Tempo e Passagem
Poemas neste tema
Charles Bukowski
Especial De 1990
gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
1 058
Charles Bukowski
Sorte
certa vez
fomos jovens
diante desta
máquina...
bebendo
fumando
escrevendo
foi o mais
esplêndido e
miraculoso
dos tempos
ainda
é
acontece que agora
em vez de
nos movermos na direção
do tempo
ele
se move na nossa
direção
faz com que cada palavra
perfure
o
papel
clara
veloz
dura
alimentando um
espaço que se
fecha.
fomos jovens
diante desta
máquina...
bebendo
fumando
escrevendo
foi o mais
esplêndido e
miraculoso
dos tempos
ainda
é
acontece que agora
em vez de
nos movermos na direção
do tempo
ele
se move na nossa
direção
faz com que cada palavra
perfure
o
papel
clara
veloz
dura
alimentando um
espaço que se
fecha.
1 214
Charles Bukowski
dois
cuidado com mulheres
envelhecidas
que nunca foram
nada a não ser
jovens.
envelhecidas
que nunca foram
nada a não ser
jovens.
1 157
Charles Bukowski
Sapatos
quando você é jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
simplesmente parados
sozinhos
no armário
podem incendiar os seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
um par de
sapatos de salto alto
femininos
simplesmente parados
sozinhos
no armário
podem incendiar os seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
1 131
Charles Bukowski
Sapatos
quando você é jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
1 126
Charles Bukowski
As Garotas
estive olhando para
a mesma
pantalha
por
5 anos
e ela acumulou
uma poeira de solteiro
e
as garotas que entram aqui
estão ocupadas
demais
para limpá-la
mas não dei bola
estive bastante
ocupado
para notar
até agora
que a luz
brilha
mal
através
de 5 anos
de acúmulos.
a mesma
pantalha
por
5 anos
e ela acumulou
uma poeira de solteiro
e
as garotas que entram aqui
estão ocupadas
demais
para limpá-la
mas não dei bola
estive bastante
ocupado
para notar
até agora
que a luz
brilha
mal
através
de 5 anos
de acúmulos.
569
Charles Bukowski
Velho Limpo
daqui a
uma semana farei
55.
sobre o que
escreverei
quando ele não
levantar mais
pela manhã?
meus críticos
vão adorar
quando a minha diversão
passar a ser
tartarugas
e estrelas-do-mar.
chegarão inclusive a
dizer
coisas boas sobre
mim
como se eu tivesse
finalmente
alcançado a
razão.
uma semana farei
55.
sobre o que
escreverei
quando ele não
levantar mais
pela manhã?
meus críticos
vão adorar
quando a minha diversão
passar a ser
tartarugas
e estrelas-do-mar.
chegarão inclusive a
dizer
coisas boas sobre
mim
como se eu tivesse
finalmente
alcançado a
razão.
1 080
Manuel Bandeira
Sônia Maria
Sônia, filha de Gilberto
E filha de Madalena,
Cumprirá em moça, decerto,
O que promete em pequena.
Não verei isso de perto,
Serei bem longe... Que pena!
E filha de Madalena,
Cumprirá em moça, decerto,
O que promete em pequena.
Não verei isso de perto,
Serei bem longe... Que pena!
935
Manuel Bandeira
Célia
Que idade risonha e bela,
Célia, a dos vinte anos! Eu
Que já possuo de meu
Perto de três vezes ela,
Os teus vinte anos saúdo,
Desejando que os renoves,
Faças conta e fora os noves,
Te reste em venturas tudo!
Célia, a dos vinte anos! Eu
Que já possuo de meu
Perto de três vezes ela,
Os teus vinte anos saúdo,
Desejando que os renoves,
Faças conta e fora os noves,
Te reste em venturas tudo!
944
Manuel Bandeira
Passado, Presente e Futuro
Só o passado verdadeiramente nos pertence.
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
1 515
Manuel Bandeira
Tempo-será
A Eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo,
E a palma de minha mão).
Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo,
E a palma de minha mão).
Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
1 936
Marina Colasanti
De quem hoje penso
Olhando os velhos
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com nova melancolia
que todos eles
todos
foram mais belos
um dia.
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com nova melancolia
que todos eles
todos
foram mais belos
um dia.
1 035
Marina Colasanti
Na tumba da senhora Dai
Na tumba de Dai
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
1 010
Affonso Romano de Sant'Anna
Arte Mortal
Anda me cercando a morte
por vários lados
abrindo alçapões
até dentro da casa.
Anda me espreitando
querendo intimidades
dentro dos lençóis.
Anda num vai e vem
de comadre sirigaita. Vem
lança um boato e parte. Vem
toda manhã
deixa a mensagem
no jornal do espelho
inscrevendo
no meu rosto
sua antiobra de arte.
por vários lados
abrindo alçapões
até dentro da casa.
Anda me espreitando
querendo intimidades
dentro dos lençóis.
Anda num vai e vem
de comadre sirigaita. Vem
lança um boato e parte. Vem
toda manhã
deixa a mensagem
no jornal do espelho
inscrevendo
no meu rosto
sua antiobra de arte.
1 198
Affonso Romano de Sant'Anna
Esclerose Amorosa
O que fazíamos no leito?
De tua voz já nem me lembro.
Tuas pernas dissolvem-se na neblina.
Havia uivos de gozo?
Nem dos seios sei exatamente.
O que eu fazia? O que fazias?
Ah! uma vaga lembrança
a que nem amor eu chamaria.
No entanto, parece que eu sofria.
Sofria?
Já não me lembro por que sofria.
De tua voz já nem me lembro.
Tuas pernas dissolvem-se na neblina.
Havia uivos de gozo?
Nem dos seios sei exatamente.
O que eu fazia? O que fazias?
Ah! uma vaga lembrança
a que nem amor eu chamaria.
No entanto, parece que eu sofria.
Sofria?
Já não me lembro por que sofria.
1 066
Affonso Romano de Sant'Anna
Com Dante
Neste Castelo de Gargonza
Dante esteve um pouco antes de mim.
Escapava de inimigos (os gibelinos).
Pisava nestas pedras
ouvia o mesmo sino que na torre ainda há pouco batia.
Isto foi há oito séculos.
O que não é nada
diante das pedras
– e da poesia.
Dante esteve um pouco antes de mim.
Escapava de inimigos (os gibelinos).
Pisava nestas pedras
ouvia o mesmo sino que na torre ainda há pouco batia.
Isto foi há oito séculos.
O que não é nada
diante das pedras
– e da poesia.
1 202
Affonso Romano de Sant'Anna
Iluminando
Que fulgurante a vida face ao entardecer.
Desfolho seus momentos numa verticalidade absurda.
Os gregos amavam o Sol
e os decadentistas
lunares formas de viver.
Projeto uns nos outros
iluminando o escurecer.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para ela.
Escrevo. Escrevo. Escrevo.
E, algo se grava e se esclarece
no ato de escreviver.
Desfolho seus momentos numa verticalidade absurda.
Os gregos amavam o Sol
e os decadentistas
lunares formas de viver.
Projeto uns nos outros
iluminando o escurecer.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para ela.
Escrevo. Escrevo. Escrevo.
E, algo se grava e se esclarece
no ato de escreviver.
1 217
Affonso Romano de Sant'Anna
Ristorante Etruria
Essa bela garçonete etrusca
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
1 107
Affonso Romano de Sant'Anna
Conferindo o Tempo
Estamos, meu vizinho e eu,
envelhecendo
no espelho do elevador.
É uma operação diária e complicada.
Um no outro, conferimos nosso avanço
comentando a decrepitude dos mais velhos.
O elevador desce, e avançamos sorrindo
como se houvesse flores no abismo.
envelhecendo
no espelho do elevador.
É uma operação diária e complicada.
Um no outro, conferimos nosso avanço
comentando a decrepitude dos mais velhos.
O elevador desce, e avançamos sorrindo
como se houvesse flores no abismo.
937
Affonso Romano de Sant'Anna
Repassando
Interessado no passado estou.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.
O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.
O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.
O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.
O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.
1 058
Affonso Romano de Sant'Anna
Villa Serbelloni, Peônias
Estas peônias floriram
há uma semana
sabendo que sua vida é curta
e se chover é morte certa.
Chove
e caem pétalas na terra.
Por que poeta!
deveria teu poema ser eterno?
há uma semana
sabendo que sua vida é curta
e se chover é morte certa.
Chove
e caem pétalas na terra.
Por que poeta!
deveria teu poema ser eterno?
838
Pablo Neruda
XIII - Os homens
Chegamos muito longe, muito longe
para entender as órbitas de pedra,
os olhos extintos que continuam olhando,
os grandes rostos dispostos para a eternidade.
para entender as órbitas de pedra,
os olhos extintos que continuam olhando,
os grandes rostos dispostos para a eternidade.
1 065
Pablo Neruda
X
Que pensarão de meu chapéu
daqui a cem anos os polacos?
Que dirão de minha poesia
os que não tocaram meu sangue?
Como se mede a espuma
que resvala da cerveja?
Que faz uma mosca encarcerada
em um soneto de Petrarca?
daqui a cem anos os polacos?
Que dirão de minha poesia
os que não tocaram meu sangue?
Como se mede a espuma
que resvala da cerveja?
Que faz uma mosca encarcerada
em um soneto de Petrarca?
1 076
Pablo Neruda
IX
É o mesmo o sol de ontem
ou é outro o seu fogo?
Como agradecer às nuvens
essa abundância fugitiva?
De onde vem a nuvem densa?
com seus negros sacos de pranto?
Onde estão aqueles nomes
doces como tortas de outrora?
Para onde foram as Donaldas,
as Clorindas, as Edwigis?
ou é outro o seu fogo?
Como agradecer às nuvens
essa abundância fugitiva?
De onde vem a nuvem densa?
com seus negros sacos de pranto?
Onde estão aqueles nomes
doces como tortas de outrora?
Para onde foram as Donaldas,
as Clorindas, as Edwigis?
1 083
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