Sol amanhecer e pôr do sol

Poemas neste tema

Luís Delfino

Luís Delfino

Sanguínea

A Alberto de Oliveira

Longe... vasto horizonte retalhado
De serras cor de um glauco-azul, distante;
Brumas por cima, como véus flutuantes;
Perto... o fragor das músicas do prado.

O acre, o intenso bálsamo exalado
Da mata, onde andam Faunos, como dantes;
Rochedos ideais, e as espumantes
Águas do rio as cristas pendurado.

Um cheiro bom das coisas, que embriaga;
A luz que sobe, sobe, embebe, alaga
O azul enorme; a gárrula manhã,

Correndo a oiro e pérolas as nuvens...
— Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...
Quando isto vir, o que dirá Rembrandt?!


Publicado no livro Algas e musgos (1927*). Poema integrante da série Gravuras.

In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.51
1 456 1
Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

Interior

Poeta dos trópicos, tua sala de jantar
é simples e modesta como um tranquilo pomar;

no aquário transparente, cheio de água limosa,
nadam peixes vermelhos, dourados e cor de rosa;

entra pelas verdes venezianas uma poeira luminosa,
uma poeira de sol, trêmula e silenciosa,

uma poeira de luz que aumenta a solidão.

Abre a tua janela de par em par. Lá fora, sob o céu de verão,
Todas as árvores estão cantando! Cada folha
é um pássaro, cada folha é uma cigarra, cada folha é um som...
O ar das chácaras cheira a capim melado,
a ervas pisadas, a baunilha, a mato quente e abafado.

Poeta dos trópicos,
dá-me no teu copo de vidro colorido um gole d’água.
(Como é linda a paisagem no cristal de um copo d’água!)


Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).

In: CARVALHO, Ronald de. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. (Nossos clássicos, 45). p.34.
3 970 1
Raimundo Correia

Raimundo Correia

Chuva e Sol

Agrada à vista e à fantasia agrada
Ver-te, através do prisma de diamantes
Da chuva, assim ferida e atravessada
Do sol pelos venábulos radiantes...

Vais e molhas-te, embora os pés levantes:
– Par de pombos, que a ponta delicada
Dos bicos metem nágua e, doidejantes,
Bebem nos regos cheios da calçada...

Vais, e, apesar do guarda-chuva aberto,
Borrifando-te colmam-te as goteiras
De pérolas o manto mal coberto;

E estrelas mil cravejam-te, fagueiras,
Estrelas falsas, mas que assim de perto,
Rutilam tanto, como as verdadeiras...


Publicado no livro Versos e Versões (1887).

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.109.

4 880 1
Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

Meio-Dia

Choque de claridades
Palmas paradas
Brilhos saltando nas pedras enxutas.
Batendo de chofre na luz
as andorinhas levam o sol na ponta das asas!


Publicado no livro Jogos Pueris (1926).

In: CARVALHO, Ronald de. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. (Nossos clássicos, 45). p.62.
2 021 1
Alberto de Oliveira

Alberto de Oliveira

Afrodite

I

Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que vão com o vento os carmes concertando,

O mar, — turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das águas, murmurando,
Como um bosque pagão de deuses, quando
Rompeu no Oriente o pálio da alvorada.

As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas são no verde plano
Tocadas de ouro e irradiações divinas;

O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, à flor de oceano,
Coroada de um círculo de espumas.

II

Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o mármore luzindo
Alvirróseo do peito, — nua e fria,
Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.

Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pérolas, — sorria
Ao vê-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de âmbar no recesso infindo.

Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pêlo
Nas águas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;

Vêm a saudá-la todos, revoando,
Golfinhos e tritões, em larga ronda,
Pelos retorsos búzios assoprando.


Publicado no livro Meridionais (1884).

In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. p. 78-79. (Fluminense
5 244 1
Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

Le pitre châtié

Yeux, lacs avec ma simple ivresse de renaître
Autre que l'histrion qui du geste évoquais
Comme plume la suie ignoble des quinquets,
J'ai troué dans le mur de toile une fenêtre.

De ma jambe et des bras limpide nageur traître,
À bonds multipliés, reniant le mauvais
Hamlet! c'est comme si dans l'onde j'innovais
Mille sépulcres pour y vierge disparaître.

Hilare or de cymbale à des poings irrité,
Tout à coup le soleil frappe la nudité
Qui pure s'exhala de ma fraîcheur de nacre,

Rance nuit de la peau quand sur moi vous passiez,
Ne sachant pas, ingrat! que c'était tout mon sacre,
Ce fard noyé dans l'eau perfide des glaciers.


2 201 1
Vladimir Maiakovski

Vladimir Maiakovski

ADOLESCENTE

A juventude de mil ocupações.
Estudamos gramática até ficar zonzos.
A mim me expulsaram do quinto ano e fui entupir os cárceres de Moscou
Em nosso pequeno mundo caseiro
brotam pelos divãs poetas de melenas fartas.
Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto, aprendi a amar no cárcere.
Que vale comparado com isto a tristeza dos bosques de Boulogne?
Que valem comparados com isto
suspirosante a paisagem do mar?
Eu, pois, me enamorei da janelinha da cela 103
da "oficina de pompas fúnebres
Há gente que vê o sol todos os dias e se enche de presunção.
Não valem muito esses raiozinhos dizem.
Eu, então, por um raiozinho de sol amarelo dançando em minha parede teria dado todo um mundo.


2 562 1
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Sol de Março

dos laivos brancos que há no céu para enfeitar
descendo à fruta já madura do pomar
e arrufando nas varandas
asas negras como as tranças
das meninas que à janela se vão pentear

há campos verdes onde cresce o malmequer
branco, amarelo com o bico o vai colher
e voltando prás varandas
com a flor enfeita as tranças
das meninas que à janela se vão recolher

um sol de Março
um vento fresco
e o canto alegre da fazer o ninho nos beirais
um campo verde
um sol aceso
e as meninas de outros tempos com seus aventais

de telha em telha saltitando sem voar
no espaço aberto agitando o seu cantar
trazem côr para as varandas
trazem laços para as tranças
das meninas que à janela se vão encantar

o sol demora no no calor que faz dormir
o canto é lento é lindo é calma a descobrir
e as meninas nas varandas
os cabelos já sem tranças
debruçadas para os laços que viram cair

um sol de Março
um vento fresco
e o canto alegre da fazer o ninho nos beirais
um campo verde
um sol aceso
e as meninas de outros tempos com seus aventais

um sol de Março
um vento fresco
e o canto alegre da fazer o ninho nos beirais
1 382 1
Miguel Hernández

Miguel Hernández

O sol, a rosa e o menino

O sol, a rosa e o menino
flores de um dia nasceram.
Os de cada dia são
Sois, flores, meninos novos.

Amanhã não serei eu:
outro será o verdadeiro.
E não serei mais além
de quem queira sua lembrança.

Flor de um dia é a maior
ao pé do mais pequeno.
Flor da luz relâmpago,
e flor do instante o tempo.

Entre as flores te fostes.

Entre as flores fico.

1 248 1
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

O Sol em Pernambuco

O sol em Pernambuco leva dois sóis,
sol de dois canos, de tiro repetido;
o primeiro dos dois. o fuzil de fogo.
incendeia a terra: tiro de inimigo).
O sol ao aterrissar em Pernambuco,
acaba de voar dormindo o mar deserto; mas ao dormir
se refaz, e pode decolar mais aceso;
assim, mais do que acender incendeia,
para rasar mais desertos no caminho;
ou rasá-los mais, até um vazio de mar
por onde ele continue a voar dormindo.
*
Pinzón
diz que o cabo Rostro Hermoso (que se diz hoje de Santo Agostinho)
cai pela terra de mais luz da terra(mudou o nome, sobrou a luz a pino);
dá-se que hoje dói na vida tanta luz: ela revela real
o real, impõe filtros: as lentes negras, lentes de diminuir,
as lentes de distanciar, ou do exílio. (O sol em Pernambuco leva
dois sóis, sol de dois canos, de tiro repetido; o segundo dos
dois, o fuzil de luz, revela real a terra: tiro de inimigo).
9 167 1
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Aquele Olhar

Clamei
por muitos amores,
Concederam-me um ao alvorecer,
Mas ele trouxe tanta luz que me ofuscou,
Parecendo demais para meus anseios.
Achei que poderia fugir
Furtivamente sem nada dizer,
Como uma sombra que se escoa
Ante a luz que adentra pela janela.
Mas teus olhos viram-me
ilhado pela visão dessa luminosa manhã,
Inebriado diante da mulher.
Tentei refazer minha trama,
Mas outra trama trazia um desfecho igual
E parecias cantar em silêncio,
O gozo de ver-me sob o jugo do desejo
E te achegaste para dar nó em teu laço.
Na expressão daquele olhar,
Pressenti que seria preciso perder-me
Mergulhando naquelas vagas,
Mesmo sabendo que ora elas alçam,
Ora destroiem o coração de um homem.

901 1
Rossini Corrêa

Rossini Corrêa

Movimento da Terra

O violino da consciência rememora
a música dos pássaros vegetais,
quando, no crepúsculo, o bolaço
de fogo espacial, movimentava-se
vagoroso, e naufragava, sem a
mínima resistência, no oceano
atlântico. Da estátua, Gonçalves
Dias a tudo assistia, comovido...

Como um namorado das estrelas,
certamente conhecendo os mistérios,
esperava, sob paciente convicção,
o retorno, indescritível aurora:
e o bolaço de fogo espacial, azul
cintilava, aquecido no dormitório
marítimo. O poeta, artesão do
eterno, repetia: "onde canta o sabiá!"

762 1
Celso Pinheiro

Celso Pinheiro

Manhã Prestes a Abrir

Manhã prestes a abrir o cálice doirado!
Na casinha de palha andam todos alerta.
Pois antes que a manhã seja uma rosa aberta,
Há de este amor surgir o fruto iluminado!...

Dona Flor com o semblante heril transfigurado,
Tem anseios de mãe... A parteira desperta,
Pitando o seu cachimbo, aguarda a hora certa,
E me diz que não tenha o mínimo cuidado!...

De súbito, porém, a sombra de um perigo...
Eu, pálido, a tremer, minha alegria tolho,
E vou ver o Dr. — velho médico amigo!

Mas ao volver ao lar me comovo e confundo:
Ela, ingênua, a sorrir, mostrando-me o pimpolho,
Sugere-me votivo o seu nome — Raimundo!...

998 1
Sebastião da Rocha Pita

Sebastião da Rocha Pita

Soneto

Soneto

[Mudou o Sol o Berço refulgente,
[ou fez Berço do Túmulo arrogante
[galhardo onde se punha agonizante
[com luz no Ocaso, e sombras no Oriente.

[Não morre agora o Sol, quer diferente
[no Aspecto, se na vida semelhante
[no Oriente nascer menos flamante,
[e renascer mais belo no Ocidente.

[Fênix de raios a uma, e outra parte
[O comunica os incêndios, e fulgores,
[porém com diferença hoje os reparte.

[Nasce lá no Oriente só em ardores,
[no Ocidente a ilustrar Ciência, e Arte
[renasce em luzes, vive em resplendores.

1 240 1
Newton de Freitas

Newton de Freitas

Amo a Luz

Deixa! que a luz invada o meu quarto todinho.
Deixai! Nem que a chuva inunde este campo em redor;
Nem que o vento frio açoite o meu corpo cansado;
Nem que a luz me beije demoradamente.

Eu amo a luz que é ósculo de Deus;
A luz, que é ciência e liberdade!

Sorrio à noite quando um raio de luar
Vem enfeitar o meu sono,
intruso que salta pela minha janela
Porque sabe, talvez, que eu tenho a alma grande
E adoro as ilusões abençoadas.

Quando eu estiver morrendo, direi como Goethe
"Mais luz", e os que me assistirem hão de abrir as janelas
Senão eu os amaldiçoarei no derradeiro instante.

Mas quem sabe como será o meu momento final?
Quem sabe se haverá sol na minha última hora?

Deixai que a luz invada o meu quarto todinho;
A luz que é o beijo de Deus a tocar-me nos olhos,
A luz que traz a poesia para os meus sonhos,

Deixai que a luz espante esta minha tristeza.

820 1
Onestaldo de Pennafort

Onestaldo de Pennafort

Hora Azul

Hora azul. No parque, o ocaso
tem sugestões de pintura.
Crescem as sombras e a alvura
dos cisnes, no tanque raso.

O velho jardim de luxo
parece um vaso de aromas.
Harmonias policromas
sobem dágua do repuxo.

A tarde cai dos espaços
como uma flor, a um arranco
do vento, cai aos pedaços.

E a noite vem... No jardim,
o luar, como um pavão branco,
abre a cauda de marfim.

1 128 1
Paula Nei

Paula Nei

Fortaleza

Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza — a loura desposada
Do sol dormita, à sombra dos palmares.

Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins plantada
Na brancura de místicos altares.

Lá canta em cada ramo um passarinho...
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais.

É minha terra, a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais.

3 141 1
Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

Gato ao Crepúsculo

Poeminha de louvor ao pior inimigo do cão

Gato manso, branco,
Vadia pela casa,
Sensual, silencioso, sem função.

Gato raro, amarelado,
Feroz se o irritam,
Suficiente na caça à alimentação.

Gato preto, pressago,
Surgindo inesperado
Das esquinas da superstição.

Cai o sol sobre o mar.

E nas sombras de mais uma noite,
Enquanto no céu os aviões
Acendem experimentalmente suas luzes verde-vermelho-verde,
Terminam as diferenças raciais.

Da janela da tarde olho os banhistas tardos
Enquanto, junto ao muro do quintal,
Os gatos todos vão ficando pardos.

1 214 1
José Joaquim Medeiros e Albuquerque

José Joaquim Medeiros e Albuquerque

Soneto Decadente

Morria rubro o sol e mansa, mansamente...
sombras baixando em flocos, lentas, pelo espaço...
Um morrer pungitivo e calmo de inocente:
doces, as ilusões fanadas no regaço.

Passa um cicio leve e suave... Num traço,
ave rápida passa súbita e tremente...
A tristeza, que vem, cinge como um baraço
a garganta: o soluço estaca ali fremente...

Lembranças de pesar... Navio que na curva
do mar, de água pesada e funda e escura e turva,
some-se de vagar das ondas ao rumor...

Ó crepúsculos sós! os exilados sentem
a angústia sem igual de amantes que pressentem
o derradeiro adeus do derradeiro amor!

1 186 1
Machado de Assis

Machado de Assis

Stella

Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o último pranto
Por todo o vasto espaço.

Tíbio clarão já cora
A tela do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora

À muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.

Uma por uma, vão
As pálidas estrelas,
E vão, e vão com elas
Teus sonhos, coração.

Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o úmido seio?

Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a névoa fria,
Virá do roxo oriente.

Dos íntimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera.
Em lágrimas a pares.

Do amor silencioso.
Místico, doce, puro,
Dos sonhos do futuro,
Da paz, do etéreo gozo,

De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.

A virgem da manhã
Já todo o céu domina . . .
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã.

1 640 1
Herrique Guerra

Herrique Guerra

O Moringue

O sol que queima as folhas das palmeiras
E os pés caminhantes sobre a areia
O sol que traz o vento e afasta o peixe
Ele não esquentará a água do moringue.
Não há sol no canto desta casa
Há sombras dos luandos que fazem as paredes
A areia do chão traz a frescura da terra
Os caniços do luando têm a frescura
Que trouxeram das terras de Cabíri
Quando, de andar nas canoas, voltamos do mar
E a garganta vem a arder como se era sal
A água do moringue sabe-nos como nada mais.

E, a quem nos pede, com o coração alegre,
Nós a oferecemos, nas canecas de esmalte.

1 618 1
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Amanhecimento

De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.

2 449 1
Esmeralda Santos

Esmeralda Santos

Paisagem do Alentejo

Deserta a estrada. O sol, a pino, abrasa.
Luz, um deslumbramento!
Cortou a solidão um bater de asa
E um velho em seu jumento...

Vamos andando. Na extensão imensa
Perde-se em nosso olhar...
Nenhuma variante. À luz intensa,
Longe... um monte a alvejar...

E sempre, em fatigante simetria,
Oliveiras curvadas,
Rugosas, semelhando à luz do dia
Velhas encarquilhadas.

Só planície monótona e igual
O nosso olhar avista;
E o sol, num monte, a dardejar na cal,
Deslumbra... fere a vista.

Surgem agora, em curva harmoniosa,
Os cerros, as colinas.
Há na paz doce, triste e religiosa,
Unções quase divinas!

Retrocedemos. Sempre a sensação
Do só e da tristeza...
Mas deu a imensidade ao coração
Mais calma e mais grandeza!

À luz poente os cerros oferecem
Mil reverberações:
Tons fortes de violeta, que esmorecem
Em róseas gradações.

Deus! a que veio a minha nostalgia
A esta imensidade?
É grande, eu sei, mas dá-me uma agonia
O horror da eternidade!

(Lisboa, 1934)

992 1
Chagas Val

Chagas Val

O Rio Dentro do Rrio

um rio que se define
no próprio espaço da fala
um rio dentro do rio
no seu leito permanente
jardins acesos nas margens
o áureo arroz explodindo
na manhã leitosa e branca
o milho ergue as espigas
na terra como um luar
o arco-íris entreabre-se
em cores azuis-suaves
como aves que voassem
no redondo silêncio alado.
o rio muge entre pedras
punhais e pontes mais claras
a água canta entre luzes
espelhos e alvas manhãs
mugindo dentro da noite
a foice
de suas águas
ferindo a face
de um espelho
e chove dentro da noite
no aceso silêncio espesso
no espaço aberto da fala
o rio dentro do rio
deságua no próprio curso
no seu uso mais corrente
as flores do rio cantam
abrindo os olhos nas margens
flutua alva a canoa
no metal claro da água
a lua leve no espaço
brota do rio e floresce
por entre margens e margens
à sombra azul do espelho
um fino punhal de prata
cravado no próprio peito
no leito
claro qual pássaro
voando dentro do sonho
e passa leve a canoa
a lua acesa na mata.
o ri dentro do rio
no curso de suas águas
floresce fundo no espelho
no alado silêncio vário
no seu caminho mais claro
é o Longa que se abre
à luz tenra da manhã
por entre pedras e pás-
saros o rio a relva
o riacho

865 1