Paixão
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Cabeça de ouro mortiço
Cabeça de ouro mortiço
Com olhos de azul do céu,
Quem te ensinou o feitiço
De me fazer não ser eu?
Com olhos de azul do céu,
Quem te ensinou o feitiço
De me fazer não ser eu?
1 295
Fernando Pessoa
Se o sino dobra a finados
Se o sino dobra a finados
Há-de deixar de dobrar.
Dá-me os teus olhos fitados
E deixa a vida matar!
Há-de deixar de dobrar.
Dá-me os teus olhos fitados
E deixa a vida matar!
1 332
Fernando Pessoa
O manjerico e a bandeira
O manjerico e a bandeira
Que há no cravo de papel —
Tudo isso enche a noite inteira,
Ó boca de sangue e mel.
Que há no cravo de papel —
Tudo isso enche a noite inteira,
Ó boca de sangue e mel.
1 469
Fernando Pessoa
No ardor que não dista
No ardor que não dista
Mais que a voz e o braço
Da conquista,
No ardor que antecede
A sede
Do novo espaço...
No maior acaso,
No indeciso
Sol no seu ocaso
No siso
Do nodoso [?] atraso.
Mais que a voz e o braço
Da conquista,
No ardor que antecede
A sede
Do novo espaço...
No maior acaso,
No indeciso
Sol no seu ocaso
No siso
Do nodoso [?] atraso.
1 314
Fernando Pessoa
Fomos passear na quinta,
Fomos passear na quinta,
Fomos à quinta em passeio.
Não há nada que eu não sinta
Que me não faça um enleio.
Fomos à quinta em passeio.
Não há nada que eu não sinta
Que me não faça um enleio.
1 639
Fernando Pessoa
Acendeste uma candeia
Acendeste uma candeia
Com esse ar que Deus te deu.
Já não é noite na aldeia
E, se calhar, nem no céu.
Com esse ar que Deus te deu.
Já não é noite na aldeia
E, se calhar, nem no céu.
1 406
Fernando Pessoa
Comi melão retalhado
Comi melão retalhado
E bebi vinho depois,
Quanto mais olho p’ra ti
Mais sei que não somos dois.
E bebi vinho depois,
Quanto mais olho p’ra ti
Mais sei que não somos dois.
986
Fernando Pessoa
Só com um jeito do corpo
Só com um jeito do corpo
Feito sem dares por isso
Fazes mais mal que o demónio
Em dias de grande enguiço.
Feito sem dares por isso
Fazes mais mal que o demónio
Em dias de grande enguiço.
1 401
Fernando Pessoa
Quando compões o cabelo
Quando compões o cabelo
Com tua mão distraída
Fazes-me um grande novelo
No pensamento da vida.
Com tua mão distraída
Fazes-me um grande novelo
No pensamento da vida.
2 266
Fernando Pessoa
...e desse referver me veio
...e desse referver me veio
Mudo aniquilamento da vontade
Paralisada pelo (...) excesso
Do poder do desejo, mesmo sobre
A imaginada força do poder.
Mudo aniquilamento da vontade
Paralisada pelo (...) excesso
Do poder do desejo, mesmo sobre
A imaginada força do poder.
1 095
Jalāl ad-Dīn Muḥammad Balkhī, Rūmī
Vem ao pomar
Vem ao pomar, é chegada a primavera.
Há vinho, luz e namorados na romãzeira.
Se não vieres, estes não têm importância.
Se tu vieres, estes não têm importância.
Há vinho, luz e namorados na romãzeira.
Se não vieres, estes não têm importância.
Se tu vieres, estes não têm importância.
1 286
Nizâr Qabbânî
sobre o amor marinho
sou o teu mar, senhora minha,
e não me perguntes da viagem
nem do tempo da partida e da chegada:
só tens de
esquecer os impulsos da terra
e obedecer às leis do mar
e entrar-me como peixe enfurecido;
racha o navio em dois pedaços
e o horizonte em dois pedaços
e a minha vida em dois pedaços
Nizâr Qabbânî
(tradução de André Simões)
916
Abu Ishaq Ibrahim Ibn Sahl al-Isra’ili al-Ishbili
Um belo rapaz
Muitas vezes um belo rapaz de lábios rubros
me pergunta sorrindo: – qual a tua religião?
Eu lhe respondo: em teu amor encontro minha fé,
meu paraíso, meu Deus e minha eternidade.
Tradução de Paulo Azevedo Chaves, in "Nus" (Editora Comunicarte, 1991).
me pergunta sorrindo: – qual a tua religião?
Eu lhe respondo: em teu amor encontro minha fé,
meu paraíso, meu Deus e minha eternidade.
Tradução de Paulo Azevedo Chaves, in "Nus" (Editora Comunicarte, 1991).
794
Isabel Câmara
Hora sagrada
Te espero.
Sob o travesseiro
a tesoura segura
o Ouro
o Trigo
o abraço ligeiro
de quem tem cheiro
das coisas pagãs
anãs sob o linho fino
o vinho rastreiro.
Faço a feira
vivo beirando a beira
da Orgia
que pia, escorrega,
cortando ligeira
a noite do dia que me alivia.
E aí só cria
meu mundo de fantasia
Agora vê se não chia
Você não é minha tia.
Sob o travesseiro
a tesoura segura
o Ouro
o Trigo
o abraço ligeiro
de quem tem cheiro
das coisas pagãs
anãs sob o linho fino
o vinho rastreiro.
Faço a feira
vivo beirando a beira
da Orgia
que pia, escorrega,
cortando ligeira
a noite do dia que me alivia.
E aí só cria
meu mundo de fantasia
Agora vê se não chia
Você não é minha tia.
849
Wallâda bint al-Mustakfî
Quando anoitecer espera pela minha visita
Quando anoitecer espera pela minha visita
pois a noite é quem mais guarda segredo.
O que sinto por ti é tal que se fosse o Sol, não nascia,
e a lua cheia não se erguia e as estrelas deixavam de girar.
(tradução de Nádia Bentahar e André Simões,
publicada originalmente naRevista Ítaca número 2)
713
Juan Gelman
Sefini
Basta
por esta noite fecho a porta
no saco onho
guardo os papelitos
onde não faço senão falar de ti
mentir sobre teu paradeiro
corpo que me faz tremer
1 643
Gustavo Adolfo Bécquer
Rima X
Os invisíveis átomos do ar
ao redor palpitam e se inflamam,
o céu desfaz-se em raios de ouro,
a terra se estremece alvoroçada,
ouço flutuando em ondas de harmonias
rumor de beijos e bater de asas,
minhas pálpebras se fecham ...
Que sucede?
É o amor que passa!
ao redor palpitam e se inflamam,
o céu desfaz-se em raios de ouro,
a terra se estremece alvoroçada,
ouço flutuando em ondas de harmonias
rumor de beijos e bater de asas,
minhas pálpebras se fecham ...
Que sucede?
É o amor que passa!
3 508
Bruna Lombardi
Pacto
entre o teu signo e o meu
existe uma possibilidade
de veneno
umas tintas de vermelho
meu moreno
e se a paixão há de ser provisória
que seja louca e linda
a nossa história.
existe uma possibilidade
de veneno
umas tintas de vermelho
meu moreno
e se a paixão há de ser provisória
que seja louca e linda
a nossa história.
2 489
Juan Gelman
Foto
Na fotografia que teus olhos tornam doce
há teu rosto de perfil, tua boca. teus cabelos,
mas quando vibrávamos de amor
debaixo da maré da noite e do clamor da cidade
teu rosto é uma terra sempre desconhecida
e esta fotografia o esquecimento, outra coisa.
há teu rosto de perfil, tua boca. teus cabelos,
mas quando vibrávamos de amor
debaixo da maré da noite e do clamor da cidade
teu rosto é uma terra sempre desconhecida
e esta fotografia o esquecimento, outra coisa.
1 832
João Melo
Dunas
Dunas brancas dunas
onde
altivo
brilha o sol;
tuas nádegas
Dunas firmes dunas
onde
célere
pulsa o sangue;
Dunas doces dunas
onde
trémulo
sucumbo ardendo;
tuas nádegas
suaves frescas e belas
onde
altivo
brilha o sol;
tuas nádegas
Dunas firmes dunas
onde
célere
pulsa o sangue;
Dunas doces dunas
onde
trémulo
sucumbo ardendo;
tuas nádegas
suaves frescas e belas
1 300
Antonio Fernando De Franceschi
Esteio
te palmilho
perfiladas coxas
contra vento e marés
te percorro
mediterrâneo
promontórios
te amparo a fronte
e o espasmo
— ato final
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
perfiladas coxas
contra vento e marés
te percorro
mediterrâneo
promontórios
te amparo a fronte
e o espasmo
— ato final
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 339
Max Martins
Minha Arte
pois que há uma canção em ti
submarina
uma promessa
de água e soma
um som premissa Eu
Eros
quero
te dizer, disseminar, minar-te
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
submarina
uma promessa
de água e soma
um som premissa Eu
Eros
quero
te dizer, disseminar, minar-te
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
1 655
Afrânio Peixoto
Disparidade
Derrete-se o gelo.
Porém se resfria a água:
Ela fria, eu ardo...
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
Porém se resfria a água:
Ela fria, eu ardo...
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
1 302
Felipe Larson
UMA IMAGEM EM DUAS CORES
Noites de insônia só penso em você
Não vejo a hora de o dia nascer
Noites de agonia, eu me ligo em você.
Quando estou sentado de frente a TV
Uma imagem para se ver
Em apenas duas cores no entardecer
O amor não vem de longe no amanhecer
Ele vem surgindo pra eu na te esquecer
E eu não vou te esquecer
Não!
Não vejo a hora de o dia nascer
Noites de agonia, eu me ligo em você.
Quando estou sentado de frente a TV
Uma imagem para se ver
Em apenas duas cores no entardecer
O amor não vem de longe no amanhecer
Ele vem surgindo pra eu na te esquecer
E eu não vou te esquecer
Não!
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