Desilusão e Desamor

Poemas neste tema

José Miguel Silva

José Miguel Silva

Estela Funerária

Era um rapaz sem vocação para o caminho,
um arco sem arqueiro.
Chama-se Elpenor.

Mais do que a palavra preocupava-o a lama
na sandália do poeta,
a mancha no tapete.

Movia-o a coragem de estar só,
divisão dos que celebram
o massacre da esperança.

Caiu a sua casa, vendeu as suas veias,
partiu para o desastre,
chegou à nossa frente.
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José Miguel Silva

José Miguel Silva

O Atalante - Jean Vigo (1934)

No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.
1 390
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Dizias que gostavas

Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei-de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.
1 454
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O burburinho da água

O burburinho da água
No regato que se espalha
É como a ilusão que é mágoa
Quando a verdade a baralha.
1 893
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Manjerico que te deram,

Manjerico que te deram,
Amor que te querem dar...
Recebeste o manjerico.
O amor fica a esperar.
2 911
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dona Rosa, Dona Rosa,/De que roseira é que vem,

Dona Rosa, Dona Rosa,
De que roseira é que vem,
Que não tem senão espinhos
Para quem só lhe quer bem?
1 888
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei que grande tristeza

Não sei que grande tristeza
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi.
1 284
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O laço que tens no peito

O laço que tens no peito
Parece dado a fingir.
Se calhar já estava feito
Como o teu modo de rir.
1 266
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não me digas que me queres

Não me digas que me queres
Pois não sei acreditar.
No mundo há muitas mulheres
Mas mentem todas a par.
693
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pobre do pobre que é ele

Pobre do pobre que é ele
E não é quem se fingiu!
Por muito que a gente vele
Descobre que já dormiu.
1 405
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho um lenço que esqueceu

Tenho um lenço que esqueceu
A que se esquece de mim.
Não é dela, não é meu,
Não é princípio nem fim.
1 237
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teu olhar não tem remorsos

Teu olhar não tem remorsos
Não é por não ter que os ter.
É porque hoje não é ontem
E viver é só esquecer.
1 251
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Que tenho o coração preto

Que tenho o coração preto
Dizes tu, e inda te alegras.
Eu bem sei que o tenho preto:
Está preto de nódoas negras.
1 780
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Disseste-me quase rindo:

Disseste-me quase rindo:
«Conheço-te muito bem!»
Dito por quem me não quer,
Tem muita graça, não tem?
1 354
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Por muito que pense e pense

Por muito que pense e pense
No que nunca me disseste,
Teu silêncio não convence.
Faltaste quando vieste.
1 315
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quis que comigo vísseis

Quis que comigo vísseis
        A sombra essencial, o abstracto fruto
Do inúmero universo. Mas, não fostes
Mais que uma luz extinta em noite densa
         Um pampal sem fruto.
 (...) —  Que é pensar
Sem ser? poeta, o que pensa vive o que é,
        E a raiz não medita.
1 115
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Trazes um lenço apertado

Trazes um lenço apertado
Na cabeça, e um nó atrás.
Mas o que me traz cansado
É o nó que nunca se faz.
1 038
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THINGS THAT HAPPEN IN SOCIETY

Apollo married and Hercules married, and this was in real life.
The wife of Hercules loved beautiful rather than strong men,
And strong and not beautiful men was the taste of Apollo's wife.
1 226
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ribeirinho, ribeirinho,/Que falas tão devagar,

Ribeirinho, ribeirinho,
Que falas tão devagar,
Ensina-me o teu caminho
De passar sem desejar amar.
1 688
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teu carinho, que fingido,

Teu carinho, que fingido,
Dá-me o prazer de saber
Que inda não tens esquecido
O que o fingir tem de ser.
1 333
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Compras carapaus ao cento,

Compras carapaus ao cento,
Sardinhas ao quarteirão.
Só tenho no pensamento
Que me disseste que não.
1 186
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O teu lenço foi mal posto

O teu lenço foi mal posto
Pela pressa que to pôs.
Mais mal posto é o meu desgosto
Do que não há entre nós.
1 214
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tarda o verão. No campo tributário

Tarda o verão. No campo tributário
Da nossa esperança, não há sol bastante,
Nem se esperavam as que vêm, chuvas
        Na estação, deslocadas.
Meu vão conhecimento do que vejo
Com o que é falso se contenta, a noite,
Em pouco dando à conclusão factícia
        Do moribundo tudo.
1 298
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Puseste a chaleira ao lume

Puseste a chaleira ao lume
Com um jeito de desdém.
Suma-te o diabo que sume
Primeiro quem te quer bem!
1 364