Literatura e Palavras

Poemas neste tema

Herberto Helder

Herberto Helder

Rosa Esquerda, Plantei Eu Num Antigo Poema Virgem

rosa esquerda, plantei eu num antigo poema virgem,
e logo ma roubaram,
logo me perderam o pequeno achado,
mas ninguém me rouba a alma,
roubam-me um erro apenas que acertava só comigo,
um umbigo, um nó,
um nome que só em mim era floral e único
1 049
Rodrigo Emílio

Rodrigo Emílio

PREFA(S)CIO II

De entre todos os motivos
porque sulco os loucos trilhos
de extermínio
em que me abismo,

sobressaem, sempre vivos:

os meus livros,
os meus filhos
e o fascínio
do fascismo.
859
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Rui Martiiz, Pois Que Ést[E] Assi

- Rui Martĩĩz, pois que ést[e] assi
que vós já mais [nom] quisestes viver
em Leon e nos veestes veer,
dized'agora vós um preit'a mi,
Rui Martĩĩz, assi Deus vos perdom.
[...]
624
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

Cinegética

Um caçador
perdeu a cedilha
e por isso
sua mulher
nunca mais
quis ir à caça
com ele
sem cedilha
732
Antônio Olinto

Antônio Olinto

V

A paisagem
Nesse ínterim
esvaziam-se as palavras
inúteis
vindas na enxurrada
em queda no vazio
de listas e sinais.

Sem elas
desaparece o pleno sentido
some ajusta aceitação
de morros e flores
de rios e mares
e ao longo da planície
as palavras renascem
para que delas saia de novo
a paisagem.
576
Antônio Olinto

Antônio Olinto

IV

Faço-me palavra
Ave Palavra,
faço de meu corpo uma árvore em que pouses
faço-me palavra eu também
divido-me nas sílabas necessárias
com tímbales e cânticos
vestir-me-ei por inteiro de palavras
que só existo quando através de ti.
Ave Palavra.
704
Daniel Lima

Daniel Lima

Eu sou a metáfora de mim

Eu sou a metáfora de mim.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.

Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
602
Renato Rezende

Renato Rezende

Mudo

A linguagem é tudo
para o homem, não há mundo
fora dela, a linguagem
me recobre, e quando forço
a passagem, quando forço
o que em mim diz “não posso
mais”/ caio
fundo
poço
de silêncio murro:

MUDO
1 041
Renato Rezende

Renato Rezende

Combustão

aét
as
p la vr a a s
s e
d e i v l sso m
677
Renato Rezende

Renato Rezende

Dejetos

O homem pensa, fala, e se é algo
é pela palavra.
Mas o SOLTO é mudo.
Todo esse esforço de linguagem:
mais próximo da página
do que supúnhamos.

Salto
da linguagem:
não-falo.

Como o fogo deixa cinzas,
deixo esses versos.

A poesia: dejetos.
896
Renato Rezende

Renato Rezende

Outros Dias

Eu sou o melhor amigo para mim mesmo.
Os dias passam, e esse fluir, lento,
que se espraia, e se abre, e quase pára
é a via que vai me tirar daqui.
De vez em quando escrevo um poema.
787
Renato Rezende

Renato Rezende

O Quarto

Aqui ficará a mesa,
e nessa gaveta
os novos poemas que escreverei;
aqui a vitrola
e os discos;
ali os livros,
a cama, a cadeira, a roupa,
a máquina de escrever.
Aqui (por quanto tempo?)
passará minha vida.


Boston, setembro 1990
688
Renato Rezende

Renato Rezende

Mito

Para viver o homem é preciso
Refazer a Beleza e o Amor.
A Beleza é mito; e o Amor, mito.
Reescrever a palavra, o mito.
O homem se debate dentro do mito:
Por você, poesia, eu sinto
O ódio maior, mais bonito.
982
Renato Rezende

Renato Rezende

Concepção

(Como em "Las ruinas circulares"
o sonhador sonha e é sonhado),
O homem criou Deus, da criatura
Sendo criado. Pai e filho
Em um espelho mítico unificado.
Assim, num tempo estático e revertido
Nasceram, escritor- e escrito, da poesia.
(Como misteriosamente é Fátima
mãe e filha do o poeta:
Filho da sua filha.
1 052
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

NUMA FESTA

Creio ter ouvido certo.
Alguém do grupo junto

à janela pronunciou,
enquanto eu observava,

apenas por fastio,
o deslizar de um peixe

amarelo no aquário, sozinho,
a palavra sodomita.

Nunca a ouvira antes.
Pareceu-me grave — naquele

lugar,
naquele instante e nos dias

seguintes —,
bíblica.


525
Reynaldo Jardim

Reynaldo Jardim

Brilhos

A palavra brilha
(repentina brilha)
onde repentina
fulgurante brilha?
Na boca do estômago,
na garganta seca,
no ar respirado,
na vulva, na teta.
Onde dá o bote
e sacode o guizo?
Na fronte, na mente,
lábios ou juízo?
É a castanhola?
Cascavel safada?
— Crótalo!
E a sua faca
já está cravada.
726
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

SETE PEÇAS ACADÊMICAS VI

Por mais que se fale ou pense
ou escreva, eis o veredicto:
sobre o que não há de ser dito
deve-se guardar silêncio.

Ser, não-ser, devir, dasein,
ser-pra-morte, ser-no-mundo:
Valei-me, são Wittgenstein,
neste brejo escuro e fundo
sede minha ponte pênsil,
escutai o meu não-grito:
pois quando não há o que ser dito
deve-se guardar silêncio.
703
Marco Lucchesi

Marco Lucchesi

Ubi es, Vita

O sono de Leopardi
o verbo de Clarice
e a sombra de Cioran

Vida vida
eis o botim
dos que reclamam vida
680
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

sombreiro

sombreiro braseiro sombreiro braseiro sombreiro
eiro eiro eiro eito eito eito sombreiro braseiro
sombreiro sombrabrasil sombrabobrasil
sombrabobrasilis brasilis brasilis
brasilis brasilis brasilis
sombrasilis silis
silis silis
sil sil sil
lis
lis
lis
somsemeiranembeira
631
Carlos Soulié do Amaral

Carlos Soulié do Amaral

Verba V

O poema
surge, averba,
grafa e segue

         Em ti, leitor,

a quem a chama
foi entregue
com suor e com amor.
713
Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

das amizades distantes

o poeta escreveu algo
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara

ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou

fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
607
José Bento

José Bento

Os Poemas que Escrevas

Os poemas que escrevas,
ainda que muitos, são
um só
inacabável,
interceptado um dia:

sufocante abertura por onde irás descendo
a um poço, uma vertigem, com uma única saída

que enfim vislumbrarás
quando já não tiveres olhos
670
António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

Argila do sono

A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos

Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
603
Hélia Correia

Hélia Correia

2.

Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois séculos antes, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.
1 192