Corpo

Poemas neste tema

Herberto Helder

Herberto Helder

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estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo
719
Herberto Helder

Herberto Helder

18

porque estremeço à maravilha da volta com que tiras o vestido por
cima da cabeça,
coluna de fogo,
pela minha morte acima
1 052
Herberto Helder

Herberto Helder

19

a luz de um só tecido a mover-se sob o vestido
rapaza raparigo
trav superdot sôfrego belíssimo
mamas sem leite e sangue mas
terrestres soberanas
pénis intenso
ânus sombrio
942
Herberto Helder

Herberto Helder

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cabelos amarrados quentes que se desamarram,
oh quero-te em volta de luz batida,
em língua máxima,
a floração devora as varas,
o ar que se empolga devora-te a obra mulheril,
uns palmos de sangue até à boca sôfrega,
e depois desmanchas-te
595
Herberto Helder

Herberto Helder

E Eu Que Não Sei Através de Que Verbo

e eu que não sei através de que verbo me arranquei ao fundo da placenta até à ferida entre as coxas maternas,
e roubei o oxigénio todo à minha volta próxima,
furiosamente,
eu que procuro corpo a corpo o nada disso tudo,
não sei nada,
digo: olhar a morte incalculável,
toda,
agora na hora próxima, súbito, atónito,
e agarrado a tudo
1 079
Herberto Helder

Herberto Helder

No Mais Carnal Das Nádegas

d'après Issa

no mais carnal das nádegas
as marcas
das frescas cuecas
985
Herberto Helder

Herberto Helder

Fosses Tu Um Grande Espaço E Eu Tacteasse

fôsses tu um grande espaço e eu tacteasse
com todo o meu corpo sôfrego e cego
485
Herberto Helder

Herberto Helder

Petite Pute Deitada Toda Nua Sobre a Cama À Espera

l’amour la mort


petite pute deitada toda nua sobre a cama à espera,
e inexplicavelmente eu entro nela de corpo inteiro e idade inteira
1 038
Herberto Helder

Herberto Helder

Mão Tão Feliz de Ter Tocado

That happy hand, wich hardly did touch
Thy tender body to my deep delight
ANON, 1560


versão errática:
mão tão feliz de ter tocado
teu corpo atento ao meu desejo
940
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Deitado foi teu corpo

Deitado foi teu corpo
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida

E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor

Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
647
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

POEMA

eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins


o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos

971
Renato Rezende

Renato Rezende

Luz

quero sangue, sangue, de ouro
quero bosta, bosta, de ouro
quero porra, porra, de ouro
quero corpo, corpo, de ouro
sangue bosta porra corpo
corpo corpo corpo corpo
corpo ouro corpo ouro
ouro ouro ouro ouro
ouro ouro ouro ouro
1 107
Renato Rezende

Renato Rezende

Oco

eu não sou o corpo físico;
sou o ar que respiro?
911
Renato Rezende

Renato Rezende

Solta

Quando a música mais doce chegar,
o murmúrio do gozo
da amada
a se contorcer contra o seu corpo,
não faça nada
que de cor já saiba.
A mente calada
colada no calor do outro
abre a porta
para o salto.

AGORA: SALTA!
996
Renato Rezende

Renato Rezende

Sopro

Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
1 097
Renato Rezende

Renato Rezende

A Mão

...
depois
o ardor do corpo se faz demasiado
e não queremos mais o gozo
e sim
somente o delicado
acariciar de nossos corpos
abandonados

por esta mão

(qual?)

que nos acariciava
enquanto nos acariciávamos.
Roma, abril 1991
939
Renato Rezende

Renato Rezende

Aroma

a S.M.A.


Atravesso o jardim, mas páro
para cheirar as flores.
Logo não sentirei perfume algum
porque estarei morto --
ainda estarei neste jardim
mas não terei um corpo.


Nova York, 12 de julho 1996
1 121
Renato Rezende

Renato Rezende

O Sorriso

-- Mostre os dentes,
sorria
(eu digo a ela)
e ela sorri.

Estudo nos seus lábios
esse delicado,
sublime mecanismo:

(entre músculos e dentes
devagar,
novamente)

-- o sorriso.


Turim, maio 1991
1 028
Renato Rezende

Renato Rezende

Recordo

Cada desejo do teu coração
Eu quero responder.

Te levo à Ibéria,
Te faço bela.

Te beijo por dentro e por fora.
(Teu corpo não tem nome)

És uma massa esparramada
Doce amor perdido.
953
Renato Rezende

Renato Rezende

Mulher

a A.L.A.


A mulher, nua
diante do espelho.

Eis, no meio da vida
o prazer verdadeiro.

Em círculo beija
a própria ferida,
o próprio seio.


Cambridge, maio 1989
679
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Até perder

Meus 5 sentidos querem
                       olhar os seus 5 sentidos ouvir os seus
                                                          5 sentidos tocar os seus 5
                                          sentidos cheirar os seus 5 sentidos até perder
                                                          os sentidos
729
Reynaldo Jardim

Reynaldo Jardim

Brilhos

A palavra brilha
(repentina brilha)
onde repentina
fulgurante brilha?
Na boca do estômago,
na garganta seca,
no ar respirado,
na vulva, na teta.
Onde dá o bote
e sacode o guizo?
Na fronte, na mente,
lábios ou juízo?
É a castanhola?
Cascavel safada?
— Crótalo!
E a sua faca
já está cravada.
724
Simone Brantes

Simone Brantes

Às vezes o corpo

Às vezes o corpo é batido
como roupa na máquina de lavar
você fez tantas coisas hoje em casa
que mereciam enriquecer
seu lattes
Mas essa é só a única maneira
que a alma tem às vezes
de sair lavada
644
Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

O sangue

no corpo
há tão pouco espaço
entre um osso   e outro

só o óleo dos glóbulos
passa (o plasma)
quando não     é pálido

(na ampulheta viva /
sangue é tempo)

como a graxa
(da máquina)
escorre    entre

as engrenagens
               do   relógio
                bio    lógico
495