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Poemas neste tema

Rogério Bessa

Rogério Bessa

Poema do Bom Pastor

cruzeiro luminoso não feito de acrílico
apagando e acendendo no céu
navegante de mil viagens
inventor ousado do esputinique
jato supereternidade
comedor de distâncias de ontem a hoje

o Bom Pastor apascenta seus rebanhos de nuvens
o Bom Pastor, chefe do setor administrativo
apascenta rebanhos de lã
seus rebanhos pastam chuva e eternidade

Bom Pastor de olhos de estrela
cravejado de estrelas em disposição de cruz
Bom Pastor capitão de fragata
Bom Pastor amansador de pirata
salvador de mil naufrágios

Bom Pastor marinheiro antigo
carpinteiro de mil barcas
pregadas nas pontinhas com as tachinhas das estrelas

Bom Pastor olhar de neve
cabelos de espiga dourados
cajado de feixe de trigo
reluzindo ao sol da graça

Bom Pastor de dedos vertendo cintilações
Bom Pastor de olhar de neve
tange essas barcas de leve
para o ancoradouro de Paz e Eternidade.

1 753
Prado Kelly

Prado Kelly

Relógio

Teces, fios do Tempo, as Horas... Em nevoentos
dias, severo deus, Cronos vívido, escreves,
na eterna oscilação dos nossos pensamentos,
glórias benditas, gozos suaves, sonhos leves.

E, enquanto marcas, no fragor dos sentimentos,
horas rubras de chama e horas frias de neves,
para instantes de dor teus compassos são lentos,
para sonhos de amor teus minutos são breves.

Dá-me repouso, ó Tempo, e dai-me, Horas augustas,
a esmola do sossego e a mercê do abandono.
Quero dormir... A treva é a luz das almas justas.

E, ó Destino, concede à minha alma incendida
a Morte, pois a Morte é o infinito do sono
e o sono, mais que tudo, é o conforto da Vida.

615
Renato Castelo Branco

Renato Castelo Branco

Retorno

Um dia voltarei a ser terra
e de meu seio brotarão
flores agrestes.

Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.

Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.

Um dia eu serei
o que já fui.

1 635
Júlio Maciel

Júlio Maciel

Jacarecanga

Rebelde e forte, aqui, outrora se implantava
A taba indiana — aqui, onde a alma lua cheia,
Pródiga, a derramar em cachões a luz fiava,
— Agora a estes casais a fachada clareia.

Quanta vez trom de inúbia, entrechocar de clava
Não vibrou pelo azul que sobre mim se arqueia!
Praia! o tropel da tribo em correria brava
Quanta vez não sentiste a sacudir-te a areia!

E embora tu, Passado, a lenda antiga escondas,
Eu sei que o amor também floriu aqui: — no treno
Da aragem, no marulho eloqüente das ondas, —

Parece-me inda escuto, em meio à noite clara,
— O selvagem rumor dos beijos de Moreno
E as falas de paixão da meiga Tabajara!

1 025
Moranno Portela

Moranno Portela

Tempo Íntimo

Inscreve teu poema no tempo
como no tempo estás inscrito: —
um silencioso grito
juntando os cacos da solidão.
Estás partido,
e teu poema é só um eco
sem raízes ou audível chão.
Contudo cantas,
e tua voz, rouca, vai desvendando
as faces do mundo
sob tua pele escondidas.
Canta, canta que aprenderás
o tempo, teu relógio de pulso
ecoando efêmero teu coração
— o relógio enorme da catedral

e o silêncio.

895
Madi

Madi

Tudo Muda, Tudo Cansa

Tudo Muda, Tudo Cansa

Aos poucos,
os longos anos de amor tudo muda
Aos poucos,
também, tudo cansa
À conta-gotas,
lá se foi o que era doce

Aí, a cama fica estreita
Aí, você sonha em ter uma só para você
Daí, as noites de amor são só de vez em quando

809
Madi

Madi

Espelho

Espelho

Chegará o tempo
em que irão olhar e enxergar em mim o seu rosto
Chegará o tempo
em que eu não vou precisar dizer o meu nome:
o seu estará escrito em minha vida,
claro, exposto, legível

875
Madi

Madi

Um Dia

Um Dia

Eu pedi um dia
E um dia é tanto tempo que não da nem pra contar

Um dia pode demorar horas, meses, anos...
Custa a passar
Um dia, por si só, soa o distante, o quase inatingível
Um dia é tão indefinido que tanto pode estar muito perto
como pode estar muito longe
Demore ou não a chegar, não importa
Um dia é o fim da espera derradeira
E se é para esperar por esse beijo eu espero
a minha vida inteira

787
Madi

Madi

Se eu pudesse

Se eu pudesse

Ah! se eu pudesse...
Se eu pudesse,
eu faria das nossas vidas uma festa

Arrumaria um tempo para cuidar de flores
As flores eu mesma colhia
só para te presentear todo dia

Se eu pudesse,
eu seria a primeira a abrir a porta

Só para te ver chegar,
entrar,
sentar,
me olhar
e sorrir

978
João Quental

João Quental

Certa Vez de Manhã Cedo

Certa vez, de manhã cedo, o verão é um inseto morto
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.

Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.

Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.

(1989)

760
João Quental

João Quental

A Idade Exigida

Sim, o barro vermelho das estradas que não sei...
Havia um tempo em que todos os vãos das portas
das casas, do mundo, de nada,
eram repletos de olhos de meninos
a espiar
a obscuridade.
Hoje não.
Ja não há mais casas,
nem meninos
nem vãos
obscuros...
Hoje é um dia em que me descubro sumido
na boca dos homens que perderam a vida a partir
tornar
seguir
rosnar
não quero que os dias sejam assim.
Pois não quero, nunca,
ter a idade exigida
para morrer, só, na poeira
do barro vermelho das estradas que não segui...

(1984)

865
Francisco Miguel de Moura

Francisco Miguel de Moura

Soneto dos Cinqüentanos

Aos cinqüenta bebidos, me apeteço
porque a vida me ofertou de espinhos.
flores poucas, encantos mitigados.
E em todo passo a busca de sentidos.

Feliz por ser fidel no que me arrimo.
São secretas conquistas, muito humanas.
Sorrio ao que me passa e vai ao vento:
— Eu sou vagar, sou tempo e não me canso.

Meu corpo alcança o corpo mais cansado,
minha alma inflama a irmã insubmissa,
sem barulhar a paz que me guerreia.

Semeio amor. Na dúvida, campeio
o que me arma de força e decisão.
E vou seguindo. E sei que vou ficando...

909
Francisco Tribuzi

Francisco Tribuzi

O Museu e a Ponte

Lá dentro guardam-se histórias...
Aqui fora a ponte guarda em segredo
os vultos que adentraram as glórias
e as memórias dos gestos sem medo.

De cada ângulo vista
como que a jorrar passado
a ponte em si despista
o conteúdo sonhado.

E o que ela inspira:
estética e formusura
traduz o belo que delira
em gesto e arquitetura.

788
Frutuoso Ferreira

Frutuoso Ferreira

Sousa Andrade

Erguem brumas do mar do etéreo brilhantismo,
Num faustoso Ocidente umas exéquias grandes...
Loira tarde no céu. Desse cristal dos Andes
Rola um Sol a cair nas vastidões do Abismo.

E na augusta amplidão daquela tarde enorme
Surge um vulto de azul de esplêndida safira:
É a bela Guimarães... A Pátria que delira
Na opala sideral do Ocaso que ali dorme.

É que entra nos Panteons da cérula turquesa,
O Gênio imorredoiro, escultural do Guesa,
O Gênio que entre nós chamou-se Sousa Andrade.

Como as que ele sonhara eternamente belas,
Possam novas coroas desfolhar-lhe estrelas,
Por sobre a noite azúlea da ampla Eternidade.

838
Ieda Estergilda

Ieda Estergilda

Anúncio Urgente

Procura-se um poeta
com estrela na testa
e voz de profeta.

Apareça, poeta
enxergarei a estrela
entenderei a parábola.

Precisa-se de um poeta
do tamanho do seu tempo
pode vir de marte, do mato
ou no vento.

Precisa-se de um poeta
dispensa-se currículo
o nome do barco é poesia.

792
José Lannes

José Lannes

Griet

Pensava em ti profundamente... quando
chegaste... E tão absorto me sentia
que, ao ver-te, apenas te sorri contente

e quedei, duvidando
se eras tu que chegavas realmente
ouse era em pensamento que te via...

922
Gilberto Gil

Gilberto Gil

Flora

Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora

Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora

Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora

Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora

Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora

Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora

2 632
Frutuoso Ferreira

Frutuoso Ferreira

Noite de Brahma

Corre a Noite de Brahma... A Eternidade avulta...
Aí junto à Porta de Oiro o grande Arcanjo exulta
Na voragem sem fim dos êxtases deiformes;
Estruge o vendaval dos céus pelagiformes
E o Arcanjo vencedor enfrenta os temporais,
Cheio desse esplendor das glórias eternais
E Ele vibra da epopéia azul dos cataclismas,
Nas lavas colossais dos Etnas das cismas.

Corre a Noite de Brahma... O espírito da Flor
Desdobra um madrigal — a apoteose do Amor,
O Amor — Guerreiro audaz — Sol de inefável luz,
Que se tornara um Deus, assim como Jesus:
Pompeiam céus, a flux, chispantes de arrebóis
E a Noite, em flor de Brahma acorda os seus Heróis;
Este que vem fulgindo assim como os cristais,
É um daqueles milhões de assinalados tais.

978
Carvalho Neto

Carvalho Neto

Poema de Louvor a Amarante e a Vida

(Remansos)

quem ouviu o grito plantado na vida do rio
e percebeu o mistério dos olhos na ciranda
das águas
aprendeu que a esperança anda a galope
nas margens do Parnaíba.

guarde no peito com cuidado
os nostálgicos sons de Amarante
dos rios, serras e segredos
partitura do nosso encantamento
casarão da rua principal

rua do fogo, do fio
areias da minha vida.
quem ouviu o crepitar da acendalha
no beiço da ribanceira
e percebeu o renascer da invernada
no ciclo evolutivo das sementes
aprendeu que o povo guarda o segredo
das raízes.

desça hoje a escadaria
entre fantasmas azuis
e lusas lembranças
da cidade que entre rios
delira
onde uma gente luminosa e livre
amorosamente livre
constrói o amor definitivo.
ali o mundo mágico dos sentimentos
se agiganta
aqui a poesia brinca nos areiais
da confluência

1 889
Cid Teixeira de Abreu

Cid Teixeira de Abreu

Soneto de Amor

o meu amor é só. como as gaivotas,
criei-o na aurora dos rochedos,
acima da impotência dos enredos,
na trilha insondável de outras rotas.

meu amor é meu ser e meus segredos,
a virtude trincada de revoltas.
se não há o querer de eras remotas,
ausência também há de velhos medos...

e cibório de nervos e memória
tensa, coberta de sangue — oh granito!
dólmans brancos nas páginas da história.

o meu amor... quem sabe compreendê-lo,
se a própria alma, na angústia do infinito,
é chama e cinza, é ternura e gelo?!...

1 030
Cid Teixeira de Abreu

Cid Teixeira de Abreu

Réquiem para Graça

enquanto o coveiro
cava e
escava
de sete palmos a
nava
navega em rodas da saudade

simples tua opção
para uma cadeira de rodas
marejar meus olhos

a terra não comerá minhas lembranças
— minha namorada tu serás

873
Celso Pinheiro

Celso Pinheiro

Mater

A minha mãe, uma velhinha doce,
De olhar de mel e beijos de torcazes,
A minha mãe, coitada! talvez fosse
A dindinha dos cravos e lilases!...

No seu ventre bendito Ela me trouxe
Nove meses... E um dia, sob audazes
Raios de sol primaveril, notou-se
Que surgira um bebê de olhos vivazes...

Era eu! era um poeta extravagante,
Que nascera sem festas nem alardes,
Quando o dia era um límpido diamante...

A minha mãe... matou-a o mês de Agosto!
E é por Ela que eu vou todas as tardes
Rezar na capelinha do Sol-posto!...

1 069
Everaldo Moreira Verás

Everaldo Moreira Verás

Possessão

Me lembro quando tua mão pousou sobre minha mão.
O quarto, no escuro, tinha sido a cela escolhida.
A madrugada branca nos disse
que nunca mais o dia raiava.
Aí,
te apertei contra mim,
o lençol quente nos uniu.
Na rua, a luz do poste marcava, no chão,
a hora estranha de esquecer a fuga.
Baixinho murmurei o teu segredo
e a voz era doce mentira de amor.
Então,
entrei no teu corpo virgem
a tua alma me possui depois,
quase chuvamente mulher.

847
Félix Pacheco

Félix Pacheco

Símbolo dos Símbolos

Caveira! Tu conténs a Síntese do Mundo!
Trazes dentro de ti o impalpável Mistério.
És o louro mudado em tinhorão funéreo,
És o Azul transformado em báratro profundo!

Destronados Satãs de olhar meditabundo,
Andam dentro de ti como num cemitério,
E os Faustos doutorais, de aspecto mudo e sério,
Descem do informe Caos ao tenebroso fundo.

Cabalístico signo exótico do Nada,
Sofres, e a tua Dor, Caveira, é sufocada,
Gemes, e o teu gemido esvai-se em Ironia...

Resta-te agora só, depois de tantas glórias,
A lembrança cruel das passadas vitórias
E essa amar a expressão de funda nostalgia!

960