Mudança e Transformação

Poemas neste tema

Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Trignometria

Entre muitos aplausos e vivas,
ela se fez triângulo
e voltou às páginas de Euclides.

918
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Da Vida

Na vida sou um guerreiro.
Entro na luta de alma e corpo inteiro.
Da vida, sou um filósofo.
Fascinam-me os mistérios da alma
e os caprichos do destino.
No amor, fui atleta, um fauno,
e hoje sou um poeta.

948
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Esta Noite

Sonhei que eras uma borboleta,
E da lua desceste num facho de luz,
E repousaste nas nuvens,
E delas partiste em uma lágrima
de chuva,
E nas areias do mar te
transmutaste em sereia
E durante a madrugada me
seduziste
E pela manhã, quando despertei,
estavas a meu lado.

919
Lucila Issa

Lucila Issa

Beyond the Invisible

Os olhos
sentem e distinguem:
real ou outro sonho
você, você e eu.

Neste lado,
remoto é aprender a voar:
se cair vai crer e ver,
mudar a noite,
além da realidade.

648
Fernando José dos Santos Oliveira

Fernando José dos Santos Oliveira

Florismundo

Florismundo

Mundo,imundoe mudo,muda!Muda e,em muda,te faz flor.

1 037
Fernando Cereja

Fernando Cereja

São Paulo

casca de árvoreseca do cimento concretoevolução

885
Esther Moura

Esther Moura

Piedosa Mutação

Pedi aos Deuses do fogo,
do Inferno e do Trovão,
queimassem os sonhos passados,
que estavam no coração.

Os Deuses tiveram dó,
e, vendo meu sofrimento,
queimaram os sonhos doridos,
no fogo mais violento!

As chamas subiram aos céus,
nas asas fortes do Vento!
São hoje rosas vermelhas,
brilhando no firmamento!

648
Elisa Sayeg

Elisa Sayeg

Ode à Palavra

Muda
saga
de larvas

e bagos
de uva,
roxas

gotas
sonoras
de chuva.

776
Emílio Moura

Emílio Moura

Renúncia

Se eu cheguei a esta renúncia total, foi porque o meu sofrimento me transfigurou sem que eu o percebesse.
Aqui estou, tímido e humilde.
Parece que aqui estou há séculos.

Meus olhos já não compreendem outra realidade.

A realidade que amei dorme na sombra.

1 032
Donizete Galvão

Donizete Galvão

Anil

Pedra tocada por Yves Klein,

em que borda do poço

se perdeu?

Em que veio de mina

ficou incrustada?

Por que a pálpebra se fechou

quando deveria estar aberta?

Por que não foi feita

a pergunta certa?

Onde o mantra

que faz surgir Tara,

caminhando hierática

sobre a muralha?

Em que noite adormeci verde

e acordei Saara?

983
Deborah Brennand

Deborah Brennand

Sempre Algumas Léguas Restam

Em todos os sítios
o vento arranca as folhas secas.

Assim, também é certo
a cerca, mesmo caindo, seguir a terra.

Só o rio desata nós de água
em ramalhetes de pedra.

E sempre algumas léguas restam
para chegar ou partir

na claridade dispersa.

1 094
Daniel Loureiro

Daniel Loureiro

Oscilações na Linha Tênue da Loucura

O impulso
fazia de mim
avulso.
Depois cedi
ao pulso e ele
me mantinha
aqui assim.
O discurso
que me possui
agora é outro;
é o torto
de volta à superfície.

864
Cláudio Feldman

Cláudio Feldman

Joana D’Arc

incensoque perfumadepois de queimado

1 107
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Da Estação Nordeste

A paisagem era uma lixa.
Mas uma chuva cheia de listras
foi cobrindo de veludo
as ossadas as pedras tudo

779
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Matéria de Consumo

Quando a primeira luz
caiu no primeiro olhar
nunca mais a paisagem foi a mesma

790
Birão Santana

Birão Santana

Em minhas Cinzas

A fênix
renasceu
das própias cinzas.
Tu
em mim
renasceste das cinzas.
Eu,
diante do sentimento por ti,
renasci
das cinzas.
Me vislumbrando
crescendo
te vislumbrei
como fênix
renascendo
em minhas cinzas.

1 039
Birão Santana

Birão Santana

Respingos em Queda

Respingos
de nova hora
ousam cair
no agora.
Repúdio.
Alarido.
Repulsão.
Asco...
Os
respingos
se recolhem
re-enxugam a terra
onde ousaram cair.
Esperam
o fulgir da aurora,
a queda da madrugada,
para recair.

993
Antônio de Oliveira

Antônio de Oliveira

Décima

Tanto Pirene chorou
Que em fonte se converteu:
Mas Diana que a ofendeu
Por que em fonte a transformou?
Porque como desejou
Ter uma fonte perene
(Qual a famosa Hipocrene)
De Pirene a fonte faz:
Porque no nome já traz
O ser perene Pirene.

1 227
Antônio Massa

Antônio Massa

Prelúdio às Faces do Poema

Eis que de repente
as marcas da vida sumiram
e restou apenas a paisagem mais pura
de tão pura
assustou
mas a ela me entreguei
e pude ver os espelhos
assim como em um parque
onde nos vemos
em todas
as formas
e todas
são tantas
que não nos descobrimos
mas sim nos perdemos...

... em nós mesmos

677
Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Como um Archote

Vem tudo à superfície.
Como se
dentro da casa
um maremoto levantasse
as pedras todas, uma a uma; como se
no centro, iluminadas,
as esferas rodassem
no seu eixo — tudo
de repente se inclina, tudo arde
nesta fogueira acesa
como um archote de sangue, uma lua
de enxofre.

1 111
Marcial

Marcial

V, 76 - A CINA

Tanto bebeu Mitrídates veneno
Que mal nenhum já lhe poder fazia.
Tal como tu: de sempre cears tão mal,
Não podes, Cina, já morrer de fome.

556
Marcial

Marcial

IV, 7 - A HILO

Porque ontem que tu davas, hoje, ó Hilo, negas,
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?

1 061
Lope de Vega

Lope de Vega

CANTAR DE CEIFA

CANTAR DE CEIFA

Tão branca tanto que eu era,
quando entrei para ceifeira;
deu-me o sol, fiquei morena.

Tão branca soía eu ser
antes de vir a ceifar,
mas não quis o sol deixar
branco o fogo em meu poder.
No tempo do amanhecer
era eu brilhante açucena:
deu-me o sol, fiquei morena.

1 219
Antonin Artaud

Antonin Artaud

Qui suis-je?

Qui suis-je?

Doù je viens?

Je suis Antonin Artaud

et que je le dise

comme je sais le dire

immédiatement

vous verrez mon corps actuel

voler en éclats

et se ramasser

sous dix mille aspects

notoires

un corps neuf

où vous ne pourrez

plus jamais

moublier.

1 986