Morte e Luto

Poemas neste tema

Herberto Helder

Herberto Helder

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queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
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Herberto Helder

Herberto Helder

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e eu, que em tantos anos não consegui inventar um resquício
metafísico,
ponho todo o empenho no trânsito das minhas cinzas:
oh retretes terrestres com destino final nas grandes águas
marítimas:
glória atlântica,
índica megalomania das tripas!
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Herberto Helder

Herberto Helder

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mesmo assim fez grandes mãos, mãos sem anéis, incorruptíveis,
e aplicou-as nas matérias virgens,
escreveu algumas palavras numa folha fechada escreveu-as
oh milagre na folha estanque, e elas
transbordaram:
morreu disso
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Herberto Helder

Herberto Helder

Olhos Ávidos

olhos ávidos,
áridos olhos quando tudo tem de ser novo para de novo ser soberbo,
e é esse o êrro de que ressuscito:
e depois morro
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Herberto Helder

Herberto Helder

Alto Dia Que Me É Dedicado

alto dia que me é dedicado,
mais altas são as frutas se me atrevo a olhá-lo,
no tumulto da alfazema onde aos poucos enquanto morro,
do açafrão enquanto morro aos poucos,
e o oxigénio explode
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Herberto Helder

Herberto Helder

Traças Devoram As Linhas Linha a Linha Dos Livros

traças devoram as linhas linha a linha dos livros,
o medo devora os dias dia a dia das vidas,
a idade exasperada é ir investindo nela:
a morte no gerúndio
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Herberto Helder

Herberto Helder

Pedras Quadradas, Árvores Vermelhas, Atmosfera

pedras quadradas, árvores vermelhas, atmosfera,
estou aqui para quê porquê e como?
e mal pergunto sei que morro todo entre pés e cabeça,
e restam apenas estas linhas como sinal do medo:
pó, poeira, poalha
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Herberto Helder

Herberto Helder

Ele Que Tinha Ouvido Absoluto Para As Músicas

ele que tinha ouvido absoluto para as músicas sumptuosas do verso
livre
ouvia a cada nó de sílaba
um silêncio de morte
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Capítulos Maiores da Minha Vida

os capítulos maiores da minha vida, suas músicas e palavras,
esqueci-os todos:
octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela
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Herberto Helder

Herberto Helder

E Eu Que Não Sei Através de Que Verbo

e eu que não sei através de que verbo me arranquei ao fundo da placenta até à ferida entre as coxas maternas,
e roubei o oxigénio todo à minha volta próxima,
furiosamente,
eu que procuro corpo a corpo o nada disso tudo,
não sei nada,
digo: olhar a morte incalculável,
toda,
agora na hora próxima, súbito, atónito,
e agarrado a tudo
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Herberto Helder

Herberto Helder

As Manhãs Começam Logo Com a Morte Das Mães

as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
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Rui Queimado

Rui Queimado

Pois Que Eu Ora Morto For

Pois que eu ora morto for
sei bem ca dirá mia senhor:
       - Eu sõo Guiomar Afonso!

Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
       - Eu sõo Guiomar Afonso!

Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
       - Eu sõo Guiomar Afonso!
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Afonso X

Afonso X

Falar Quer'eu da Senhor Bem Cousida

Falar quer'eu da senhor bem cousida,
qual nunca foi outra nem há de seer,
que os seus servidores mui bem convida
em tal logar u nunca ham de morrer.
Desto sõo certo que nom foi falida
e cada um hav'rá o dom que meter
e pois houverem daqui a morrer
salra[m] da mort[' e] entrarám na vida.
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Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

Depois de fuzilado

Depois de fuzilado
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
pra gritar
convicto
um último viva de revolução
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Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

TELEFONEMA

Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade
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Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

Problema existencial

Como esperar que você compreenda
o milagre da carne
abrindo espaço, fibra a fibra
a partir de meio centímetro de vida?

A vida,
meu filho,
é mesmo uma ferida.

(No flanco de um ciclo
ela se abre
para nos dar
e receber.)

Por que a caveira tem dente?
Mamãe, a caveira foi gente?
O olho da caveira, cadê?

A terra comeu.
A terra comeu.
A terra comeu.
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Sérgio Medeiros

Sérgio Medeiros

O passeio dos bichos

– então o piolho se foi
saltando

– um sapo o engoliu
e se foi pulando

– uma cobra os etc.
e se foi coleando

– um falcão os etc.
e se foi voando

– até o final da viagem
ou do passeio…
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Daniel Lima

Daniel Lima

Eu sou a metáfora de mim

Eu sou a metáfora de mim.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.

Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
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Renato Rezende

Renato Rezende

O Bicho

Me misturo ao mundo absurdo,
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.

Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.

No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?

Sou uma alma em sua jaula.


Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
603
Renato Rezende

Renato Rezende

Corte

[ ]

La vraie vie
est absente.

] [

Mas onde
é isso?
Na Abissínia?
Na morte?

[EU NÃO VOLTO!]
898
Renato Rezende

Renato Rezende

Ruínas

Algo me prende ainda
à vida
e espero que passe.
Algo me prende à vida—é o amor
e a arte;
e espero que logo passem.
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Renato Rezende

Renato Rezende

Águas

Passam pássaros longínquos
no alto da órbita azul de Copa.

Desde a praia eu os olho.
Não
haverá mais nada a fazer.

O corpo flutua sobre as águas
claras, que aos poucos
entram pelo nariz, pela boca,
sem que sequer sinta ou se mova.

Nada passado pelas retinas,
ou pelos ouvidos, degustado,
nada escrito,
nenhum sentido
terá serventia.
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Renato Rezende

Renato Rezende

Aroma

a S.M.A.


Atravesso o jardim, mas páro
para cheirar as flores.
Logo não sentirei perfume algum
porque estarei morto --
ainda estarei neste jardim
mas não terei um corpo.


Nova York, 12 de julho 1996
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Renato Rezende

Renato Rezende

Ao Redor do Fogo

O fogo consome
a madeira
na lareira ardente.
Enquanto um outro fogo
chamado tempo
nos consome
-- mais lentamente.


Nova Jersey, fevereiro 1996
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