Literatura e Palavras

Poemas neste tema

Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

DE MARÇO - '79

Cansado de todos aqueles que com palavras fazem palavras
mas onde não há uma linguagem,
dirigi-me para a ilha coberta de neve.
A natureza selvagem não conhece palavras.
As páginas em branco dispersam-se em todas as direcções.
Eu dei com vestígios de cascos de corça na neve.
Linguagem, mas sem palavras.
767
Mário Chamie

Mário Chamie

SIDERURGIA S.O.S.

Se  der  o  ouro  sidéreo  opus  horáriO
Sem   sol   o   sal   do   erário   saláriO

Ser der orgia  semistério o empresáriO
Siderurgia   do   opus  o  só  do  eráriO

Se  der  a  via  do  pus   opus    erradO
Se der o certo no errado o  empregadO

Se  der  errado  no certo o emprecáriO
962
Manuel Gusmão

Manuel Gusmão

aprende a falar

aprende a falar – diz
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros
os caminhos. põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa
a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas. Então falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue, de assombro em
assombro.
661
Manuel Gusmão

Manuel Gusmão

um risco na página

um risco na página
um gesto furtivo
um movimento
de queda
na sombra
da sombra
de um corpo, uma boca
: alguém chama — palavras contra
o sentido, contra a direcção
do vento
797
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

PAISAGEM PARA ANNA AKHMÁTOVA

O corpo, ainda corpo,
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
511
Saúl Dias

Saúl Dias

Um Poema

Um poema
é a reza dum rosário
imaginário.
Um esquema
dorido.
Um teorema
que se contradiz.
Uma súplica.
Uma esmola.

Dores,
vividas umas, sonhadas outras...
(Inútil destrinçar.)

Um poema
é a pedra duma escola
com palavras a giz
para a gente apagar ou guardar...
807
Saúl Dias

Saúl Dias

Sangue

Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...

É só com sangue que se escrevem versos.
727
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Foi Gastão Cruz quem. em Lisboa, me levou
a ela. a velha senhora, a senhora bela;

era um dia diadema, de azul líquido e sim
simultaneamente matemático;

nenhum de nós morreria naquele outono
de arames claros: a hora como que se curvava

quando Sophia falava, e então
todas as palavras eram números mágicos.
616
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

CODA

[...]
Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante de leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava
-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz
1 046
José Paulo Paes

José Paulo Paes

CANÇÃO DO EXÍLIO FACILITADA

lá?
ah!
sabiá…
papá…
maná…
sofá…
sinhá…
cá?
bah!
2 461
José Paulo Paes

José Paulo Paes

Epitáfio para um banqueiro

negócio
ego
ócio
cio
0
1 033
José Paulo Paes

José Paulo Paes

À TINTA DE ESCREVER

Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhos
586
José Paulo Paes

José Paulo Paes

Letra Mágica

Que pode fazer você
para o elefante
tão deselegante
ficar elegante?
Ora, troque o f por g!

Mas se trocar, no rato,
o r por g,
transforma-o você
(veja que perigo!)
no seu pior inimigo:
o gato.
1 540
José Paulo Paes

José Paulo Paes

O SUICIDA OU DESCARTES ÀS AVESSAS

cogito
ergo
pum!
704
Salgado Maranhão

Salgado Maranhão

Ladainha

Não secarás as raízes
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.

Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
739
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Noite Mais Escura Em Abril

cada homem finalmente preso e arrebentado
cada túmulo pronto
cada falcão morto
e o amor e a sorte também.
os poemas acabaram
a garganta está seca.
suponho que não haja funeral para isso
e nada de lágrimas
e nenhuma razão.
a dor é o senhor
a dor é silêncio.
as gargantas dos meus poemas
estão secas.
1 072
Charles Bukowski

Charles Bukowski

três

enquanto a maioria das pessoas
joga toda a conversa fora
eu
anoto.
1 068
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sem Bobagem

Faulkner adorava seu uísque
e com o uísque mais a
escrita
ele não tinha
tempo
para grande coisa além
disso.

ele não abria
a maioria de suas
cartas

só as levantava
contra a luz

e se não houvesse
dentro um
cheque

ele as jogava no
lixo.
1 040
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sobre a Conferência da Pen

afaste um escritor de sua máquina de escrever
e tudo que sobra dele
é
a doença
que o fez se sentar
diante da máquina
no
começo.
*** Associação mundial de escritores. (N.T.)
1 170
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Desculpa Para Uma Possível Imortalidade

se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia

o que é que faremos com
ela?

mendigar nas ruas?

eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 143
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Velho Limpo

daqui a
uma semana farei
55.

sobre o que
escreverei
quando ele não
levantar mais
pela manhã?

meus críticos
vão adorar
quando a minha diversão
passar a ser
tartarugas
e estrelas-do-mar.

chegarão inclusive a
dizer
coisas boas sobre
mim

como se eu tivesse
finalmente
alcançado a
razão.
1 080
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

À Maneira de E.e. Cummings

Thank you for the exquisite jam
Th
an
k you
too
) or also (
for the
71
Cumm
ings"
po? e! ms!!
An
d now —
get into this brazilian hammock and
let me sing for you:
"Lullaby
"Sleep on and on..."

Xaire, Elisabeth.
1 078
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Guimarães Rosa

Não permita Deus que eu morra
Sem que ainda vote em você;
Sem que, Rosa amigo, toda
Quinta-feira que Deus dê,
Tome chá na Academia
Ao lado de vosmecê,
Rosa dos seus e dos outros,
Rosa da gente e do mundo,
Rosa de intensa poesia .
De fino olor sem segundo;
"Rosa do Rio e da Rua,
Rosa do sertão profundo!
1 413
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Helena Maria

Helena Maria:
O preto no branco,
No branco a poesia,
No preto esse arranco
"Da alma forte e pura
Em sua ternura.
1 331