Cidade e Cotidiano

Poemas neste tema

Marcos A. P. Ribeiro

Marcos A. P. Ribeiro

Família

Como na sala irreverente uma banana.
A lua basculha pela janela da rua,
a casa. Meu tio tentando
livrar-se dos maus espíritos;
a avó passa lírica pela sala;
a empregada espana.

A noite, como seu broche,
caminha indiferente à sorte do dia.

1 080
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

Podem tentar, mas o homem não cabe

Dr. Hermínio?
O melhor mindinhologista que conheço.
Francisco?
O melhor mecânico de corcel 73.
Afonso?
A melhor feijoada da cidade.
Manuel?
Campeão estadual de pinball.
Alfredo?
Pintava peixes como ninguém.
Ford?
Último modelo.
Da Vinci?
Desculpa, tô sem dinheiro.

Vida, competição.
Vence a menor alma.

675
Lyad de Almeida

Lyad de Almeida

Haicai

Favela. A lua
faz das latas dos barracos
finas pratarias.

Finados.
Sacrifício das flores
para embelezar a morte.

815
Laura Amélia Damous

Laura Amélia Damous

São Luís

Cidade
cujas noites enxugam o suor
da desumana lida
que me obriga a maldizer
de ti
Não fosse esse teu céu
onde estrelas brincam
de se tornarem humanas
de tão perto que ficam destas mãos
eu viajaria de ti

939
Laura Amélia Damous

Laura Amélia Damous

Torres da Sé

Garças altivas beliscam
o céu
sangram estrelas
que se desfazem em luz
noites azuis
de maré alta
orquestram hinos e preces
minha cidade faz
o sinal da cruz
adormece

963
José de Oliveira Falcon

José de Oliveira Falcon

Sonata Urbana

a flauta mesmo em silêncio
fabrica seu mel de fábula;
o míssil mamom e a massa
carvão diurno de praga

modula a flauta no asfalto
onde um bêbado declama
seu lirismo contra a lama
e esse luar contra o salto

ou se achas mais sensato
e tua raiva reclama
cospe o lirismo na lama
atira a flauta no asfalto

1 020
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Querer

luz pálida
sinal fechado
solidão me toque não
no outdoor vejo você

encanto de alquimista
qualquer coisa, qualquer vista
mar à vista
meu porto é você

meu olho chove
seu rosto jovem
meu grito mudo
sua boca morde
não me incomode
deixe-me amar

abraça-me em lá maior
me transe em música
e me deixe só...

739
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Rotina

Acorda. Levanta. Acorda. Levanta.
Desperta, quase sem espreguiçar, e levanta.
Levanta quase sem acordar e corre.
Corre meio sem saber para onde e chega.
Chega meio sem saber para quê e volta.
Volta meio sem saber de onde e corre.

954
H. Masuda Goga

H. Masuda Goga

Inverno

Na Praça da Sé,
tomando sol os idosos
sem falar nem ler.

Cipós-de-são-joão
rebentados pelas rodas
dum carro de boi...

844
Francisco Handa

Francisco Handa

Inverno

Geou de manhã:
passarinho congelado
aquecendo os ovos.

Menino da feira
molhado pela garoa
arrasta a sacola.

869
Hidemasa Mekaru

Hidemasa Mekaru

Haicai

recaída punk

o ácido do cotidiano
corrói o meu sonho
feito sal na lesma

hoje

estou feito
gato escaldado
na cumeeira do tédio

875
Francisco Handa

Francisco Handa

Primavera

Pipa colorida
riscando o azul infinito.
Menino desenha.

Ao toque da fábrica
andorinhas fazem festa
no céu da cidade.

898
Gerimaldo Nunes

Gerimaldo Nunes

Considerações

Meus olhos
em Curitiba
eram bicho do mato
esperando
o bote da cascavel João Pessoa, 1981

780
Fernanda dos Santos

Fernanda dos Santos

Pingo dagua

Esbarra ,
Cai ,
Derrama ,
pinga ,
pinga ,
pinga .

Poça ,
muda ,
estática .
Vento sopra ,
ginga ,
ginga ,
ginga .

Felpuda ,
branca ,
áspera ,
suga ,
sug ,
su ...

991
Fernando Cereja

Fernando Cereja

São Paulo

casca de árvoreseca do cimento concretoevolução

886
Fanny Luíza Dupré

Fanny Luíza Dupré

Inverno

Rua esburacada.
Brincando nas poças d’água.
O menino tosse.

960
Fernando Batinga de Mendonça

Fernando Batinga de Mendonça

Tempo

é difícil
definir
o meu tempo:

desenhos
de fome
nas paredes

velhos meninos,
de manhã

poetas
à noite
nos quartéis.

é difícil
definir
o meu tempo:

homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais

924
Fernando Batinga de Mendonça

Fernando Batinga de Mendonça

As Palavras

1.
nas pedras gerais
no centro da praça,
reúno as palavras
sentado no chão.

procuro um sentido
de ferro e cimento,
na mesma palavra
um outro vestido:

2.
um novo momento.

806
Cândida Alves

Cândida Alves

Contradições do Óbvio

Nos bares
caras e caretas
bêbados e ninfetas
liberam os seus demônios

Quem diria
que desses inferninhos
saem santos matrimônios

1 058
Carlos Augusto Corrêa

Carlos Augusto Corrêa

Canção do Stress

enxergar a própria pupila
mascar submissão e gosma
ver o ralo, o passado de farpas
uma rosa de arame, o verso rompido
que mais?

depois calar, dormir, voltar
pôr joana no auge enquanto joão se acaba
e inchar no ônibus, minguar na sala
andar de frente, atrás
dos que no olvido expelem a canção do stress

é a lida

924
Aymar Mendonça

Aymar Mendonça

Busca

Um quadro futurista
uma mosca pousada na parede
um barbante enroscado no chão

O pensamento busca mistérios
cria mantras

enquanto a realidade transita
entre o barulho da máquina de lavar
e uma réstea de sol varando o vidro.

897
Alexandre Marino

Alexandre Marino

O Relógio Da Matriz

toda noite
quando badala
o relógio da matriz

os homens da cidade
se recolhem
para conta carneiros
e sonhar dinheiros

e morrem
a cada batida
do relógio da matriz

os mortos da cidade
então festejam
as badaladas na igreja
remoçando a terra.

1 191
Alexandre Marino

Alexandre Marino

Esta Cidade

Esta cidade se debruça
sobre suas próprias feridas
e engole os homens
que por ela caminham
perdidos

nesta cidade se perdem
nascem, morrem e desesperam
os tempos felizes que não virão
ainda que todos os esperem
das janelas.

935
Levi Bucalem Ferrari

Levi Bucalem Ferrari

Centro expandido

no prédio in da faria lima
a senhora orienta a decoração do escritório
o executivo olha a secretária
como se pedisse desculpas
um office boy excitado
hesita
entre um par de coxas jovens e um decote finamente decorado

os ônibus transportam bundas discretamente acessíveis

909