Dor e Desespero

Poemas neste tema

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Desculpa Para Uma Possível Imortalidade

se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia

o que é que faremos com
ela?

mendigar nas ruas?

eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 142
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Keats

A thing of beauty is a joy
For ever, Keats exprimiu.
Mas ele próprio sentiu
Quanto essa alegria dói.
1 052
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Poema de Finados

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemintério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
2 383
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Conto Cruel

A uremia não o deixava dormir. A filha deu uma injeção de sedol.
— Papai verá que vai dormir.
O pai aquietou-se e esperou. Dez minutos... Quinze minutos... Vinte minutos... Quem disse que o sono chegava? Então, ele implorou chorando:
— Meu Jesus-Cristinho!
Mas Jesus-Cristinho nem se incomodou.
2 283
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Canção do Suicida

Não me matarei, meus amigos.
Não o farei, possivelmente.
Mas que tenho vontade, tenho.
Tenho, e, muito curiosamente,

Com um tiro. Um tiro no ouvido,
Vingança contra a condição
Humana, ai de nós! sobre-humana
De ser dotado de razão.
1 438
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Tema e Voltas

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento.
Cheira a flor da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?
1 181
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Imagem

És como um lírio alvo e franzino,
Nascido ao pôr do sol, à beira d'água,
Numa paisagem erma onde cantava um sino
A de nascer inconsolável mágoa...

A vida é amarga. O amor, um pobre gozo...
Hás de amar e sofrer incompreendido,
Triste lírio franzino, inquieto, ansioso,
Frágil e dolorido...
1 458
Marina Colasanti

Marina Colasanti

MULHERES SUICIDAS

Mulheres suicidas
mulheres despidas varando
a vidraça
mulheres no espaço baço
do formicida
cabeça no forno sem fogo
cabeça servida
pescoço quebrado pendente
da viga
cadeira caída
gilete na veia esvaída
mulheres suicidas
sem rumo
sem brida
entregando as chaves
da vida.
496
Marina Colasanti

Marina Colasanti

HORA DO EMBARQUE

Respirou fundo
descalçou sapatos
agarrou-se perdida nos metais.
E com olhar viajante
já sem volta
ou perdão
embarcou suspirando
na balança.
969
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Quando Viajas

Viajas, e desespero.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
925
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Ansiedade, 1983

Eu vi um homem
matar um animal
e ninguém o defendeu.
Eu vi um homem
matar outro homem
e ninguém o defendeu.
Eu vi um povo
exterminar outro povo
e ninguém o defendeu.
Prevejo homens
destruindo o mundo inteiro
e ninguém para detê-los.
Ninguém.
Nem você nem eu.
Nem Deus.
1 035
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Pistoia

Como podiam guerrear aqui
entre castelos e vinhedos?
Atirar granadas, estuprar camponesas
como podiam?
Sangue nenhum torna tão fértil a terra
que faça brotar sob essas cruzes
o que morreu, o que morreu
naquela áspera estação.
1 101
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

O Deus de Santa Fina

Santa Fina, aos 10 anos, doente,
se meteu num catre
e morreu de paixão pelo Senhor.
Depois de morta, fez milagres
e os fiéis, por isto, vêm à igreja em seu louvor.
– Por que Deus tem que matar
uma menina de 10 anos
para nos mostrar seu amor?
1 105
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Linguística

Diz o linguista:
– “a palavra cão não morde”.
Morde.
Saí com a perna sangrando após a aula.
Diz o linguista
– “a palavra cão não late”.
Late
e não me deixa dormir
com seus latidos.
Diz o linguista
“a palavra cão não come”.
Come
e se alimenta de minha carne.
1 163
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Amor E Ódio

Amor, te odeio
pelo que me fazes sofrer,
te odeio
porque não paro
de te querer,
te odeio porque sofro,
e, vivo, morro,
te odeio porque
em ti naufrago
quando era de ti
que tinha que vir
o meu socorro.
1 216
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLV

O amarelo dos bosques
é o mesmo do ano passado?

E se repete o vôo negro
da tenaz ave marinha?

E onde termina o espaço
se chama morte ou infinito?

Que pesam mais na cintura,
as dores ou as lembranças?
951
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXII

Que significa persistir
no beco da morte?

No deserto do sal
como se pode florescer?

No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?

Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
955
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXXI

Ou deitam-no para dormir
sobre seus arames farpados?

Ou lhe estão tatuando a pele
para abajures do inferno?

Ou mordem-no sem compaixão
os negros mastins do fogo?

Ou deve de noite e de dia
viajar sem trégua com seus presos?

Ou deve morrer sem morrer
eternamente sob o gás?
1 024
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXX

Qual o trabalho forçado
de Hitler no inferno?

Pinta paredes ou cadáveres?
Ou fareja o gás de seus mortos?

Lhe dão de comer as cinzas
de tantos meninos calcinados?

Ou lhe deram desde sua morte
de beber sangue em um funil?

Ou lhe martelam na boca
os arrancados dentes de ouro?
903
Stela do Patrocínio

Stela do Patrocínio

Eu não queria me formar

Eu não queria me formar
Não queria nascer
Não queria formar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber de viver
Não queria saber da vida

Eu não tive querer
Nem vontade para essas coisas
E até hoje eu não tenho querer
nem vontade para essas coisas
668
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Tempos sombrios

Servida a sinfonia
poderíamos nos sentar.
Cruel é o azul: de um buquê
de vidas
Surge a guerra.
Panejamento sinistro...
Todos pisam em crianças que
fôram.
571
José Saramago

José Saramago

Nesta Secreta Guerra

Nesta secreta guerra em que persisto,
Tudo está certo, não desejo paz.
E se nem sempre fujo ao velho jeito
(Herdado doutra era)
De bater com os punhos no meu peito,
Não é por gosto de gritar desgraça,
Mas porque a vida passa,
E mesmo quando aceito,
O coração à espera desespera.
941
José Saramago

José Saramago

Não Há Mais Horizonte

Não há mais horizonte. Outro passo que desse,
Se o limite não fosse esta ruptura,
Era em falso que o dava:
Numa baça cortina indivisível
De espaço e duração.
Aqui se juntarão as paralelas,
E as parábolas em rectas se rebatem.
Não há mais horizonte. O silêncio responde.
É Deus que se enganou e o confessa.
1 047
José Saramago

José Saramago

Oceanografia

Volto as costas ao mar que já entendo,
À minha humanidade me regresso,
E quanto há no mar eu surpreendo
Na pequenez que sou e reconheço.

De naufrágios sei mais que sabe o mar,
Dos abismos que sondo, volto exangue,
E para que de mim nada o separe,
Anda um corpo afogado no meu sangue.
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