Tristeza e Melancolia

Poemas neste tema

Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXIV

Com as virtudes que olvidei
posso fazer um traje novo?

Por que os melhores rios
foram correr na França?

Por que não amanhece na Bolívia
desde a noite de Guevara?

E busca ali os assassinos
seu coração assassinado?

Tem primeiro gosto a lágrimas
as uvas negras do deserto?
1 038
José Saramago

José Saramago

Natal

Nem aqui, nem agora. Vã promessa
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:
É dia de Natal. Nada acontece.
2 355
José Saramago

José Saramago

Poema Seco

Quero escusado e seco este poema,
Breve estalar de caule remordido
Ou ranger de sobrado onde não danço.
Quero passar além com olhos baixos,
Amassados de mágoa e de silêncio,
Porque tudo está dito e já me canso.
1 254
José Saramago

José Saramago

Lugar-Comum do Quadragenário

Quinze mil dias secos são passados,
Quinze mil ocasiões que se perderam,
Quinze mil sóis inúteis que nasceram,
Hora a hora contados
Neste solene, mas grotesco gesto
De dar corda a relógios inventados
Para buscar, nos anos que esqueceram,
A paciência de ir vivendo o resto.
1 154
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Estrela Polar

Eu vi a estrela polar
Chorando em cima do mar
Eu vi a estrela polar
Nas costas de Portugal!
Desde então não seja Vênus
A mais pura das estrelas
A estrela polar não brilha
Se humilha no firmamento
Parece uma criancinha
Enjeitada pelo frio
Estrelinha franciscana
Teresinha, mariana
Perdida no Pólo Norte
De toda a tristeza humana.
1 338
Martha Medeiros

Martha Medeiros

jantamos, recolhemos a louça

jantamos, recolhemos a louça
desta vez não brindamos
não houve conhaque ou licor
nem beijo de boa noite nem amor
hoje é domingo
mas amanheceu segunda-feira pra nós dois
1 091
Martha Medeiros

Martha Medeiros

cinderela insone

cinderela insone
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
1 046
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tão profundamente triste

tão profundamente triste
fiquei depois daquele beijo
que já não era desejo e sim hábito
de todos os nossos encontros


era verão e eu não sabia
que certas coisas não têm fim
passei noites em claro procurando entender


o que enfim não se explica
chamam vida e é assim
985
Martha Medeiros

Martha Medeiros

cozinha adentro entrei chorando

cozinha adentro entrei chorando
pia, panela, geladeira no canto
coentro, louro, noz moscada
desanimada fui fazer um molho branco
azeite, páprica, fermento
misturei lamento, sal e desespero
tempero, lágrima, pimenta
refoguei meu abandono em fogo brando
1 059
Martha Medeiros

Martha Medeiros

foram tantas noites de insônia

foram tantas noites de insônia
roubando os poucos anos que tinha
perdi a conta dos prantos
contei carneiros e os dias
e os dias nunca passavam
ou passavam e eu não via
ficava um aperto no peito
nem tudo entendia como era
mas que era bonito eu sabia
975
Martha Medeiros

Martha Medeiros

pois é

pois é
aqui estou
quem vier
verá que sou
o que restou
de uma mulher
956
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Mortas

Tudo foi breve e apenas começado.
Era grande demais para vir inteiro
Nos dias apressados e medidos
E adormeceram mal adormecidas.

Quem as via não via que eram elas
E elas não sabiam que era o tempo
Esse tocar ausente e inseguro
Por onde a sua vida lhes fugia.

Atentamente como se voltassem
Para ouvir as palavras nunca ouvidas
Encostam-se ao rumor familiar
Do vento nas janelas e das chuvas.

Nas suas campas cresce mais a erva
E as roseiras dão flor antes do tempo.
A brisa que partiu inquieta volta
E as ramagens no céu pairam, alheias.
1 500
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Anjos Sem Asas Meus Anjos Pesados

De boca sem voz
As fadas que disseram os maus fados
Falavam de vós

De mãos dadas em círculos dançantes
Infinita valsa
Todos brilhavam como diamantes
Madrugada falsa

E eu chorando e cantando fui levada
Pálida e morta
Até à taciturna encruzilhada
Duma estrada torta
1940
1 160
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Princesa da Cidade Extrema Ou a Morte Dos Ritos

Quando o palácio do rei do Estio foi invadido
Isô princesa da Cidade Extrema
Inclinou gravemente a cabeça pequena
E em seu sorriso de coral os dentes brilharam como grãos de arroz
Quando levaram sua colecção de jades
O seu leito de sândalo
O sorriso franziu sua narina fina
Suas pestanas acenaram como borboletas
Quando levaram suas jarras vermelhas seus livros de estampas
Ela continuou flexível e serena
Suas pestanas aplaudiram como leques pretos
Seus lábios recitaram a sentença antiga:
Aquele que é despojado fica livre
No lago viu-se
Ela mesma era
Flexível e brilhante como seda
Fresca e macia como jade
Colorida e preciosa como estampa
Serena como seda dormiu nessa noite sobre esteiras
Porém a aurora do tempo novo despontou na cidade
Quando ela acordou
O cortejo das mãos não acorreu
A mão que na jarra põe a flor
A mão que acende o incenso
A mão que desenrola o tapete
A mão que faz cantar a música das harpas
A longa subtil mão precisa que pinta o contorno dos olhos
A mão fresca e lenta que derrama os perfumes
Mão nenhuma invoca o espírito dos deuses
Protectores do tecto
Mão nenhuma dispõe o ritual antiquíssimo que introduz
O fogo linear do dia
Mão nenhuma traça o gesto que constrói
A forma celeste do dia
As vozes dizem:
Ergue-te sozinha
Não és ídolo não és divina
Nenhuma coisa é divina
Como seda no chão cai desprendida
Assim ela esvaída
Quando a si torna não torna à sua imagem
Tudo é abolido e bebido em repentina voragem
O colóquio dos bambus calou-se
Nem a rã coaxa
Como caule ao vento seu pescoço fino baloiça
Suas pestanas permanecem imóveis como as do cego que há milénios
Junto da ponte não vê o rio
Em seus vestidos tropeça como o cego
Suas mãos tacteiam o ar
Muito alto ouve ranger o céu
São os deuses rasgando suas sedosas bandeiras de vento
Para não ouvir o silvo dos gumes acerados
Mergulha no lago até ao lodo
Depois flutua muitos dias
No centro da corola que formam
Os seus largos vestidos espalhados
1 092
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Xv. Inversa Navegação

Inversa navegação
Tédio já sem Tejo
Cinzento hostil dos quartos
Ruas desoladas
Verso a verso
Lisboa anti-pátria da vida
1978
1 131
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ó Poesia Sonhei Que Fosses Tudo

E eis-me na orla vã abandonada
Uma por uma as ondas sem defeito
Quebram o seu colo azul de espuma
E é como se um poema fosse nada.
1 222
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Puro Espírito do Êxtase E do Vento

Que no silêncio da planície danças

Eu não quero tocar teu corpo de água
Nem quero possuir-te nem cantar-te
Pesa-me já demais a minha mágoa
Sem que seja preciso procurar-te.
1 324
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pranto Pelo Infante D. Pedro Das Sete Partidas

(poema escrito na noite de 17-12-1961, e interrompido pela notícia da entrada dos soldados indianos em Goa)

Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte
704
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nevoeiro

Quem poderá saber que estranha bruma
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
Sem um gesto, sem gritos, sem revolta.

Quem poderá saber que estranhos laços
E que sabor de morte lento e amargo
Sugaram todo o sangue dos meus braços —
O sangue que era sede do mar largo.

Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
À luz dum pôr de sol enlouquecido.
1 647
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Meu fado meu doce amigo

Meu fado, meu doce amigo
Meu grande consolador
Eu quero ouvir-te rezar,
Orações à minha dor!

Só no silêncio da noite
Vibrando perturbador,
Quantas almas não consolas
Nessa toada d’amor!

Eu quero ouvir-te também
P’r uma voz que me recorde
A doce voz do meu bem!

Quando o luar é dolente
Eu quero ouvir essa voz
Docemente... docemente...

888
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Eurydice

A noite é o seu manto que ela arrasta
Sobre a triste poeira do meu ser
Quando escuto o cantar do seu morrer
Em que o meu coração todo se gasta.

Voam no firmamento os seus cabelos
Nas suas mãos a voz do mar ecoa
Usa as estrelas como uma coroa
E atravessa sorrindo os pesadelos.

Veio com ar de alguém que não existe,
Falava-me de tudo quanto morre
E devagar no ar quebrou-se, triste
De ser aparição, água que escorre.
1 422
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cidade Suja, Restos de Vozes E Ruídos

Rua triste à luz do candeeiro
Que nem a própria noite resgatou.
1 118
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

V. Inverno

Parece que eternamente sobre a terra
Choverá desolação e frio
A mesma neve de horror desencarnada
A mesma solidão dentro das casas
1 322
Adélia Prado

Adélia Prado

Dois Vocativos

A maravilha dá de três cores:
branca, lilás e amarela,
seu outro nome é bonina.
Eu sou de três jeitos:
alegre, triste e mofina,
meu outro nome eu não sei.
Ó mistério profundo!
Ó amor!
2 669