Solidão

Poemas neste tema

Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Sedução Mortal

Olho as coisas com um desprendimento
com uma ternura angelical.
Olho-me já de longe, etéreo,
um centímetro acima do instinto vital.
A morte me seduz
e a ela me consagro
com um desprendimento fatal.
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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Cena Na Lagoa

Movida por dez braços
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

A Morte Vizinha

Estou jogando água nas plantas
com o olhar no azul do mar
e minha vizinha está morta.
Sozinho em casa, improviso um almoço
e a morta vizinha já não come.
Comprei jornais
que a morta vizinha já não lê.
A morta vizinha
a morte vizinha
a minha morte
que se avizinha.
1 095
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Outro

De tanto andar uma região
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam as alfaces
ou se preferia a menta
que devoram os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.

1 307
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LIX

Por que não nasci misterioso?
Por que cresci sem companhia?

Quem me mandou desvencilhar
as portas de meu próprio orgulho?

E quem saiu para viver por mim
quando eu dormia ou adoecia?

Que bandeira se desatou
ali onde não me esqueceram?
1 038
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Aí Está o Mar?

Aí está o mar? Muito bem, que passe.
Dá-me o grande sino, o de fenda verde.
Não esse não é, o outro, o que tem
na boca de bronze uma ruptura,
e agora,
nada mais, quero estar só
com o mar principal e o sino.

Não quero falar por um largo tempo,
silêncio, quero aprender ainda,
quero saber se existo.
1 543
Stela do Patrocínio

Stela do Patrocínio

Eu já não tenho mais voz

Eu já não tenho mais voz
Porque já falei tudo o que tinha pra falar
Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada
Eu sinto fome e matam minha fome
Eu sinto sede e matam a minha sede
Fico cansada falo que tô cansada
Matam meu cansaço
Eu fico com preguiça matam minha preguiça
Fico com sono
Quando eu reclamo
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José Saramago

José Saramago

Fraternidade

A qual de nós engano quando irmão
Nestes versos te chamo?
Não são irmãs as folhas que do chão
Olham outras no ramo.
Melhor é aceitar a solidão,
Viver iradamente como o cão
Que remorde o açamo.
1 262
José Saramago

José Saramago

Vertigem

Não vai o pensamento aonde o corpo
Não vai. Emparedado entre penedos,
Até o próprio grito se contrai.
E se o eco arremeda uma resposta,
São coisas da montanha, são segredos
Guardados entre as patas duma aranha
Que tece a sua teia de miséria
Sobre a pedra suspensa da encosta.
1 151
José Saramago

José Saramago

Fábula do Grifo

Ao mandador dos ecos lanço gritos
De grifo abandonado entre humanos:
Ecos não a distância me devolve,
Mas pedaços de voz e de rangido.

Cada cristal no chão, a luz resolve,
Como olho de insecto refulgido
Em mil sombras, a sombra já sem gritos
De grifo abandonado entre humanos.
1 149
José Saramago

José Saramago

Ao Inferno, Senhores

Ao inferno, senhores, ao inferno dos homens,
Lá onde não há fogueiras, mas desertos.
Vinde todos comigo, irmãos ou inimigos,
A ver se povoamos esta ausência
Chamada solidão.
E tu, claro amor, palavra nova,
Que a tua mão não deixe a minha mão.
1 317
José Saramago

José Saramago

O Beijo

Hoje, não sei porquê, o vento teve um grande gesto de renúncia, e as árvores aceitaram a imobilidade.
No entanto (e é bem que assim seja) uma viola organiza obstinadamente o espaço da solidão.
Ficamos sabendo que as flores se alimentam na fértil humidade.
É essa a verdade da saliva.
1 200
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Pôr-Do-Sol Em Itatiaia

Nascentes efêmeras
Em clareiras súbitas
Entre as luzes tardas
Do imenso crepúsculo.

Negros megalitos
Em doce decúbito
Sob o peso frágil
Da pálida abóbada

Calmo subjacente
O vale infinito
A estender-se múltiplo

Inventando espaços
Dilatando a angústia
Criando o silêncio....
1 031
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Estrela Polar

Eu vi a estrela polar
Chorando em cima do mar
Eu vi a estrela polar
Nas costas de Portugal!
Desde então não seja Vênus
A mais pura das estrelas
A estrela polar não brilha
Se humilha no firmamento
Parece uma criancinha
Enjeitada pelo frio
Estrelinha franciscana
Teresinha, mariana
Perdida no Pólo Norte
De toda a tristeza humana.
1 339
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o amor

o amor
a gente espera
ele não vem
a gente busca
vem contrariado
deixa solto
vira refém
deixa preso
é amor obrigado
a gente libera
não vai além
a gente aprisiona
fica cansado
se deixa rolar
não pinta ninguém
o amor
a gente pensa que tem
1 073
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não tenho testemunhas

não tenho testemunhas
ninguém viu
aquele cara que me atropelou
e fugiu
1 007
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tá bom, eu confesso

tá bom, eu confesso
não amei muitos homens
conheci pouca gente
fui demitida três vezes
nada deu muito certo
perdi minhas amigas
nunca tive dinheiro
sou fogo de palha
mas não espalha que eu nego
1 031
Martha Medeiros

Martha Medeiros

fui vista em festas que não fui

fui vista em festas que não fui
esquiando na neve que nunca vi
e falando com gente que sequer conheço
incrível como minha vida evolui
nas horas em que não me pertenço
1 163
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não faz diferença

não faz diferença
se você vem amanhã
ou não vem
desisti de esperar
por alguém
cuja ausência
me faz companhia
1 186
Martha Medeiros

Martha Medeiros

por mais que a tentação de repartir

por mais que a tentação de repartir
se faça persistente
não tente transmitir em apuros
o que só você sente
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

quando dou pra ti

quando dou pra ti
sou mulher


quando dou por mim
solidão
1 130
Martha Medeiros

Martha Medeiros

se vivo só

se vivo só
é marcha a ré
se nego o sol
só penso em mi
se sofro lá
ninguém tem dó
se você fá
eu quero si
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

socorram-me

socorram-me
coloco
uma
palavra
em
cada
linha,
e
estou
sozinha
1 131
Martha Medeiros

Martha Medeiros

a ninguém ofereço meu vinho branco

a ninguém ofereço meu vinho branco
não empresto minhas roupas mais caras
e são só meus os meus segredos
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