Desejo
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Se eu, ainda que ninguém,
Pudesse ter sobre a face
Aquele clarão fugace
Que aquelas árvores têm,
Teria aquela alegria
Que as coisas têm de fora,
Porque a alegria é da hora;
Vai com o sol quando esfria.
Qualquer coisa me valera
Melhor que a vida que tenho –
Ter esta vida de estranho
Que só do sol me viera!
16/09/1933
Fernando Pessoa
XIX - Prazer, mas devagar,
Rui Costa
Madrugada
podes querer e podes não querer.
podes fugir. ficar ou não ficar
assim. quieto. esse travo na boca
por dizer. esse gozo secreto
das coisas a gemer lá para o fim
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 28
Ah, disseste bem. Amar para sobreviver
à razão de luz. Chegamos a casa e as janelas
recobrem o mar e o esquecimento do vulto.
Deitamos os corpos no sofá sem televisão,
ordenhamos o anti-cristo pela guerra ausente.
Despimo-nos, mostramos ao tempo o nosso
sexo, ordenamos-lhe que afunde a escuridão.
Amália Bautista
A tentação
E se naquele momento nos tivesse
surgido de repente uma serpente?
Que terias feito face ao meu medo?
Como é que me terias convencido
para que abrisse os olhos e contemplasse
na boca desse réptil a maçã?
Amália Bautista
Dream a little dream of me
Convida-me para o teu sonho,
deixa-me partilhar esse filme
onde o tempo é disforme e o desejo se cumpre.
Sonha um pouco comigo e eu prometo
ser a mulher perfeita
para ti, enquanto viveres de olhos fechados.
Hei-de beijar-te com lábios de cereja,
misturar sabiamente paixão e ternura
e quando vier a aurora partirei sem fazer barulho.
Amália Bautista
Em dieta
Deitei-me sem jantar e nessa noite
sonhei que te comia o coração.
Deveria ser por causa da fome.
Enquanto eu devorava aquela fruta,
que era doce e amarga ao mesmo tempo,
tu beijavas-me com os lábios frios,
mais frios e mais pálidos do que nunca.
Deveria ser por causa da morte.
Isabel Mendes Ferreira
há em cada pastor
somos de tanta água que te faço fonte para sempre. acolhe-me. escolhe.me. resguardo-te. sem a alquimia dos milagres. com a prata que é o meu sangue..
Isabel Mendes Ferreira
respiro-te devagar
tenho medo da memória
da música e da inclinação da garganta
suspensos os dedos
curvos os beijos
o teu peito podia ser um navio.
então é devagar que eu chego
ao abrigo das palavras
debaixo de chuva
perdida no bosque.
não acordes. a tua presença é mais doce
quando te beijo doce. simplesmente.
Herberto Helder
Poemas do Antigo Egipto - Exorcismo
sobre cujos cabelos se verteu a mirra
e sobre cujos ombros se verteu o incenso fresco.
Herberto Helder
I G
como neles se forma a seda, como
no corpo se forma o vestido.
Seda e carne fundidas pelo sangue uma na outra.
O nome é: pulsação da luz.
E tu danças a quantas braças de labareda —
a mais fechada, mais aberta
zona
espasmódica: ar revolvido em redor
da pedraria atiçada.
Herberto Helder
32
e o devore,
e o gosto seja tão abundante que lhe magoe a boca
e tudo quanto nela se apoie:
soluço, respiração, idioma,
e abale os modos nada cuidadosos do corpo:
o fruto onde o cacto se concentra,
o cacto que frutifica uma só vez na vida
Herberto Helder
12
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
Herberto Helder
8
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo
Herberto Helder
18
cima da cabeça,
coluna de fogo,
pela minha morte acima
Herberto Helder
11
oh quero-te em volta de luz batida,
em língua máxima,
a floração devora as varas,
o ar que se empolga devora-te a obra mulheril,
uns palmos de sangue até à boca sôfrega,
e depois desmanchas-te
Herberto Helder
Olhos Ávidos
áridos olhos quando tudo tem de ser novo para de novo ser soberbo,
e é esse o êrro de que ressuscito:
e depois morro
Herberto Helder
Fosses Tu Um Grande Espaço E Eu Tacteasse
com todo o meu corpo sôfrego e cego
Herberto Helder
Petite Pute Deitada Toda Nua Sobre a Cama À Espera
petite pute deitada toda nua sobre a cama à espera,
e inexplicavelmente eu entro nela de corpo inteiro e idade inteira
Herberto Helder
Mão Tão Feliz de Ter Tocado
Thy tender body to my deep delight
ANON, 1560
versão errática:
mão tão feliz de ter tocado
teu corpo atento ao meu desejo
Martim Soares
Meu Coraçom Senhor Atal
me faz amar de que eu hei
todo quant'eu haver cuidei
des aquel dia em que a vi:
ca sempr'eu dela atendi
desej'e coita, ca nom al.
[...]
João Soares Coelho
Ai Meu Amigo, Se [Vós] Vejades
prazer de quanto no mund'amades:
levade-me vosc', amigo.
Por nom leixardes mi, bem talhada,
viver com'hoj'eu vivo coitada,
levade-me vosc', amigo.
Por Deus, filhe-xi-vos de mim doo;
melhor iredes migo ca soo:
levade-me vosc', amigo.
João Soares Coelho
Ai Deus, a Vó'lo Digo
foi s'ora o meu amigo;
e se o verei, velida?
Quem m'end'ora soubesse
verdad'e mi dissesse
e se o verei, velida?
Foi-s'el mui sem meu grado
e nom sei eu mandado;
e se o verei, velida?
Que fremosa que sejo,
morrendo com desejo;
e se o verei, velida?
João Garcia de Guilhade
Martim Jograr, Ai Dona Maria
jeita-se vosco já cada dia,
e lazero-m'eu mal.
And'eu morrend'e morrendo sejo,
e el tem sempr'o cono sobejo,
e lazero-m'eu mal.
Da mia lazeira pouco se sente;
fod'el bom con[o] e jaz caente,
e lazero-m'eu mal.
Português
English
Español