Amor
Poemas neste tema
Madi
Vai Embora
Vai Embora
Quando o amor vai embora
o coração aperta e fica de luto
Fica partido
Fica estreito
e dói
Na hora, os olhos quedam
E mesmo assim nada adianta,
nada impede, nada segura o amor
quando quer ir embora
O amor vai
e nunca mais volta
Foi cedo
Passada a dor,
olhos e coração ficam secos
Depois disso,
aprende-se a amar que é uma beleza
Quando o amor vai embora
o coração aperta e fica de luto
Fica partido
Fica estreito
e dói
Na hora, os olhos quedam
E mesmo assim nada adianta,
nada impede, nada segura o amor
quando quer ir embora
O amor vai
e nunca mais volta
Foi cedo
Passada a dor,
olhos e coração ficam secos
Depois disso,
aprende-se a amar que é uma beleza
848
Francisco Miguel de Moura
Soneto dos Cinqüentanos
Aos cinqüenta bebidos, me apeteço
porque a vida me ofertou de espinhos.
flores poucas, encantos mitigados.
E em todo passo a busca de sentidos.
Feliz por ser fidel no que me arrimo.
São secretas conquistas, muito humanas.
Sorrio ao que me passa e vai ao vento:
— Eu sou vagar, sou tempo e não me canso.
Meu corpo alcança o corpo mais cansado,
minha alma inflama a irmã insubmissa,
sem barulhar a paz que me guerreia.
Semeio amor. Na dúvida, campeio
o que me arma de força e decisão.
E vou seguindo. E sei que vou ficando...
porque a vida me ofertou de espinhos.
flores poucas, encantos mitigados.
E em todo passo a busca de sentidos.
Feliz por ser fidel no que me arrimo.
São secretas conquistas, muito humanas.
Sorrio ao que me passa e vai ao vento:
— Eu sou vagar, sou tempo e não me canso.
Meu corpo alcança o corpo mais cansado,
minha alma inflama a irmã insubmissa,
sem barulhar a paz que me guerreia.
Semeio amor. Na dúvida, campeio
o que me arma de força e decisão.
E vou seguindo. E sei que vou ficando...
910
José Lannes
Canção do Juramento
Fiz um dia um juramento
de nunca mais te querer;
de nem sequer um momento
outra vez teu pensamento
no coração acolher...
Era firme o juramento
de nunca mais te querer.
Mas apenas o fizera
mal de meus olhos! — te vi;
e como se nada houvera,
nem ainda te esquecera
o juramento esqueci ...
E mesmo do que fizera
duvidei, quando te vi.
O resultado estou vendo,
estou vendo, mas... em vão:
que sem remédio sofrendo
e sangue e fel escorrendo
tenho agora o coração.
Mas quem, amor, em te vendo
também não jurara em vão?
de nunca mais te querer;
de nem sequer um momento
outra vez teu pensamento
no coração acolher...
Era firme o juramento
de nunca mais te querer.
Mas apenas o fizera
mal de meus olhos! — te vi;
e como se nada houvera,
nem ainda te esquecera
o juramento esqueci ...
E mesmo do que fizera
duvidei, quando te vi.
O resultado estou vendo,
estou vendo, mas... em vão:
que sem remédio sofrendo
e sangue e fel escorrendo
tenho agora o coração.
Mas quem, amor, em te vendo
também não jurara em vão?
1 013
Gilberto Gil
Flora
Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora
Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora
Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora
Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora
Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora
Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora
Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora
Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora
Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora
Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora
Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora
2 632
Frutuoso Ferreira
Noite de Brahma
Corre a Noite de Brahma... A Eternidade avulta...
Aí junto à Porta de Oiro o grande Arcanjo exulta
Na voragem sem fim dos êxtases deiformes;
Estruge o vendaval dos céus pelagiformes
E o Arcanjo vencedor enfrenta os temporais,
Cheio desse esplendor das glórias eternais
E Ele vibra da epopéia azul dos cataclismas,
Nas lavas colossais dos Etnas das cismas.
Corre a Noite de Brahma... O espírito da Flor
Desdobra um madrigal — a apoteose do Amor,
O Amor — Guerreiro audaz — Sol de inefável luz,
Que se tornara um Deus, assim como Jesus:
Pompeiam céus, a flux, chispantes de arrebóis
E a Noite, em flor de Brahma acorda os seus Heróis;
Este que vem fulgindo assim como os cristais,
É um daqueles milhões de assinalados tais.
Aí junto à Porta de Oiro o grande Arcanjo exulta
Na voragem sem fim dos êxtases deiformes;
Estruge o vendaval dos céus pelagiformes
E o Arcanjo vencedor enfrenta os temporais,
Cheio desse esplendor das glórias eternais
E Ele vibra da epopéia azul dos cataclismas,
Nas lavas colossais dos Etnas das cismas.
Corre a Noite de Brahma... O espírito da Flor
Desdobra um madrigal — a apoteose do Amor,
O Amor — Guerreiro audaz — Sol de inefável luz,
Que se tornara um Deus, assim como Jesus:
Pompeiam céus, a flux, chispantes de arrebóis
E a Noite, em flor de Brahma acorda os seus Heróis;
Este que vem fulgindo assim como os cristais,
É um daqueles milhões de assinalados tais.
978
Cid Teixeira de Abreu
Soneto de Amor
o meu amor é só. como as gaivotas,
criei-o na aurora dos rochedos,
acima da impotência dos enredos,
na trilha insondável de outras rotas.
meu amor é meu ser e meus segredos,
a virtude trincada de revoltas.
se não há o querer de eras remotas,
ausência também há de velhos medos...
e cibório de nervos e memória
tensa, coberta de sangue — oh granito!
dólmans brancos nas páginas da história.
o meu amor... quem sabe compreendê-lo,
se a própria alma, na angústia do infinito,
é chama e cinza, é ternura e gelo?!...
criei-o na aurora dos rochedos,
acima da impotência dos enredos,
na trilha insondável de outras rotas.
meu amor é meu ser e meus segredos,
a virtude trincada de revoltas.
se não há o querer de eras remotas,
ausência também há de velhos medos...
e cibório de nervos e memória
tensa, coberta de sangue — oh granito!
dólmans brancos nas páginas da história.
o meu amor... quem sabe compreendê-lo,
se a própria alma, na angústia do infinito,
é chama e cinza, é ternura e gelo?!...
1 030
Cleómenes Campos
Eu Tinha um Beijo Para Sua Boca
a Humberto Cozzo
Eu tinha um beijo para sua boca.
Ela estava, porém, tão alta, que em verdade
não podia jamais florir em realidade
a minha idéia louca...
Era linda! Cantava... Uma voz harmoniosa!
Certa vez, por acaso, olhou-me lá de cima,
e eu fiz uma canção bem simples, amorosa,
em que deixei meu beijo ardente, numa rima,
como um pequeno pirilampo numa rosa...
A canção correu mundo, ágil e colorida,
a espalhar pelo mundo a minha idéia louca.
Um dia, ela também a cantou, distraída...
— Foi assim que beijei a sua boca...
Eu tinha um beijo para sua boca.
Ela estava, porém, tão alta, que em verdade
não podia jamais florir em realidade
a minha idéia louca...
Era linda! Cantava... Uma voz harmoniosa!
Certa vez, por acaso, olhou-me lá de cima,
e eu fiz uma canção bem simples, amorosa,
em que deixei meu beijo ardente, numa rima,
como um pequeno pirilampo numa rosa...
A canção correu mundo, ágil e colorida,
a espalhar pelo mundo a minha idéia louca.
Um dia, ela também a cantou, distraída...
— Foi assim que beijei a sua boca...
1 120
Cid Teixeira de Abreu
Réquiem para Graça
enquanto o coveiro
cava e
escava
de sete palmos a
nava
navega em rodas da saudade
simples tua opção
para uma cadeira de rodas
marejar meus olhos
a terra não comerá minhas lembranças
— minha namorada tu serás
cava e
escava
de sete palmos a
nava
navega em rodas da saudade
simples tua opção
para uma cadeira de rodas
marejar meus olhos
a terra não comerá minhas lembranças
— minha namorada tu serás
874
Ernâni Rosas
Depois de te Sonhar
Depois de Te sonhar Mistério ido
e .seguir-Te e ouvir-Te em Hora leda,
de vesti teu Ser a raios de Astro e Olvido,
de Antigüidade o teu perfil de Moeda.
Parei depois de haver corrido tanto
e amado e urdido Horas de Sonho-Asa?
constelada de azul fulgor de brasa
por Tardes enlaivadas de quebranto...
Sonho em Cristal teu corpo de Champagne?
mansa luz que morrendo sem alarde,
não há sol de crepúsculo, que a estranhe...
Acordas do teu Sono, para Mim!
nos meus olhos à sombra, para a Tarde...
por que surges em Sonhos num jardim?
e .seguir-Te e ouvir-Te em Hora leda,
de vesti teu Ser a raios de Astro e Olvido,
de Antigüidade o teu perfil de Moeda.
Parei depois de haver corrido tanto
e amado e urdido Horas de Sonho-Asa?
constelada de azul fulgor de brasa
por Tardes enlaivadas de quebranto...
Sonho em Cristal teu corpo de Champagne?
mansa luz que morrendo sem alarde,
não há sol de crepúsculo, que a estranhe...
Acordas do teu Sono, para Mim!
nos meus olhos à sombra, para a Tarde...
por que surges em Sonhos num jardim?
1 073
Alfredo Castro
Psicologia do Adeus
Tempo de febre, tempo de loucura,
Esse tempo desfeito tão depressa,
Em que tua alma arrebatada e pura
Me vinha em festa, cheia de promessa.
Tempo de anseios, tempo de ventura,
Em que os teus sentimentos punhas nessa
Força que dava à minha mão, segura
No adeus, à tua. Era a paixão — confessa!
Era a paixão, que em teu olhar brilhava,
De radiosas visões te enchendo a vida,
Dos meus desejos te fazendo escrava.
Hoje, num gesto todo indiferente,
Tomando a minha mão na despedida,
Dás-me as pontas dos dedos, frouxamente!
Esse tempo desfeito tão depressa,
Em que tua alma arrebatada e pura
Me vinha em festa, cheia de promessa.
Tempo de anseios, tempo de ventura,
Em que os teus sentimentos punhas nessa
Força que dava à minha mão, segura
No adeus, à tua. Era a paixão — confessa!
Era a paixão, que em teu olhar brilhava,
De radiosas visões te enchendo a vida,
Dos meus desejos te fazendo escrava.
Hoje, num gesto todo indiferente,
Tomando a minha mão na despedida,
Dás-me as pontas dos dedos, frouxamente!
946
Everaldo Moreira Verás
Descer
A noite foi toda de desordem.
Tu sangravas o suor sedento
que vinha das entranhas de mim.
E a boca engolia o beijo
como se isso fosse o último adeus.
Os seios ardiam (pudins de morango)
e eu os devorei ansiosamente homem
temendo chegar a madrugada.
Percorri teu corpo quase em chamas
minha cabeça parecia um rolo compressor.
E fui descendo
descendo
descendo
até enlouquecer na entrada daquele túnel vivo.
Nunca, nunca um homem desceu tanto!
Tu sangravas o suor sedento
que vinha das entranhas de mim.
E a boca engolia o beijo
como se isso fosse o último adeus.
Os seios ardiam (pudins de morango)
e eu os devorei ansiosamente homem
temendo chegar a madrugada.
Percorri teu corpo quase em chamas
minha cabeça parecia um rolo compressor.
E fui descendo
descendo
descendo
até enlouquecer na entrada daquele túnel vivo.
Nunca, nunca um homem desceu tanto!
795
Félix Pacheco
Ofertório
Cerca-te a nobre fronte uma auréola bendita.
Na nostalgia azul dos teus olhares leio
Uma Balada atroz com Lágrimas escrita.
És para mim, ó Mãe, o vigoroso esteio
Que sustenta de pé a velha e augusta Cripta,
A colunata de oiro erguida em frágil seio,
Para amparar a Torre Astral dos Meus Cismares,
E impedir que ela tombe, em pó desfeita, em ruínas.
A tua voz espalha, em ondas, pelos ares,
Suaves, doridos sons de aflitivas surdinas,
Enchendo o Oceano, enchendo os Céus, enchendo os Mundos.
Como um Réquiem cantado através de neblinas.
Vieste para extinguir os tormentos profundos!
Vieste para apagar as velhas cicatrizes,
Para descortinar o Céu aos moribundos!
Vieste para aliviar a Dor dos infelizes!
Vieste para espancar as Trevas de MinhAlma,
Para arrancar à Dor as rígidas raízes!
Arcanjo de asa branca e protetora espalma,
Emissário de Deus, ó Mãe, tu me trouxeste,
Como uma Bênção do Alto, a esplendorosa calma.
Abrandas a Agonia, exterminas a Peste,
Escravizas o Leão ao teu olhar piedoso,
E o Corvo teme, e o Tigre, a alvura que te veste.
Arcanjo, Santa, Lírio, Estrela, Sol glorioso,
Filtro que os Corações Humanos fortalece,
Tamareira que ensombra o deserto arenoso,
Mater! Suprema Força! Acolhe minha prece!
Na nostalgia azul dos teus olhares leio
Uma Balada atroz com Lágrimas escrita.
És para mim, ó Mãe, o vigoroso esteio
Que sustenta de pé a velha e augusta Cripta,
A colunata de oiro erguida em frágil seio,
Para amparar a Torre Astral dos Meus Cismares,
E impedir que ela tombe, em pó desfeita, em ruínas.
A tua voz espalha, em ondas, pelos ares,
Suaves, doridos sons de aflitivas surdinas,
Enchendo o Oceano, enchendo os Céus, enchendo os Mundos.
Como um Réquiem cantado através de neblinas.
Vieste para extinguir os tormentos profundos!
Vieste para apagar as velhas cicatrizes,
Para descortinar o Céu aos moribundos!
Vieste para aliviar a Dor dos infelizes!
Vieste para espancar as Trevas de MinhAlma,
Para arrancar à Dor as rígidas raízes!
Arcanjo de asa branca e protetora espalma,
Emissário de Deus, ó Mãe, tu me trouxeste,
Como uma Bênção do Alto, a esplendorosa calma.
Abrandas a Agonia, exterminas a Peste,
Escravizas o Leão ao teu olhar piedoso,
E o Corvo teme, e o Tigre, a alvura que te veste.
Arcanjo, Santa, Lírio, Estrela, Sol glorioso,
Filtro que os Corações Humanos fortalece,
Tamareira que ensombra o deserto arenoso,
Mater! Suprema Força! Acolhe minha prece!
935
Cândido Rolim
Resíduos
a lágrima é um ápice
a réstia um âmbito
a morte é um ritmo
o corpo uma oferenda
o beijo é uma núpcia
efêmera
a réstia um âmbito
a morte é um ritmo
o corpo uma oferenda
o beijo é uma núpcia
efêmera
916
Elmar Carvalho
Eterno Retorno
memória:
lâmina de desassossego
cornucópia insana insaciável
a jorrar o passado
que não morre nunca
sempre ressuscitado
no eterno regresso
a nós mesmos.
Ó emoções redivivas
e ampliadas
das sensações
de nervos expostos
nas carnes pulsantes
de um passado
sempre lembrado.
recordações
que dão e são vida
de becos escuros, sem saída
de amores
hoje boleros
bolores em flores
de ilusões perdidas
que se fazem dores
na florida ferida da saudade.
evocações
de dribles esquecidos
de gols frustrados e acontecidos
de um jogo que nunca termina
de uma malsinada sina sinuosa
de lágrimas caudalosas
incontidas, vertidas
das vertentes profundas
do peito — porto
sem tino e sem destino
feito somente de desatino.
as mulheres amadas
na juventude fugaz
não envelhecem
não se corrompem
não morrem jamais
preservadas intactas e belas
na câmara ardente
incandescente da memória.
recordações de fantasmas
que já nos abandonaram
de amigos mortos
que nos acompanham
cada vez mais vivos
de sustos e gritos
de proscritos e malditos
de agouros e assombrações
de desdouros e sombras vãs, malsãs
oriundas dos porões escavados
nos subterrâneos dos sobrados
subterfúgios e refúgios
da memória.
O passado poderoso e renitente
retorna e continua vivido e presente
se contorcendo se retorcendo
e se reacontecendo.
lâmina de desassossego
cornucópia insana insaciável
a jorrar o passado
que não morre nunca
sempre ressuscitado
no eterno regresso
a nós mesmos.
Ó emoções redivivas
e ampliadas
das sensações
de nervos expostos
nas carnes pulsantes
de um passado
sempre lembrado.
recordações
que dão e são vida
de becos escuros, sem saída
de amores
hoje boleros
bolores em flores
de ilusões perdidas
que se fazem dores
na florida ferida da saudade.
evocações
de dribles esquecidos
de gols frustrados e acontecidos
de um jogo que nunca termina
de uma malsinada sina sinuosa
de lágrimas caudalosas
incontidas, vertidas
das vertentes profundas
do peito — porto
sem tino e sem destino
feito somente de desatino.
as mulheres amadas
na juventude fugaz
não envelhecem
não se corrompem
não morrem jamais
preservadas intactas e belas
na câmara ardente
incandescente da memória.
recordações de fantasmas
que já nos abandonaram
de amigos mortos
que nos acompanham
cada vez mais vivos
de sustos e gritos
de proscritos e malditos
de agouros e assombrações
de desdouros e sombras vãs, malsãs
oriundas dos porões escavados
nos subterrâneos dos sobrados
subterfúgios e refúgios
da memória.
O passado poderoso e renitente
retorna e continua vivido e presente
se contorcendo se retorcendo
e se reacontecendo.
540
Ana Maria Ramiro
Iniciação
Oráculos em sonhos,
Inconscientes rituais,
Como posso possuir alma cigana,
se me prendo a tantas convenções?
Procuro um mago, um alquimista,
um pai, um guru, um artista,
Que me instrua na ciência inexata,
mas absoluta das transformações.
Que através de sua abstrata teoria,
Possa eu, luz em redoma,
transformar, não mais vil metal em ouro,
mas em amor, as paixões.
Inconscientes rituais,
Como posso possuir alma cigana,
se me prendo a tantas convenções?
Procuro um mago, um alquimista,
um pai, um guru, um artista,
Que me instrua na ciência inexata,
mas absoluta das transformações.
Que através de sua abstrata teoria,
Possa eu, luz em redoma,
transformar, não mais vil metal em ouro,
mas em amor, as paixões.
783
Atílio Milano
O Filho de Patmore
Meu filho, ralhei contigo,
eu, que sou tão teu amigo!
Mas, se sou tão teu amigo,
por que é que ralho contigo?!
Quando me desobedeces
já com o homem te pareces...
Vais ser o homem que pareces:
vejo que não obedeces!
Foste chorar para a cama,
ofendido com quem te ama!
E teu pai, que tanto te ama,
salta, tão triste, da cama
e vai dar-te a sua bênção.
Ah, vocês filhos não pensam,
ah, vocês filhos nem pensam
que um pai é um deus, dando a bênção!
eu, que sou tão teu amigo!
Mas, se sou tão teu amigo,
por que é que ralho contigo?!
Quando me desobedeces
já com o homem te pareces...
Vais ser o homem que pareces:
vejo que não obedeces!
Foste chorar para a cama,
ofendido com quem te ama!
E teu pai, que tanto te ama,
salta, tão triste, da cama
e vai dar-te a sua bênção.
Ah, vocês filhos não pensam,
ah, vocês filhos nem pensam
que um pai é um deus, dando a bênção!
995
Bocage
O Cão e a Cadela
Em verso alexandrino
Tinha de uma cadela um cão fome canina,
Ele bom perdigueiro, ela de casta fina:
Mil foscas lhe fazia o terno maganão,
Mas gastava o seu tempo, o seu carinho em
vão.
Dando no chichisbéu dentada e maisdentada,
A fêmea parecia um cadela honrada
E incapaz de ceder às pretensões de amor.
Mas o amante infeliz foi sabedor
De que a mesma, em que via ações tão
desabridas,
Era coum torpe cão fagueira às
escondidas.
Se és sagaz, meu leitor, talvez tenhas visto
Cadelas de dois pés, que também fazem isto.
Tinha de uma cadela um cão fome canina,
Ele bom perdigueiro, ela de casta fina:
Mil foscas lhe fazia o terno maganão,
Mas gastava o seu tempo, o seu carinho em
vão.
Dando no chichisbéu dentada e maisdentada,
A fêmea parecia um cadela honrada
E incapaz de ceder às pretensões de amor.
Mas o amante infeliz foi sabedor
De que a mesma, em que via ações tão
desabridas,
Era coum torpe cão fagueira às
escondidas.
Se és sagaz, meu leitor, talvez tenhas visto
Cadelas de dois pés, que também fazem isto.
3 588
Bocage
Ó tranças de que Amor prisões me tece,
Ó tranças de que Amor prisões me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!
Ó ledos olhos, cuja luz parece
Tênue raio de sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!
Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!
Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois? Sois de Vênus? — É mentira;
Sois de Marília, sois dos meus amores.
Ó mãos de neve, que regeis meu fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!
Ó ledos olhos, cuja luz parece
Tênue raio de sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!
Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!
Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois? Sois de Vênus? — É mentira;
Sois de Marília, sois dos meus amores.
3 088
Bastos Tigre
Sintaxe Feminina
Leio: "Meu bem não passa-se um só dia
Que de você não lembre-me"... Ora dá-se!
Mas que terrível idiossincrasia!
Este anjo tem as regras de sintaxe!
Continuo: "Em ti penso noite e dia...
Se como eu amo a ti, você me amasse!
"Não! É demais! Com bruta grosseria
A gramática insulta em plena face!
Respondo: "Sofres? Sofrerei contigo...
Por que razão te ralas e consomes?
Não vês em mim teu dedicado amigo?
Jamais, assim, por teu algoz me tomes!
Tu me colocas mal! Fazes comigo
O mesmo que fizeste com os pronomes!"...
Que de você não lembre-me"... Ora dá-se!
Mas que terrível idiossincrasia!
Este anjo tem as regras de sintaxe!
Continuo: "Em ti penso noite e dia...
Se como eu amo a ti, você me amasse!
"Não! É demais! Com bruta grosseria
A gramática insulta em plena face!
Respondo: "Sofres? Sofrerei contigo...
Por que razão te ralas e consomes?
Não vês em mim teu dedicado amigo?
Jamais, assim, por teu algoz me tomes!
Tu me colocas mal! Fazes comigo
O mesmo que fizeste com os pronomes!"...
1 477
Ana Amélia
Mal de Amor
Toda pena de amor, por mais que doa,
No próprio amor encontra recompensa.
As lágrimas que causa a indiferença
Seca-as depressa uma palavra boa.
A mão que fere, o ferro que agrilhoa,
Obstáculos não são que Amor não vença,
Amor transforma em luz a treva densa;
Por um sorriso Amor tudo perdoa.
Ai de quem muito amar não sendo amado,
E depois de sofrer tanta amargura,
Pela mão que o feriu não for curado...
Noutra parte há de em vão buscar ventura:
Fica-lhe o coração despedaçado,
Que o mal de Amor só nesse Amor tem cura.
No próprio amor encontra recompensa.
As lágrimas que causa a indiferença
Seca-as depressa uma palavra boa.
A mão que fere, o ferro que agrilhoa,
Obstáculos não são que Amor não vença,
Amor transforma em luz a treva densa;
Por um sorriso Amor tudo perdoa.
Ai de quem muito amar não sendo amado,
E depois de sofrer tanta amargura,
Pela mão que o feriu não for curado...
Noutra parte há de em vão buscar ventura:
Fica-lhe o coração despedaçado,
Que o mal de Amor só nesse Amor tem cura.
1 276
Cláudio Alex
Não sou arroz, eu não!
Eu não sou arroz, não, meu amor!
Te esforçaras para faze-lo,
mas escorregarei, sempre
pela saída impossível,
pela janela que parecia fechada.
E te sacudirei com força,
te revirarei por dentro
cairás sempre deitada na cama
e eu te terei.
Não sou arroz, eu não
nunca terás a certeza
completa de que sou
todo teu, por mais que eu diga
que eu afirme, ficara sempre
uma pontinha de duvida
de toda essa certeza.
Saberás que sou teu,
saberás que me tens,
mas temeras sempre
aquela saída oculta
que possa parecer uma porta
por onde eu
poderei desaparecer
por trás dela.
E me amaras loucamente
e me desejaras ter dentro de ti
porque quando estiver ali dentro,
envolvido no jogo da paixão terás
todas certezas.
Mas em outra hora, não terás tantas certezas,
e por essa razão fazer amor comigo
será mais imprescindível
do que com qualquer outra pessoa,
entregar-te-á com mais força
com maior afinco, porque
será quando terás a certeza
que me tens.
Nunca te acharas dona da situação
por completo, poderei te surpreender
com algo inimaginável.
Abalarei teu excesso de confiança.
E eu te virarei do avesso,
e te farei mulher
como ninguém jamais
te fez ou fará.
Desconfiaras sempre que te sentir confiante,
e aprenderas a extrair do teu homem
cada gota de prazer, que é tua e que é minha.
Porque assim ficaras mais nua e serás
possuída de todas as maneiras.
E gostaras de sê-lo.
Eu não sou arroz, eu não.
Eu te darei o antepasto,
o primeiro prato,
o segundo,
e te darei,
para deliciar,
a sobremesa.
Depois te regarei
de licor.
Aprenderas a não
acreditar que dominas.
Mesmo dominando
não terás certeza.
Porque no momento
seguinte eu posso
virar o jogo e ter toda.
Mas sempre tente me dominar,
finja que me tens na tuas mãos,
e ao mesmo tempo terás e não me terás.
Me saberás teu no intimo,
mas não terás confiança de di-lo
de boca cheia.
Eu, absolutamente, amor
não sou arroz, nem mesmo armário,
nunca serei uma mediocridade cotidiana.
Serei sempre um homem, digno da mulher és,
mas que só eu saberei, porque só eu sei faze-la.
Serei um homem digno de ter um filho contigo,
e desejaras muito este filho, porque também terás
um pouco mais de certeza de que serei teu.
E um dia, fora do espaço e do tempo,
saberás que eu sou desse jeito,
porque...
... bem, hoje não te darei certezas.
Terás que obte-las.
Hoje é segredo.
Te esforçaras para faze-lo,
mas escorregarei, sempre
pela saída impossível,
pela janela que parecia fechada.
E te sacudirei com força,
te revirarei por dentro
cairás sempre deitada na cama
e eu te terei.
Não sou arroz, eu não
nunca terás a certeza
completa de que sou
todo teu, por mais que eu diga
que eu afirme, ficara sempre
uma pontinha de duvida
de toda essa certeza.
Saberás que sou teu,
saberás que me tens,
mas temeras sempre
aquela saída oculta
que possa parecer uma porta
por onde eu
poderei desaparecer
por trás dela.
E me amaras loucamente
e me desejaras ter dentro de ti
porque quando estiver ali dentro,
envolvido no jogo da paixão terás
todas certezas.
Mas em outra hora, não terás tantas certezas,
e por essa razão fazer amor comigo
será mais imprescindível
do que com qualquer outra pessoa,
entregar-te-á com mais força
com maior afinco, porque
será quando terás a certeza
que me tens.
Nunca te acharas dona da situação
por completo, poderei te surpreender
com algo inimaginável.
Abalarei teu excesso de confiança.
E eu te virarei do avesso,
e te farei mulher
como ninguém jamais
te fez ou fará.
Desconfiaras sempre que te sentir confiante,
e aprenderas a extrair do teu homem
cada gota de prazer, que é tua e que é minha.
Porque assim ficaras mais nua e serás
possuída de todas as maneiras.
E gostaras de sê-lo.
Eu não sou arroz, eu não.
Eu te darei o antepasto,
o primeiro prato,
o segundo,
e te darei,
para deliciar,
a sobremesa.
Depois te regarei
de licor.
Aprenderas a não
acreditar que dominas.
Mesmo dominando
não terás certeza.
Porque no momento
seguinte eu posso
virar o jogo e ter toda.
Mas sempre tente me dominar,
finja que me tens na tuas mãos,
e ao mesmo tempo terás e não me terás.
Me saberás teu no intimo,
mas não terás confiança de di-lo
de boca cheia.
Eu, absolutamente, amor
não sou arroz, nem mesmo armário,
nunca serei uma mediocridade cotidiana.
Serei sempre um homem, digno da mulher és,
mas que só eu saberei, porque só eu sei faze-la.
Serei um homem digno de ter um filho contigo,
e desejaras muito este filho, porque também terás
um pouco mais de certeza de que serei teu.
E um dia, fora do espaço e do tempo,
saberás que eu sou desse jeito,
porque...
... bem, hoje não te darei certezas.
Terás que obte-las.
Hoje é segredo.
698
Antônio Sales
Pesca da Pérola
O coração é concha bipartida:
Nós guardamos no peito uma metade,
E a outra, quem, o sabe? — anda perdida
Entre as vagas do mar da humanidade.
Do escafandro das ilusões vestida,
Rindo, mergulha a afoita mocidade,
Buscando um ser que lhe complete a vida,
Que lhe povoe do peito a soledade.
Encontra algum essa afeição sonhada
E à tona sobre erguendo a nacarada
Valva que guarda a pérola do amor...
outro, porém, debalde as águas sonda,
Desce, a rolar, aflito, de onda em onda...
E não mais torna o audaz mergulhador!
Nós guardamos no peito uma metade,
E a outra, quem, o sabe? — anda perdida
Entre as vagas do mar da humanidade.
Do escafandro das ilusões vestida,
Rindo, mergulha a afoita mocidade,
Buscando um ser que lhe complete a vida,
Que lhe povoe do peito a soledade.
Encontra algum essa afeição sonhada
E à tona sobre erguendo a nacarada
Valva que guarda a pérola do amor...
outro, porém, debalde as águas sonda,
Desce, a rolar, aflito, de onda em onda...
E não mais torna o audaz mergulhador!
1 779
Carlyle Martins
A Loucura do Nosso Amor
"Áurea! Vamos andar pelos caminhos,
por entre o matagal aberto em flor,
escutando as canções dos passarinhos
e entoando os madrigais do nosso amor.
Vamos ouvir a música dos ninhos,
diante de um céu de vívido esplendor,
Sempre a evitar as serpes dos espinhos
na doçura de um sonho encantador
Ainda que um dia fuja, seguiremos,
unificados dos grilhões supremos,
sob as bençãos do céu, todo em clarão.
E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,
de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos
dirão que enlouquecemos de paixão."
por entre o matagal aberto em flor,
escutando as canções dos passarinhos
e entoando os madrigais do nosso amor.
Vamos ouvir a música dos ninhos,
diante de um céu de vívido esplendor,
Sempre a evitar as serpes dos espinhos
na doçura de um sonho encantador
Ainda que um dia fuja, seguiremos,
unificados dos grilhões supremos,
sob as bençãos do céu, todo em clarão.
E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,
de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos
dirão que enlouquecemos de paixão."
815
Wanda Cristina
Babugem de Esperança
Este soneto que sai a boca,
salgado e amargo, exalando dor,
é a babugem da esperança louca,
que desbotou em lágrimas de amor.
Inúteis foram as noites acordadas,
poemas tristes, olhos que choraram:
inúteis foram as dores suicidadas
nos meus carinhos que te desculparam,
Estou sozinha com a minha mão.
E estes meus dedos que te compreenderam
puseram a culpa no meu coração.
E as saudades que me envelheceram,
presas em jaulas de ingratidão,
insistem em viver, mas já morreram.
salgado e amargo, exalando dor,
é a babugem da esperança louca,
que desbotou em lágrimas de amor.
Inúteis foram as noites acordadas,
poemas tristes, olhos que choraram:
inúteis foram as dores suicidadas
nos meus carinhos que te desculparam,
Estou sozinha com a minha mão.
E estes meus dedos que te compreenderam
puseram a culpa no meu coração.
E as saudades que me envelheceram,
presas em jaulas de ingratidão,
insistem em viver, mas já morreram.
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