Vida

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fui passear no jardim

Fui passear no jardim
Sem saber se tinha flores
Assim passeia na vida
Quem tem ou não tem amores.
2 761
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Out of a great nebula of Night and Storm

Out of a great nebula of Night and Storm
Borne upon a great void within our Space,
My soul was formed and stares God in the face
Out of that silence where there is no Form.

The empty carcase of Place
The silent ecstasy of Hours,
Life, like abandoned flowers,
Thought, like a forlorn grace.
1 242
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Do not think of me. Love me.

Do not think of me. Love me.
That shall somehow suffice.
……
……

Let us be purposeless
Sedately and for a task.
We can be nothing this
Dashes not with the mask
Of being anything...
Be we eer on the wing...

And towards nowhere flying,
Maybe we shall obtain
A thought of what our dying
May steal from life and pain...
1 177
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FAUSTO— Viva a vida! Te digo, amigo, viva!

Viva a vida! Te digo, amigo, viva!
Viva a vida, que é tudo, e mais não há!
1 457
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O que é haver ser

O que é haver ser, o que é haver seres, o que é haver coisas,
O que é haver vida em plantas e nas gentes,
E coisas que a gente constrói —
Maravilhosa alegria de coisas e de seres —
Perante a ignorância em que estamos de como isto tudo pode ser.
989
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cantemos que a vida

Cantemos que a vida
De nada nos serve
Que em nós a garrida
Canção desmedida
De vinho referve!

Cantemos, cantemos,
É medrosa a dor
E pegando em remos,
Buscando-as iremos
Às praias do amor!

Cantemos as belas
Que sabem amar,
Vamos que as estrelas,
Sem pudor ou cautelas
Nos vêm escutar!
1 417
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nunca busquei viver a minha vida

Nunca busquei viver a minha vida
A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse.
Só quis ver como se não tivesse alma
Só quis ver como se fosse eterno.
1 558
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Réndez Merodes, vulgo O Vigilante

Espero que esta seja a última vez que morro,
que não me coloquem de novo, com sangue, em outra fase da matéria
e me façam chorar em outro local,
eu quero que esta morte me seja de serventia para sempre.

651
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Ramón Suelo, vulgo O Calado

Quando nasci, estava incompleto, faltava-me a morte.

718
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de A.G., a Mulher da Penumbra

Eu, Amélia Garcia, aos dezessete anos
casei-me com um homem com sombra,
fugindo de pais que tinham sombra,

e de sombra em sombra cheguei à melhor de todas.

921
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Gabino Suárez, vulgo O Conselho

Nascer, existir, morrer,
já sei como se divide
o nada por três.

663
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio para Jacinto Modales

vulgo O Botas

Vivi lutando contra a gordura e a ontologia,
agora tudo está no caixão.

810
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Creencio Álvarez, vulgo O Dentro

O caixão me dói menos que o berço.

456
Gabriel Ferrater

Gabriel Ferrater

Ócio

Ela dorme. A hora em que os homens
já estão despertos, e pouca luz
entra por ora a feri-los.
Com tão pouco temos tanto. Apenas
o sentimento de duas coisas:
a terra gira, mulheres dormem.
Reconciliados, seguimos
direto ao fim do mundo, que não
requer nossa ajuda.
(tradução de Ricardo Domeneck)
394
Inge Müller

Inge Müller

Quem ajuda a mim

Quem ajuda a mim
Ajudo eu a quem?
Assim e de novo assim.
Eu nós
A vida
Nossos rostos
Solo fezes sol

:

Wer hilft mir
Wem helf ich?
So und immer wieder so.
Ich wir
Das Leben
Unser Gesicht
Erde Kot Licht


.
.
.
785
Sandro Penna

Sandro Penna

Noite: sonho de esparsas

Noite: sonho de esparsas
janelas iluminadas.
Ouvir a clara voz
do mar. De um livro amado
ver as palavras
sumirem ... – Oh estrelas fugidias
o amor da vida!
:
Notte : sogno di sparse
finestre illuminate.
Sentir la chiara voce
dal mare. Da un amato
libro veder parole
sparire... – Oh stelle in corsa
l'amore della vita !
dePoesie (1939)
664
Pentti Saarikoski

Pentti Saarikoski

XLVII

os mortos têm nomes
os vivos: uma cara e dez dedos
555
Erich Fried

Erich Fried

Falta de humor

Os moleques
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos

Os sapos
morrem
de verdade

:

Humorlos

Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen

Die Frösche
sterben
im Ernst


805
Juan Gelman

Juan Gelman

Costumes

não é para ficar em casa que fazemos uma casa
não é para ficar no amor que amamos
e não morremos para morrer
temos sede e
paciências de animal
1 845
Mário Dionísio

Mário Dionísio

O maior poema

Como os outros
como os outros
sem nada mais que os outros
sentindo como os outros
pensando como os outros
e sofrendo e lutando
e morrendo
como os outros
1 765
Ana Paula Ribeiro Tavares

Ana Paula Ribeiro Tavares

Cerimónia de Passagem

"a zebra feiu-se na pedra
a pedra produziu lume"
a rapariga provou o sangue
o sangue deu fruto

a mulher semeou o campo
o campo amadureceu o vinho

o homem bebeu o vinho
o vinho cresceu o canto

o velho começou o círculo
o círculo fechou o princípio

"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu lume"
1 642
Ulisses Tavares

Ulisses Tavares

Conteúdo

No toque, a troca.
No ato, o salto.
No esfrega, a entrega.
Na mão, o coração.
No rir, o repartir.
No sangue, o bumerangue.
Na ida, a vida.


In: TAVARES, Ulisses. Pega gente. 2.ed. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1978. p.71. (Coleção PF
1 805
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Propósito

Viver pouco mas
viver muito
Ser todo pensamento
Toda esperança
Toda alegria
ou angústia — mas ser

Nunca morrer
enquanto viver


In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
1 882
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Sentença

Convém nos
iniciarmos
cedo
As coisas são demoradas

E não é bom
colher os frutos
quando a boca não
conseguir mais
saboreá-los


In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
925