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Sexualidade

Poemas neste tema

Agostina Akemi Sasaoka

Agostina Akemi Sasaoka

Castigo

Desencaixo-me displicente.
Esvaziei-me, enfim.
Teu corpo
ainda queima,
tua mão ainda afaga.
Jamais
o prazer fora tão perverso.
Escondo meus lábios
atrás do batom.
Teus olhos
– canibais marinhos –
começam a se desfazer.
Não consigo te acompanhar.
És tão tolo...
Ainda me engasgo
com um último orgasmo.
Venci.
Sou aquela
que pela primeira vez
amas.
Mas a noite se esvai.
Sei que vais me tocar:
deixarei?
Não quero me amarrotar.
Tua boca me implora,
só que as estrelas se apagaram.
Vou-me embora
para nunca mais...
Se fosse amor,
não acabaria.

837 1
Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Os anjos – I

Eles andam no ar
com as suas vestes
longas

as asas frementes
a baterem no tempo

Vêm
da infância
a rasar a memória

a voarem o vento

Ouvia os insectos,
deitada-rente
sobre a terra

e imaginava os anjos
debruçados no espaço
a beberem o sol

Uma por uma as pétalas
Os gomos

as citilantes escamas
mais pequenas

Uma por uma as penas

a formularem a nossa memória
das asas dos anjos

Tem a força estagnada
das paredes
a respirarem através da cal do útero

num arfar
lento
menstruação contida

Os pés vão nus,
a bordejarem o voo

a controlarem o
espaço

lemes do corpo
a fixarem
as asas:

crespas e acesas
nos ombros dos
anjos

São anjos
apenas
com o corpo dos homens

num corpo de mulher

e um ligeiro crepitar
de asas
na altura dos ombros

Tem uma conotação
sexual
de aventura

com a sua vagina
entreaberta
e o seu clitóris tumefacto
e tenso
à ponta dos dedos

Desviar os lábios
dos anjos

mas entreabrir-lhes também
as coxas

os sonhos – a mente
enquanto eles observam

Quando os anjos
flutuam
sobre as tréguas

naquele segundo
em que se ouve bater
o coração das pedras

Uma flor de
amparo,

o apoio de uma
asa
no voo raso às raízes do tempo

Até ao vácuo?

Os anjos são
os olhos
da cidade

Olhos de mulher,
que voa

Tem asas de cristal
e água
os anjos que à flor-do-dia
entornam a madrugada

cintilantes e volácteis

Eles voam com as suas asas
de prazer:

os anjos da fala
– dormindo na saliva da boca

Substituir os peixes alados
por anjos
Com as suas longínquas asas
a afagar os meus ombros

Queria saber
do destino dos anjos

quando voam
no mar
dos nossos olhos

No céu líquido
dos olhos
das mulheres

Diz-me
da poesia

através da palavra
dos anjos...

Aos olhos do tempo
a transgressão
das horas

pelo dentro das nervuras
das asas

pequenos capilares de vento
onde começa a vontade
de voar

num caminhar
sedento

Têm todos os anjos
o vício:

da queda?

3 995 1
Ildásio Tavares

Ildásio Tavares

Soneto da posse

Amar é possuir. Não mais que o gozo
quero. Não sei porque desejas tanto
escravizar-me; escravizar-te. Quanto
menos me tens, mais me terás. Gostoso
é ser-me livre, alegre, escandaloso –
o peito aberto pra cantar meu canto;
os olhos claros pra ver todo encanto;
as mãos aladas, pássaros sem pouso.
Abre-me o corpo, vem dá-me o teu vale,
e a esconsa flor que ocultas hesitante,
pois o que falo o falo sem que fale
em tom de amor. Quero vaivem, espasmo -
um corpo a corpo num só corpo palpitante,
dois no galope até o sol de um só orgasmo.

1 145 1
Manuela Amaral

Manuela Amaral

Fatalismo

Amo o que em ti há de trágico. De mau.
De sublime. Amo o crime escondido no teu andar.
A tua forma de olhar. O teu riso fingido
e cristalino.

Amo o veneno dos teus beijos. O teu hálito pagão.
A tua mão insegura
na mentira dos teus gestos.
Amo o teu corpo de maçã madura.

Amo o silêncio perpendicular do teu contacto
A furia incontrolavel da maré
nas ondas vaginais do teu orgasmo.

E esta tua ausência
Este não-ser quem é.

1 942 1
Liz Christine

Liz Christine

Paixão

O que é a paixão?
Você consegue definir
O imenso
Tesão
Você é capaz de sentir?
O choque intenso
A me confundir
Mergulhar
Ou fugir?
Aproveitar
Ou amargar?
Prazer ou decepção?
Amada
Ou usada?
Paixão...
Te amo, te uso
Escrevo, abuso
Porque você me fudeu
E foi o melhor que me aconteceu
Em toda a minha vida...
Te amo, fudida...
Você me corrompeu
Me conduziu à fidelidade
E te amo de verdade

874 1
Liz Christine

Liz Christine

Depravação

Escrever poesia sobre poesia?
Seu corpo é poesia
Sua voz me domina
Tão macia
Você é matéria-prima
Se converte
em poesia
Sua voz me derrete
Você é doce melodia
Que me aquece
Toque, pele, olhar
Basta respirar
Sua respiração
me excita
Porque arte é tesão
Paixão na escrita
Quero sua penetração

Invadida
Pela criação
Fudida
Por você, paixão
Eu quero, preciso e me entrego
Te amo e não mais nego
Não nego, omitir
Não é admitir...

Nem ouse perguntar
Escrevo por estar
Sentindo
Que amar
É forte, intenso, lindo
Seu olhar
Me despindo
Vem me seduzindo
Vem... e me abraça
E me pega
Com violência, amor
Sou devassa
Minha mão escorrega

E já estou te abraçando
Seus dedos deslizam
Provocando
Prazer... arrepios... desejos
Que se concretizam
E já estou segurando
A paixão concretizada
Não está mais assustando?
Amor... continue me depravando

Depravar é alterar
E estou me entregando
Te amar
Não está me machucando

Você tinha razão...
Amor é prazer e diversão
Com conteúdo
E tesão
Profundo
Amor é tudo

3 013 1
Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Gozo V

Vigilante a crueldade
no meu ventre

A fenda atenta
e voraz
que devora o que é
dormente

a febre que a boca
empresta
a vela que empurra o vento

a vara que fende
a carne

a crueldade que entende
o grito sobre o orgasmo
que me prende e me desprende

3 551 1
Anjo Hazel

Anjo Hazel

Soneto à musa materializada

Ah, menina de sorriso meigo...
Ah, mulher de mil véus !
De beijos infinitos como os céus
e luxúria ao me recostar em teu seio...

Ah, teus olhos castanhos...
Ah, teus castanhos cabelos...
Suaves abraços, enlevos,
amor rebelde e estranho.

Toco tua silhueta diáfana
reconfortante como edredon
e percorro cauteloso tuas curvas...

Imagem nada sagrada,
tua íris como néon
ardendo nas noites de chuva.

1 052 1
Paul Groussac Mendes

Paul Groussac Mendes

Sua vulva freme

(para Maria Teresa)

Sua vulva freme
de desejo
pois vejo
que treme

Sentindo o cheiro
de minha pele que enlaço
pois faço
de teu corpo faceiro

o meu porto
que me deixa
com teu olhar de gueixa
de tesão quase morto...

911 1
Paul Verlaine

Paul Verlaine

Moral abreviada

Uma nuca de loura e de graça inclinada,
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha - ocupada com quê?
Amor o sabe - expondo aos deuses a epopéia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente - o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!

1 181 1
José Honório

José Honório

Xiri, prexeca, aranha

Glosa:

Vagina, papuda, greta,
xanha, lasca, racha e fruta,
tabaco, chibiu e gruta,
fenda, bainha e buceta,
desejada, cara-preta,
e bacurinha também
é vizinha do sedém
talho, pipiu e xiranha,
XIRI, PERERECA, ARANHA
QUANTO NOME A BRECHA TEM.
1 701 1
Carlos Eduardo Armando

Carlos Eduardo Armando

Quero beijar sua boca

quero beijar sua boca

1

com volúpia, com tesão
com saudade de mil anos
e a forca da solidão
fechar meus braços suados
sobre seu corpo arrepio
lambe-la feito cachorro
lambe uma fêmea no cio.

2

tarde vermelha se esgarça
perto das seis horas
começa a ave maria
noite colcha de éter
cai indiferente
sobre a terra fria.

3

quando te perder
pro tempo
quando te entregar
ao pó
quero que
o sol brilhe forte
vapor do solo
te agasalhe
energia de estrela
te alimente
na jornada
para onde fores.

990 1
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Poema para o namorado

Teu lado feminino me erotiza:
são belos, sensuais e muito caros
certos instantes gostosos, em que te encaro
menos como homem e mais como menina:
quando passas teus cremes para a pele,
ou pões o avental pra cozinhar,
ou quando em mim te esfregas
até gozar os teus gozos sem fim,
ou quando tuas mãos, leves e lésbicas,
desabam como plumas sobre mim.

1 389 1
Helga Holtz

Helga Holtz

Transmigração

Basta sentir o peso do calor,
a voz rude dos que dominam,
o odor indisfarçável do real,
logo um sonho me transpõe,
busca teu sono para se acudir
e te fazer sonhar, transmigrar,
manchar com a fé nossa cama,
sensual castelo, firme, irreal.

932 1
Paulo Netho

Paulo Netho

Seus seios

Seus seios são o caminho que todos anseiam
eles são fartas tetas por onde a existência se fortifica
seus seios não são a loucura plus
eles não são nada mas são tudo
firmes e belos eles apontam
para o sol de todos os dias
criatura do criador
obra prima no oásis
de nós mesmos
seus enlouquecem
quando desatam da alça do sutiã
eles são como a aurora
surgindo para além do previsível
e irremediável
seus seios eis a lírica mais perfeita
num tempo de imperfeições.

1 113 1
Bruno Kampel

Bruno Kampel

Mulher

Não quero uma mulher
Que seja gorda ou magra
Ou alta ou baixa
Ou isto e aquilo.

Não quero uma mulher
Mas sim um porto, uma esquina
Onde virar a vida e olhá-la
De dentro para fora.

Não espero uma mulher
Mas um barco que me navegue
Uma tempestade que me aflija
Uma sensualidade que me altere
Uma serenidade que me nine.

Não sonho uma mulher
Mas um grito de prazer
Saindo da boca pendurada
No rosto emoldurado
No corpo que se apoie
Nas pernas que me abracem.

Não sonho nem espero
Nem quero uma mulher
Mas exijo aos meus devaneios
Que encontrem a única
Que quero sonho e espero
Não uma, mas ela.

E sei onde se esconde
E conheço-lhe as senhas
Que a definem. O sexo
Ardente, a volúpia estridente
A carência do espasmo
O Amor com o dedo no gatilho.

Só quero essa mulher
Com todos seus desertos
Onde descansar a minha pele
Exausta e a minha boca sedenta
E a minha vontade faminta
E a minha urgência aflita
E a minha lágrima austera
E a minha ternura eloquente.

Sim, essa mulher que me excite
Os vinte e nove sentidos
A única a saber
O que dizer
Como fazer
Quando parar
Onde Esperar.

Essa a mulher que espero
E não espero
Que quero e não quero
Essa mulherportoesquina
Que desejo e não desejo
Que outro a tenha.

Que seja alta ou baixa
Isto ou aquilo
Mas que seja ela
Aquela que seja minha
E eu seja dela
Que seja eu e ela
Euela eu lá nela
Que sejamos ela.

E eu então terei encontrado
A mulher que não procuro
O barco, a esquina, Você.
Sim, você, que espreita
Do outro lado da esquina, no cais,
A chegada do marinheiro
Como quem apenas me espera.

Então nos amarraremos sem vergonha
À luz dos holofotes dos teus olhos,
E procriaremos gritos e gemidos
Que iluminarão todas as esquinas.

Será o momento de dizer
Achei/achamos amei/amamos
E por primeira vez vocalizar o
Somos, pluralizando-nos
Na emoção do encontro.

Essa a mulher
que não procuro
nem espero.
Você, viu? Você!

1 462 1
António Botto

António Botto

Ouve, meu anjo

Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!

3 086 1
Manuela Amaral

Manuela Amaral

O espírito do sexo

Hoje acordei debaixo de mim

e senti o orgasmo do mundo
no corpo dos outros.

1 992 1
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Deixa a mão

Deixa a mão
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.

Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com nácar da língua.

Só um grito desde o chão
pode fulminá-la.

A morte
não é um segredo
não é em nós um jardim de areia.

De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.

Vou ensinar-te como se reconhece
repara
é ainda um rapaz
não acaba de crescer
nos ombros
a luz
desatada
a fulva
lucidez dos flancos.

A boca sobre a boca nevava.

6 749 1
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Poema para os teus seios

Cerro olhos pra não ver,
e mãos pra não apalpar,
e bocas pra não chupar
teus seios.
Desejo beber teu leite,
azeite de oliva branca,
e provar com minha língua
o macio do teu peito.
E se em inútil trabalho
te afasta a blusa de mim,
eu, por inúmeros meios,
cerro olhos para ver
e bocas para chupar
teus seios.

1 718 1
Bruna Lombardi

Bruna Lombardi

Moto-contínuo

Eu não sabia o que fazer e abri a blusa
mais tarde eu ia dizer foi sem pensar
ele me achou desnorteada, confusa
como acharia qualquer mulher que abre a blusa
e faz tudo que fiz só pra agradar

Minha cabeça não era mesmo muito certa
mulher esperta eu nunca fui, mas deveria
saber me colocar no meu lugar
não adiantava nada, eu era assim desatinada
o tipo de mulher que faz as coisas sem pensar

Você agora, me ouvindo contar essas histórias
talvez me ache, também, um pouco confusa
e eu, que faço tudo para agradar
já sem saber o que fazer abro minha blusa
como faria qualquer mulher confusa no meu lugar.

1 854 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu nunca fui dos que a um sexo o outro

Eu nunca fui dos que a um sexo o outro
No amor ou na amizade preferiram.
Por igual a beleza apeteço
Seja onde for, beleza.

Pousa a ave, olhando apenas a quem pousa
Pondo querer pousar antes do ramo;
Corre o rio onde encontra o seu retiro
E não onde é preciso.

Assim das diferenças me separo
E onde amo, porque o amo ou não amo,
Nem a inocência inata quando se ama
Julgo postergada nisto.

Não no objecto, no modo está o amor
Logo que a ame, a qualquer cousa amo.
meu amor nela não reside, mas
Em meu amor.

Os deuses que nos deram este rumo
Também deram a flor pra que a colhêssemos
com melhor amor talvez colhamos
O que pra usar buscamos.

5 080 1
Liz Christine

Liz Christine

Orgasmo

Sexo
adorável
palavra
Ato
delicioso
incansável
Corpo
curvas derrapantes
maravilhoso
Você
estou condenada
você é a culpada
De desejos ardentes
Noite gelada
Inverno na madrugada
Parece verão
Corpo febril
Culpa da paixão
Seu rosto infantil
Sorrindo
Não pare...
Estou quase atingindo.

1 123 1
Patrícia Clemente

Patrícia Clemente

Seios

Sofia, eu no teu rosto busco espelho,
Enquanto beijo os nós dos teus artelhos,
Enquanto tocas com teus pés meus seios.

E o corpo sabe: sou-te assemelhada,
E leva o pé à tua coxa amada,
Sou presa seduzida por teus cheiros.

E o corpo sabe o quanto é aquecido
Meu pé que sobe dentro do vestido,
Sorrindo do macio dos teus pentelhos.

E o corpo sabe: sou-te parecida,
Toco a mim mesma ao te tocar, amiga,
Se pouso, enfim, os dedos nos teus seios.

E o corpo sabe bem que sou-te gêmea
Me fazes louca, lúcida ou boêmia,
No gesto em que se unem nossos seios.

Sofia, no meu rosto tens espelho,
De quanto bem me faz amar teus seios

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