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Amor

Poemas neste tema

Mauricio Segall

Mauricio Segall

Lento, curto o momento

Lento,
curto o momento
quando vedas as tochas de felino
e tudo em ti
se reduz ao enleio dos teus lábios
(entre parênteses).

São pêssegos misto de maça e amora
raviólis com recheio cheio
quarto crescente e quarto minguante
sorvedouro e onda
corrente e  areia
arco e flecha,
serpente e piano
imã e espora,
nascente e vento,
ventosa e piranha.

Contemplo e questiono
esta voracidade
de morder a carne
macerar as frutas
esmagar a lua
queimar o sol
afogar a tempestade
beber o mar
comer a areia
e afrontar os perigos do rio e da montanha.

Entre o furacão e a calmaria
poente e aurora
orvalho e pântano
da prosa só resta a poesia
761
Carlos Nejar

Carlos Nejar

Inscrição

Aqui estou,
aberto o pórtico.
Serei breve no amor e no transporte.
O óbolo está pago, o dia resgatado
E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.

Aos deuses não ouso nada,
nem compro,
senão o intervalo
de meu próprio espanto.

Carregai-me, barca
E ainda canto.

861
Hilda Hilst

Hilda Hilst

VI

Tem nome
veemente. O Nunca mais tem fome.
De formosura, desgosto, ri
E chora. Um tigre passeia o Nunca Mais
Sobre as paredes do gozo. Um tigre te persegue.
E perseguido és novo, devastado e outro.
Pensas comicidade no que é breve: paixão?
Há de se diluir. Molhaduras, lençóis
E de fartar-se,
O nojo. Mas não. Atado à tua própria envoltura

Manchado de quimeras, passeias teu costado.
O Nunca
Mais é a fera.

1 315
Hilda Hilst

Hilda Hilst

De tanto te pensar

De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua nágua.

3 133
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Camarada diamante!

Não sou um diamante nato
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz do vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.

3 972
Hilda Hilst

Hilda Hilst

Cantares do Sem Nome e de Partida

Ó tirânico Amor, ó caso vário
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...
Luiz Vaz de Camões

Cubram-lhe
o rosto, meus olhos ofuscam-se;
ela morreu jovem.
John Webster
1 675
Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Gratidão

Eu morrerei
Mas tão à parte
De mim que nunca
O saberá

O alegre mundo
No qual subsisto
Em comunhão omnipresente.

eu morrerei
me desculpando diante dele
de ser diverso
(como me dói
só de pensar-me
ausente dele
em outro mundo!)

mas se puder morrer
tão rápido
que o mundo apenas
vendo o meu corpo

diante de si
quieto e ancorado
julgue que eu mesmo
esteja ali

então, espirito
ou o que for
me achegarei
dele sorrindo

e o beijarei
com tanto ardor
que, eternamente
lhe ficará

na face imensa,
o meu sinal
de criatura
agradecida.

1 049
Lya Luft

Lya Luft

Canção desse Rumor

Quem - estando
ausente - entra no quarto
Quem deita ao lado meu, quem passa
No meu coração seus lábios quentes, quem
Desperta em mim as feras todas
Quem me rasga e cura
Quem me atrai?

Quem murmura na treva e acende estrelas
Quem me leva em marés de sono e riso
Quem invade meu dia após a noite
Quem vem – estando ausente -
E nunca vai?
1 667
Mariazinha Congílio

Mariazinha Congílio

Plantação

Sinto-me
lavrador
Semeando em você
Minha estrada indecisa.
Procuro seus olhos
Em cada ausência sua.
Encontro seu riso
Sempre presente
Em cada despertar

813
Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Uma Mulher

Tem os
olhos escondidos
no meio das pedras.

Ali o regato
brota de cerejas envelhecidas.

Suas mãos apanham o ar.

Caminha de leve
sobre as palavras.
É exata.

Ninguém lhe adivinha a nudez.

Muitos, muitos a amam.
a ninguém deu o amor.
Em seu corpo ela permanece,
a alma lhe exige um corpo tão diferente
que não sabe onde esperá-lo.

1 136
Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Amor é Teu

Olhar que Sobe

Amor é
teu olhar que sobe
E desce  torna a subir ao ramo
Desce ao poço detém-se

Na água porque a sede avança

E torna a subir em carícia
Pelo braço compraz-se
Em resvalar pelo declive

Do corpo em balanço
Como o movimento de um
Pêndulo e assim nunca

Sabes se o caminho
para ele é ascensão
ou simplesmente espera
sobre um trilho de pedras
mais do que uma ideia

sentimento porque
o subir e o descer crescem
na viagem indiferentes

ao amor até que a ames

como se nunca a tivesses
conhecido somente

fora do teu alcance.

1 236
Carlos Nejar

Carlos Nejar

Cantata em Rodas Plumas

O amor
armou a clava
da tarde e seu alarme.
Quer, albatroz, levar-me
onde alcançam suas asas.

Vem, ditoso, acordar-me.
Quer nos levar nas rodas
das plumas e avalanches.
Nós chegaremos antes

com jubilosas almas,
que se absorvem, alvas
e salvas, nos redutos.
De céu a céu, conceitos

são cinzas e ferrugem.
E os que se amam, pungem
de amar, e mais amando
em gozo, em gozo, em bombo

ou nos vestígios, nuvens;
nos elos desta lava.
Em mais amor solvemos
o que se faz pequeno.

E humano: abismo, abismo.
1 135
Mariazinha Congílio

Mariazinha Congílio

Totalidade

Seu é meu
canto
Alegre e triste
Agreste e simples

Seu é meu corpo
Carente
Seu é meu pensamento
Consciente
Seus os meus sentimentos
Imprudentes
Minha fidelidade essencial

Meu é o seu sorriso
Que enternece
Minhas  são as suas dúvidas
Que me esclarecem
Meu é o seu amor
Que flutua
Sobre meu canto
Sobre mim.

851
Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Homo Viator

Sou homem...Que
bom é ser
qualquer coisa, assim, ao léu,
uma pluma de vender,
um pensamento, um chapéu,
enfim ser tão sómente isto,
ser apenas pelo meio,
sem um nome, sem um misto
de ancoragem ou de enleio,
ser nada( não é possível)
ser tudo ( mas é demais)
ser então o indefinível
nem tão pouco, nem demais.

Ser no amor o amor calado
meio nu, meio essencial,
porque tudo o que é colmado
bem parece horizontal.
Só o que não se aprimora
até ao pormenor existe:
o dia é adulto na aurora,
a noite mais bela, triste.

Por isso, desejo ser
sendo apenas o que sou:
um pouco de parecer
e muito que não chegou.

1 191
Carlos Nejar

Carlos Nejar

Clara Onda

Este amor em meadas e triciclos
que nunca se divide, confluindo
e torna noite, este sapato findo
e o firmamento, silencioso ciclo.

Este amor em meadas, infinito.
Em meadas de orvalho, desavindo,
em meadas e quedas, rugas, trincos
e rusgas, trinos, pios e sóis contritos.

Este amor me retece e configura.
Tem pressa de crescer, fogo calado.
Apenas queima, quando não se apura.

Parece interminável, quando tomba.
E só se apura, quando despertado.
Dissolvido me solve em clara onda.
953
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Antecipadamente escorregadia

Nas sombras
do luar
O olhar enfeita o vazio
Símbolos alegremente sensíveis
Excitando a dimensão do equilíbrio

Alma volúvel
Que as lendas ancestrais
Diluíram docemente
Em simbioses sentimentais

O corpo ilumina-se
Mistura de ritmos e profecias
E ela enrola-se com o seu calor perfumado

Com os cabelos sombreados
Pelo reflexo dos mistérios
Murmura a canção da pérola apaixonada

Escorrega pelo passado
Criando misturas sensuais
Derretidas pela simetria da paixão
919
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Desejo

Porque
me negar o desejo
Que nessa carne reclama,
De não provar de teu beijo
Se a libido é quem clama?

Porque te negar essa carne
Que de tão fresca te chama,
De saciar tua fome
Se a libido é quem clama?

Porque me negar à mistura
Que nessa carne se entrança,
De delirar na entrega
Se a libido é quem clama?

Porque adiar essa entrega
Que nesse medo se aplaina,
De saciar minha fome
Se a libido é quem clama?

Porque se a libido é quem chama
Que nessa fome se entrança,
Devo queimar nessa chama
Se ouvir o desejo que clama..

916
Silvaney Paes

Silvaney Paes

O Tempo

Silêncio
que grita e espera
Por uma voz que assoma e apega
De fazer poemas na espera
Desse amor que a mim se apega

Não saber desse amar a espera
E de uma dor que só agora se apega
Que pela alma se espalha, dilacera.
De só sofrer na espera

E quando à noite, finda a espera.
Há em mim um torpor que se agrega
Por um amor que assoma e se apega
Chegou o amor que de ha muito se espera

E de toda uma vida de espera
De uma dor que se agrega
De um torpor que dilacera
Nada mais importa.
Chegas-te.
Fim da Dor e da Espera

789
Terezinha Rezende Moreira

Terezinha Rezende Moreira

Semear

Semeia,

o que importa é semear
pouco, muito, tudo,
a semente da esperança.
Semeia
tuas energias para poderes
enfrentar as lutas
Semeia tua coragem
para poderes encorajar
o outro.
Semeia teu entusiasmo,
tua fé, o teu amor.
Semeia coisas pequeninas,
Insignificantes
semeia e confia
Cada semente
há de enriquecer,
um pedaço de chão.

2 401
Rose M. Martins

Rose M. Martins

Fases da Lua

Morri...
Até então não percebia, mas eu morria a cada dia, gota a gota a sangrar...

Percebi...
Desesperei-me, não sabendo para onde caminhar...

Desisti...
Por um momento, por não me encontrar...

Perdi...
a mim mesma, e de repente estava numa sala a buscar...

Vi...
Alguém chegar, tornando-se cada vez mais importante a me apoiar...

Senti...
Tanta alegria, tanta solidariedade, tudo nada familiar...

Envolvi...
E fui envolvida, num sentimento puro, era só felicidade a brotar...

Vivi...
Tudo intensamente, querendo tocar, saborear, voar...

Venci...
As amarras, tirei a venda dos olhos, e vi um mundo colorido a me esperar...

Sorri...
Você estava de braços abertos, carinhosamente a me amparar...

Corri...
Até o arco-íris dos teus olhos, sentindo o calor de teu sorriso a me
animar...

Retribuí...
Esse abraço maravilhoso, com ânsia, feliz por finalmente te encontrar...

Aprendi...
Que com você é divino conjugar o verbo adorar.

390
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Aquele Olhar

Clamei
por muitos amores,
Concederam-me um ao alvorecer,
Mas ele trouxe tanta luz que me ofuscou
Parecendo demais para meus anseios

Achei que poderia fugir
Furtivamente sem nada dizer,
Como uma sombra que se escoa
Ante a luz que adentra pela janela.

Mas teus olhos viram-me
E perdi o meu recurso derradeiro,
Ilhado pela visão dessa luminosa manhã
Inebriado diante da mulher.

Tentei refazer minha trama,
Mas outra trama trazia desfecho igual
E parecias cantar em silencio
O gozo de ver-me sob o jugo do desejo
E te achegaste parta dar o nó em teu laço.

Na expressão daquele olhar
Pressenti que me perderia
Mergulhando nas suas vagas
Mesmo sabendo que elas ora alçam
Ora destroiem o coração de um homem

806
Sylvio Persivo

Sylvio Persivo

Resquícios

Só me lembro de teus olhos brilhantes
Me dizendo coisas impossíveis de dizer
E de teu sorriso imenso, radiante
Se alimentando de todo o meu prazer.

Depois ...Lembrar ficou tão difícil
Na confusão de beijos e de abraços.
Tomei teu corpo, o que tornou-se vício,
E perdi os sentidos no gozo de teus braços.

E fui feliz, deus, louco e criança
Tanto que, sem música, criei a dança
Irreal que chamei de felicidade

E quando, enfim o real nos despertou,
Apesar da dor valeu, pois só quem amou
Teve, na vida, um pouco de Verdade!

811
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Crucificado

Abre a
cruz dos teus braços
Já fui suficientemente flagelado
Agora tenho que ser crucificado
Devo morrer e ser ressuscitado
Fecha a cruz dos teus braços

Abre a cruz dos teus braços
De alma na mão fui coroado
Tive o peito perfurado
Nessa dor fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços

Abre a cruz dos teus braços
Fui três vezes nesse amor negado
Saudade, dor e desprezo cravados.
Sangrando fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços

Abre a cruz dos teus braços
Já fui suficientemente flagelado
Em teu amor fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Nesse abraço posso ser ressuscitado

1 019
Susana Pestana

Susana Pestana

Espaços

As minhas
lágrimas partiram-se
No entendimento da vida.
Quebrou-se a inocência na minha alma.
Hoje vivo na angústia de ter o conhecimento
De nunca me ter sentido amada.
Estou mergulhada na fúria
De perceber o absurdo do desespero
Destes temporais da vida.
Subo suavemente esquecida
nas escadas amanhecidas
Sem sentir os instalados na minha vida.

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