Escritas

Natureza

Poemas neste tema

Antônio Massa

Antônio Massa

Eu, Papel

Amarelado semblante tortuoso
redefinido na manhã do meu ser
difuso e frágilforte no todo
retratado no torneio interior
onde o prêmio sou eu
que me perdi
n’eu

Sou batida acidental, porém compassada
ao painel de refúgio e angústia
estragando ao som dos fungos
guias de minhas almas

Sou pessoa trânsfuga
que apoio eu inimigo
Eu paragem e transgressão

Eu sou quantos? Não sei tanto!
Talvez nada
talvez tudo
talvez todos
todos tortos

Sou folha escrita
em branco
dentro do livro de mim

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Bocage

Bocage

Meu Ser Evaporei na Luta Insana

Meu ser evaporei na luta insana
Do tropel de paixões que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quasi imortal a essência humana!

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos

Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

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Albuquerque Freire

Albuquerque Freire

Insurreição

Vós, ó fantoches da vida embalados na onda sinuosa da alegria, Enquanto milhões e milhões de pretos morrem de desalento fustigados pela chuva diabólica da miséria,
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...

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Álvaro Cardoso Gomes

Álvaro Cardoso Gomes

Haicai

Palácio iluminado,
o olho do sapo
brilhando na escuridão.

Êxtase de luz!
Pela janela aberta,
entram mariposas.

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Beto Caloni

Beto Caloni

Haicai

Vento no madrigal:
copio o som que sopra
no verde canavial.

A vaga da lua
me despenteia;
nem por isso me sinto feia.

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Manoel de Barros

Manoel de Barros

Rome Page de Eduardo Lohmann

Uma Didática da Invenção

do "O Livro das Ignorãnças" ed. Civilização Brasileira.

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

IX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

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Alcides Werk

Alcides Werk

Estudo I

Este o lugar em que me entrego. Eu, que
sempre fui cuidadoso com meu sangue,
aqui vejo-o embeber-se em solo estéril
- sacrifício vazio a um deus extinto.

Gosto de freqüentar esta taberna,
onde me sirvo do meu próprio vinho,
nem perguntam quem sou. Meu companheiro,
que antes cantava e me aplaudia, agora

embuçado em silêncio me observa
como se eu lhe devesse algum milagre.
Na meia-luz da tasca entra uma lua

que inventa novas sombras nas paredes.
Dos meus olhos de espanto e de tristeza
vai caindo um poema sobre a mesa.

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Anízio Vianna

Anízio Vianna

terra estrangeira

e acontece
de você ser linda
e eu estar com frio
numa terra estrangeira

e acontece
de você viver a mil
e falar sozinha
num lugar que não é seu

e acontece
de você apagar essa lua
e rezar confusa com um terço
da fé que deus lhe deu

e acontece
de você criar coragem
no instante em que parto
para ter com os meus

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Antônio Massa

Antônio Massa

A Teia da Vida

Renda bordada
tecida no ventre
envolvendo em seus nós
o corpo do homem

rede fechada
que liberta a face
humana e insigne
em busca do outro

no jogo de laço
as almas se encontram
e a cama de gato
as une em uma

seu contorno único
é palco de paz
incoercível e sã
inconcebível e adversa

o equilíbrio fibra
nas raízes desse todo
que caminha gloriosamente
sobre o tênue fio da vida

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Bráulio de Abreu

Bráulio de Abreu

Volta da Pesca

A tarde vai morrendo mansa e boa...
Tudo é recolhimento, nostalgia.
Lá ma torre da Ajuda um sino soa,
Enche o espaço de sons da Ave Maria.

A sombra cai. Um Pássaro não voa.
Vão-se os violáceos tons do fim do dia.
Sobre, singrando o rio, uma canoa:
Volta Manuel Monção da pescaria.

Com seus oitenta esplêndidos janeiros,
Frente à casa da rua dos coqueiros,
Fundeia, apanha o cofo, o remo, a vela

E à noite, após o cafezinho quente,
Fuma e cochila, sossegadamente,
Sentado no sofá, junto à janela.

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Michelangelo

Michelangelo

AL COR DI ZOLFO

Um coração de enxofre, a carne estopa,
e de bem seca lenha o atro seio,
alma sem qualquer norte, alma sem freio,
desejo pronto que ao prazer não poupa,

cegueiras da razão tão fraca e louca,
e quanto o mundo é de ciladas cheio-
não é grã maravilha, se um anseio
a chama atiça a tão ardente roupa.

E as Artes belas que, do céu consigo
se alguém as traz, a Natureza enfreia,
se a força aplica em toda a parte e logo...

Se como tal nasci, se à Arte eu sigo,
entregue o coração ao que o incendeia,
culpa será de quem me deu ao fogo.

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Li Po

Li Po

BEBENDO AO LUAR

Bebendo vinho entre as flores
Só me senti.
Lua tão solitária,
Eu bebo a ti!
Esta ao lado é minha sombra,
Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
Dança com ela e comigo.

Como nuvens dançaremos
A sombra e eu.
Eterno é o gozo, se atendes
O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
(Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
Na Láctea Via.

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Adolfo Casais Monteiro

Adolfo Casais Monteiro

Ode ao Tejo e à Memória de Álvaro de Campos

E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.

Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!

Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando
Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.

Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!

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Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

Vigília

Uma noite inteira
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia

com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor

Nunca me senti
tão
preso à vida.
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Abrahão Cost'Andrade

Abrahão Cost'Andrade

Mulãria da Macambária

JOANA foi embora.
Embora não soubesse o lugar
em suas veias.
Havia uma ponte esquiva tocando duas margens de
um rio de pedra, rio de pedra, de pedra rio.
Joana não sabia que a pedra
era bebível.
Atravessou a ponte de fibras, tensa
com passos dormentes, surdo-mudos.
A primeira palavra
aprendida por Joana
foi água.
Com treze anos, água.
Da água fez uma canção...
A canção de Joana fazia chover.
Ela imitava o som do violão:
"água água água e o som do violão".
Quando Joana foi embora
os braços de João ficaram mais femininos.
Ela tinha tendência para o bem, com todo aquele olhar malígno.
Joana pequenina chorava:
Mulãria da Macámbaria

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Amândio César

Amândio César

Caminhada

Irmãos!
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.

Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.

Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.

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Li Po

Li Po

AS BRANCAS NUVENS

As brancas nuvens pairam sobre Chiu e Chu,
As brancas nuvens vão contigo sempre.
Estão contigo em Chiu, e estão contigo em Chu,
As brancas nuvens vão para onde fores.
Cruzam aflantes sobre o rio Hsiang.
Dormindo, as brancas nuvens são teu leito.
Se acordas, brancas nuvens são teu lar.

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Antero Coelho Neto

Antero Coelho Neto

A Fantasia da Natureza

Natureza alegre
do despertar repetido
que se eterniza plena
no horizonte colorido.

Ora a chuva cai
molhando terra e corpos.

Ora o pássaro azul
voa em canto e vai
dizendo que existe Deus.

Ora o céu é seco
e os animais sedentos
vagam loucos pelos campos
rachados, ardentes e mortos
parecendo não existir Deus.

1 163 1
Eugenio Montale

Eugenio Montale

NUMA CARTA NÃO ESCRITA

Por um formigueiro de auroras, por uns poucos
arames em que se prende
a lá da vida e se enrola
em horas, anos, hoje os golfinhos aos pares
cabriolam com as crias? Oh que eu não ouça
nada de ti, que eu fuja ao fulgor
da tua fronte. É diferente na terra.

Desaparecer não sei, nem tornar a olhar; tarda
a fornalha vermelha
da noite, a tarde se faz longa,
a súplica é suplício e não ainda
entre as rochas que afloram te chegou
a garrafa do mar. A onda vazia
quebra-se contra o cabo em Finisterra.

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Adriana Lustosa

Adriana Lustosa

Ontem

Ontem
saí por aí
navegando...
Hoje
tenho medo de voltar
à terra estranha
a ter terra nos pés.
Quando a noite caiu
achei que tinha algo a dizer
do silêncio (dele)
mas antes de dizer
caio também
no absurdo
antes de dizer
escuto...

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William Shakespeare

William Shakespeare

Soneto LXXVI

Porque de orgulho são tão nus meus versos,
tão limpos de contrastes e mudanças?
Porque, com o tempo, não vão sendo imersos
em novo estilo e estranhas esquivanças?

Porque escrevo eu sempre tão igual ao que era,
mantendo-me fiel ao que inventei,
que cada termo é como se dissera
quanto de mim procede, que o gerei?

Que é só de ti, meu doce amor, que escrevo,
contigo e Amor aos devaneios basto,
e o meu saber de poeta é este enlevo
de ainda outra vez gastar o que está gasto.

Tal como o Sol é novo cada dia,
assim do Amor eu digo o que dizia.
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T. S. Eliot

T. S. Eliot

VERSOS DE UM VELHO

O tigre apanhado na armadilha
Não é mais irascível do que eu.
A cauda inquieta não está mais queda
do que eu quando pressinto o inimigo
Contorcendo-se no sangue essencial
Ou pendendo da árvore amistosa.
Quando exponho o dente do siso
O silvo sobre a língua arqueada
É mais de afeto que de ódio,
Mais amargo que o amor de juventude,
E inacessível ao jovem.
Refletido por meu olho dourado
O obtuso sabe que é demente.

Digam-me se não estou contente!

(Tradução
de Lara Fernanda Teles)

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Adélia Prado

Adélia Prado

Pranto Para Comover Jonathan

Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
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T. S. Eliot

T. S. Eliot

DIFICULDADES DE UM HOMEM DE ESTADO

Rogar que rogarei?
Toda a carne é como erva: incluindo
Os Companheiros do Banho, os cavaleiros do Império Britânico, os oficiais,
ó oficiais, da Legião de Honra,
A Ordem da Águia Negra (1ª e 2ª classes),
E a Ordem do Sol-Nascente.
Rogar rogar que rogarei?
A primeira coisa a fazer é organizar as comissões
Os conselhos consultivos, as comissões permanentes, as comissões especiais e as
sub-comissões.
Um mesmo secretário serve para várias.
Que rogarei?
Artur Eduardo Cirilo da Silva é nomeado telefonista
Com um vencimento de cento e vinte escudos por semana, elevável, por fracções anuais de
vinte e cinco [escudos,
A duzentos escudos por semana; com uma gratificação de cento e cinquenta escudos pelo
Natal
E direito por ano a uma semana de férias.
Foi nomeada uma comissão que nomeará a comissão de engenheiros
Para o estudo do Abastecimento de Aguas.
Está nomeada a comissão
Da Construção Civil, para tratar sobretudo da reconstrução das fortificações.
É nomeada uma comissão
Para discutir com a comissão designada pelos Volscos
Os termos da paz perpétua: os frecheiros, alfagemes e ferreiros
Nomearam uma comissão conjunta para protestar contra a redução das encomendas.
Entretanto os guardas jogam aos dados na escadaria
E as rãs (ó Mantuano) coaxam nos pântanos.
Pirilampos cintilam contra o vago relampejar de brancura
Que rogarei?
Mãe ó mãe.
Eis a galeria dos retratos de família, bustos enegrecidos, parecendo todos notavelmente
romanos,
Notavelmente iguais uns aos outros, iluminados sucessivamente pelo cintilar
De um suado portador de archote, que boceja.
Oh quem se escondesse... Escondesse por baixo... Lá onde o pé da pomba pousou e se
firmou por um [instante
Um instante imóvel, repouso meridiano, sob os mais altos ramos da mais vasta árvore do
meio-dia
Sob as penas do peito agitadas pela aragem post-meridiana
Lá onde o ciclamen abre as suas asas, onde a clematite pende do lintel
Ó mãe (não entre estes bustos, tão correctamente votivos)
Eu cansada cabeça entre estas cabeças
Pescoços fortes para suportá-las
Narizes fortes para cortar o vento
Mãe
Não estaremos nós, alguma vez, agora quase, juntos,
Se as imolações, oblações, impetrações,
Agora são cumpridas
Não estaremos nós
Oh quem se escondesse na Uma do meio-dia, na crocitante noite silenciosa.
Vem com o deslizar das asas do morcego, o pequeno cintilar do pirilampo ou vagalume
Erguendo-se e tombando, de poeira coroados, os pequenos seres,
Os pequenos seres trilam pela poeira, pela noite,
Ó mãe
Que rogarei?
Exigimos uma comissão, uma comissão representativa, uma comissão de inquérito
DEMISSÃO DEMISSÃO DEMISSÃO

(Tradução
de Jorge de Sena)

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