teta

Teta mais branca do que um ovo,
Teta de cetim branco e novo,
Teta que faz inveja à rosa
E mais do que tudo é formosa,
Teta dura, nem teta, sim
Pequena bola de marfim,
Bem no meio da qual aflora,
Rubra, uma cereja ou amora,
Que, aposto com vossa mercê,
Ninguém apalpa, ninguém vê.
Teta de bico cor de sangue,
Teta que nada tem de langue
E, indo ou voltando, não balança,
Quer em corrida, quer em dança.
Teta esquerda, pequenininha,
Sempre distante da vizinha,
Teta que dás fiel imagem
Do restante da personagem,
Quem te vê, que tentação
De te conter dentro da mão
E comprimir-te e apalpar-te;
Mas é melhor deixar-se de artes
E não o fazer, pois prevejo
Que lhe viria outro desejo!
Teu bom tamanho não engana,
Teta madura que dás ganas,
Teta que um só anelo expressa:
"Casai comigo bem depressa!"
Teta que incha e quer ir além
Do corpete que ora a detêm.
Oh! felizardo quem te encher
De leite para te fazer,
De ti que és teta de donzela,
Teta de mulher plena e bela.

2 089 1
Fernando Correia Pina

Fernando Correia Pina

Lamentação da beata

Catorze quecas me deu
o padre da minha aldeia
no tempo que decorreu
entre o jantar e a ceia.
Fosse a sua parenética
igual à sua tesão
e adeus ó fé soviética,
adeus Marx, adeus Islão.
Porém a língua lhe fica
presa num tom de falsete
porque só a lubrifica
com o óleo do minete.
Perdeu-se assim um Vieira
por ponderosas razões -
maior que o peso da alma
foi o peso dos colhões.
Foi em vão todo o trabalho
do seminário contra o vício,
marcou um ponto o caralho
na peida do Santo Ofício.

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Age de Carvalho

Age de Carvalho

Vermelho

Tua,
de seda e feno
no transe da metáfora
a fenda soletrada-sol,
vala de luz, vocabulário

Tua, folhagem. O
olho
alcança o Olho,
desce aos infernos:

sonha o cabelo da urna,
o vermelho
da cifra, a ferida
no centro da fogueira

Tua, tua

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Rosy Feros

Rosy Feros

Dedos do silêncio

Vem...
     Me toma à beira da noite,
     caminha por mim
     com seus passos molhados,
     despeja seu rio no meu cálice
     – pois minha emoção é só água.

Vem...
     Que eu lhe dou um trago
     deste meu vinho guardado,
     destas minhas uvas
     frescas de inverno...
     Que eu derramo em gotas meu perfume
     pelos quatro cantos do seu corpo,
     vestindo sua pele com a camurça
     da nudez e do silêncio.

Vem...
     Deita e me canta,
     sente meu desejo
     se esgueirando pelos seus dedos,
     veleja sem bússola
     pelos meus sentidos,
     me olha como quem pede lua...

     Deixa eu sussurrar minhas folhas,
     soprar minhas pétalas
     pelo seu peito de relva,
     pelo seu solo macio.
     Vem... Não volta,
     esquece a hora morta
     do cotidiano de sempre.
     Me toca feito música
     e deixa eu cantar meu bolero
     pelas suas curvas de carne...

     Sinto-me inocência
     passeando por suas alturas,
     por seus andares cheios
     da mais noturna noite densa.

     Desvenda essa face molhada
     e me mostra a sua vertente original
     de emoção-fêmea pura...
     Que eu o espero na branca paz
     do meu ventre adormecido,
     dos meus braços plenos
     de fogueiras e cantigas.

Vem...
     Que eu desfolho
     toda essa sua vontade nua,
     que eu desperto
     todo esse seu lado cigano...
     pois o meu leite é morno
     e é rosa franca meu sorriso.
     Deixa seu barco
     navegar pelo meu leito,
     que eu carrego no peito a ânsia
     de hastear a bandeira do infinito...

Vem...
     Deita... Me namora...
     Me afoga no espelho de luz
     dessa madrugada afora,
     me diz que no nosso tempo
     não há tempo nem hora,
     que eu não agüento
     a flor do sexo que arde
     nas entranhas de mim...

     Deixa que eu amanheça
     na espuma dessa sua onda quente,
     deixa sua emoção fluir
     da garganta num repente...
     Que eu carrego nos olhos de relento
     a voz que lhe pede a terra
     e que lhe entrega o mar.

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António Lobo de Carvalho

António Lobo de Carvalho

Soneto VIII

A uma freira que se fazia sangrar para lenitivo das comichões que sofria nos antípodas da boca

Põe-se a toalha, chega-se a bacia,
A lanceta na mão, pé na água quente,
Assustado o barbeiro, e reverente
Para a freira voltado assi dizia:

Se dá licença, vossa senhoria...
Pico?... ‹Sim, Ihe diz ela, e tão valente
Que parecia só estar doente
Por pica Ihe faltar naquele dia!

A sangria do barbeiro então se aplica,
E cuidando ao picar a freira morra,
Ela Ihe diz valente: Pica, pica:

E verás nesse sangue quando corra,
Que me fora melhor no que ele indica,
Se em lugar de lanceta fosse porra!

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