Consciência e autoconhecimento

Poemas neste tema

Renato Rezende

Renato Rezende

Oco

eu não sou o corpo físico;
sou o ar que respiro?
912
Renato Rezende

Renato Rezende

O Outro

Por um segundo, nos olhos do outro
vejo o reflexo do meu próprio susto,
e o espelho do meu verdadeiro rosto.


Nova York, julho 1994
985
Renato Rezende

Renato Rezende

Sopro

Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
1 098
Renato Rezende

Renato Rezende

Espera

Uma conversa que hoje escutei
me fez refletir
se sou realmente feliz.
Um moço disse à outro:
Eu realmente, realmente, realmente
quero....
Quando foi a última vez
que eu quis?
Deito-me dentro de mim mesmo
e espero.


Nova York, 8 de março 1996
1 054
Renato Rezende

Renato Rezende

À Beira do Mar, Esta Manhã

À beira do mar, esta manhã
eu fui um homem
à beira do mar.

Apenas um homem,
sem nome, sem memória:

Deus
à beira do seu mar.


Rio de Janeiro, 23 de novembro 1994
935
Renato Rezende

Renato Rezende

As Horas de Amor

O Marajá Akbar
escreve em sua biografia
que durante sua vida inteira
só sentiu amor verdadeiro
por três minutos e meio.

Akbar, o rei, o imperador
não apenas de uma província
mas de um país inteiro.

Quanto tempo de amor
eu tenho vivido na minha vida?


Nova York, 28 de junho 1995
941
Luci Collin

Luci Collin

peça

o homem
em mim
esculpe
___(lentamente)
cicatrizes

a mulher
em mim
refaz
___(ponto por ponto)
a estrada

a estátua
___(olho por olho)
refaz
em mim
a mulher

o homem
em mim
fabula
___(solenemente)
cigarras
677
Renato Rezende

Renato Rezende

Mulher

a A.L.A.


A mulher, nua
diante do espelho.

Eis, no meio da vida
o prazer verdadeiro.

Em círculo beija
a própria ferida,
o próprio seio.


Cambridge, maio 1989
681
Reynaldo Jardim

Reynaldo Jardim

Desamores

Quero me despojar
de tudo o que não tenho.
Limpar meus horizontes
de artes e de engenho.
Quero me desfazer
de tudo o que não tive.
A certeza certeira
de quem viveu não vive.
Quero me entristecer
de alegria e calma.
Olhar no espelho e ver
a cara de minha alma.
E quero dessofrer
o que nunca sofri.
O gosto do prazer:
sumo de sapoti.
573
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

TEOFAGIA

Aqui, eu —
consumada falha
de papai e mamãe:
meia ¾ (acho
que de menina),
uma palma
e uma folha
de papel na mão,
minutos depois
de deglutir
Deus, à guisa
de primeira
comunhão.
611
Simone Brantes

Simone Brantes

order in chaos

Meu relógio tem ponteiros soltos
os compromissos caem
e ficam no chão
De tempos em tempos
olho para eles
e lhes dou esperança
no meu relógio meu dia
é metade noite
minha noite
metade dia
619
Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

a tudo basta

a tudo basta
o ser
ou se por em fotografia

ou
nada seria?
636
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

ELEGIA

Abro a primeira porta.
É uma sala enorme, repleta de sol.
Um camião passa na rua,
faz estremecer a porcelana.

Abro a segunda porta.
Amigos! bebestes da escuridão
e tornaste-vos visíveis.

Terceira porta. Um quarto estreito de hotel.
Vista sobre um beco.
Uma lanterna que brilha no asfalto.
Experiências: belas escórias.
703
Mário Chamie

Mário Chamie

O TOLO E O SÁBIO

O sábio que há em você
não sabe o que sabe
o tolo que não se vê.

Sabe que não se vê
o tolo que não sabe
o que há de sábio em você.

Mas do tolo que há em você
não sabe o sábio que você vê.
923
Manuel Gusmão

Manuel Gusmão

i; Quando não estás a olhar

Quando não estás a olhar é o mundo
que te olha. Nunca saberás o que vê.
Obscuramente imaginas que testemunhará
por ti, mas ignoras de todo - e que importa? -
onde, a que propósito e perante quem.
1 190
Joaquim Manuel Magalhães

Joaquim Manuel Magalhães

Apenas o real

Apenas o real.

Diferendo. Árduo impacto.
Drenagem vidente.
Atípico e controverso
zarcão.

Superfície e miragem,
passaporte.
1 149
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

CODA

[...]
Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante de leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava
-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz
1 046
Ademir Assunção

Ademir Assunção

BILLIE HOLIDAY NA PORTA DOS FUNDOS

quanto abismo cabe
na palavra abismo,

quantos passos até a borda
da estrela-pantera-negra,

quantas brumas brancas,
quantos acordes de blues,

quantas noites sem sono
quantos abalos sísmicos

para sossegar o dragão
que cospe esse fogo azul

chamado névoa, vulcão,
solitude?
1 033
José Paulo Paes

José Paulo Paes

O POETA, AO ESPELHO, BARBEANDO-SE

o rito
do dia
o ríctus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?
542
Charles Bukowski

Charles Bukowski

três

enquanto a maioria das pessoas
joga toda a conversa fora
eu
anoto.
1 068
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Bem, É Assim Que É...

às vezes quando tudo parece estar no
fundo do poço
quando tudo conspira
e atormenta
e as horas, os dias, as semanas
os anos
parecem desperdiçados –
estirado ali na minha cama
no escuro
olhando para o teto
recaio em algo que muitos considerariam
um pensamento repugnante:
ainda é bom ser
Bukowski.
1 041
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira
(Sousa Bandeira.
O nome inteiro
Tinha Carneiro.)
Eu me interrogo:
— Manuel Bandeira,
Quanta besteira!
Olha uma cousa:
Por que não ousa
Assinar logo
Manuel de Sousa?
1 069
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

André

André, André, André,
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
998
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Bonheur Lyrique

Coeur de phtisique
O mon ceeur lyrique
Ton bonheur ne peut pas être comme celui des autres
Il faut que tu te fabriques
Un bonheur unique
Um bonheur qui soit comme le piteux lustucru en chiffon d'une enfant pauvre
— Fait par elle-même.
1 393