Corpo

Poemas neste tema

Marcial

Marcial

Tu depilas o peito

II,62

Tu depilas o peito, as pernas e os braços,
à volta do caralho cortas o pêlo curto,
para agradar, Labieno (quem o ignora?) à tua amante.
Mas a quem queres tu agradar, Labieno, ao depilar o cu?

III,71

Dói o caralho ao teu escravo
E a ti, Névolo, o cu.
Mesmo sem ser adivinho
sei bem de que raça és tu!

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Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Jardins Secretos

A Goya
Além do espaço que o corpo esculpe
existem abismos.

São segredos que vão se consumindo
em silêncio como cera
no calor da vida

são silêncios de uma cor tão clara
são como flores.

Como são pássaros
as almas.

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Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Como um

Como um
livro
Folheei o
teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice.

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Almeida Garrett

Almeida Garrett

com a polpa dos dedos

com
a polpa
dos dedos
abro
o teu sorriso
gota
a
gota

até desmoronar
as vigas
dos meus olhos

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Carlos Fino

Carlos Fino

a teia do olhar

as duas mãos no rosto

descrevo-te o silêncio sob os lábios
juntos
agora celebrando as delicadas sedes
e rindo sobre a haste
onde a saliva tarda

o tacto é uma arma onde o esplendor devora
os sinuosos dedos
e paira sobre o ardor
onde incendeio os pulsos

o amor é uma dança
a demolir-me o peito

755 1
Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 28

Ah, disseste bem. Amar para sobreviver
à razão de luz. Chegamos a casa e as janelas
recobrem o mar e o esquecimento do vulto.
Deitamos os corpos no sofá sem televisão,
ordenhamos o anti-cristo pela guerra ausente.
Despimo-nos, mostramos ao tempo o nosso
sexo, ordenamos-lhe que afunde a escuridão.

965
Rui Costa

Rui Costa

Medo

Furo-te os olhos com os dedos magoados
como-te
torpor de medo as luas verdes
mordem-me a boca
do teu peito sobe o halo nacarado
a essência fútil das flores mortas
e novamente o medo
de nunca mais voltar a ser perfeito

575
Isabel Mendes Ferreira

Isabel Mendes Ferreira

respiro-te devagar

respiro-te devagar
tenho medo da memória
da música e da inclinação da garganta

suspensos os dedos
curvos os beijos
o teu peito podia ser um navio.

então é devagar que eu chego
ao abrigo das palavras
debaixo de chuva
perdida no bosque.

não acordes. a tua presença é mais doce
quando te beijo doce. simplesmente.
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Herberto Helder

Herberto Helder

5B

Os tubos de que é feito o corpo,
os tubos violentos,
os turvos tubos de chumbo,
enche-os o ouro lírico, sensível, alquímico:
o luxo o luxo
— e só então o corpo é monstruoso.
659
Herberto Helder

Herberto Helder

4P

Mergulhador na radiografia de brancura escarpada.
Arboreamente explosiva.
Busca na constelação salina a flor
que traga na boca
de bailarino. Uma bolha árdua, estelar, à tona
do corpo e da onda.
A morte confundida fora e dentro.
Quando não há palavra que se diga e apenas uma imagem
mostre em cima
os trabalhos e os dias submarinos.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Arabico-Andaluzes - a Noz

É uma envoltura formada por duas peças maravilhosamente unidas: pálpebras
que o sono fecha.

Quando as separa uma faca, surge uma pupila que o esforço de olhar torna
convexa.

E o interior é comparável ao interior de uma orelha, com suas pregas e
esconderijos.
910
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Arabico-Andaluzes - o Nadador Negro

Nadava um negro num lago, através de cujas límpidas águas se viam as
pedras do fundo.

Tinha o lago a forma de uma íris azul de que o negro era a pupila.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Canções de Camponeses do Japão - Lírio

O corpo deitado do meu amante,
vi-o eu esta manhã:
na planície do quinto mês,
um lírio aberto!
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Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Arabico-Andaluzes - Os Jarros

Pesados eram os jarros, mas quando os encheram de vinho puro,

tornaram-se leves, e quase levantaram voo com sua carga preciosa, do
mesmo modo que os corpos se aligeiram com os espíritos.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Ii I

Músculo, tendão, nervo, e o peso da veia que leva,
entre caos e mecânica,
o sangue da memória ao aparelho de mármore
fechado, contínuo, poderoso,
brilhando de tremor molecular por fora
e de sangue recôndito.
918
Herberto Helder

Herberto Helder

I G

Se te inclinas nos dias inteligentes — entende-se
como neles se forma a seda, como
no corpo se forma o vestido.
Seda e carne fundidas pelo sangue uma na outra.
O nome é: pulsação da luz.
E tu danças a quantas braças de labareda —
a mais fechada, mais aberta
zona
espasmódica: ar revolvido em redor
da pedraria atiçada.
996
Herberto Helder

Herberto Helder

V A

Dentro das pedras circula a água, sussurram,
ouve-se, ficam escuras,
frias,
tocamo-las: abalam-nos,
e os ramos de sangue dos dedos ao coração,
à cabeça,
arrefecem os nossos nomes, lento
alimento da morte.
987
Herberto Helder

Herberto Helder

Ii J

Dias pensando-se uns aos outros na sua seda estendida,
inteligentes para dentro do que há nos dias:
faíscas do ar, o ar braço a braço,
e no meio dos braços, no mais compacto
da claridade e da carne: o sangue que entra e sai por um lento
canal negro.
1 164
Herberto Helder

Herberto Helder

21

e eu, que em tantos anos não consegui inventar um resquício
metafísico,
ponho todo o empenho no trânsito das minhas cinzas:
oh retretes terrestres com destino final nas grandes águas
marítimas:
glória atlântica,
índica megalomania das tripas!
949
Herberto Helder

Herberto Helder

73

ata e desata os nós aos dias meteorológicos, dias orais, manuais,
irredimíveis,
mais que sangue agudo da mão à língua,
que fruta acerba desmanchada
entredentes,
oh trabalha-me, intuito
lírico,
por fora esses dias manuais,
por dentro troca tudo meu tão certo secretário assim como um sufôco
ou isso
986
Herberto Helder

Herberto Helder

53

mesmo sem gente nenhuma que te ouça,
poema intrínseco dito a português e dentes,
a sangue desmanchado,
com a estria lírica a fervilhar de riscas
rudes, frescas, roucas,
tu que como que iluminas pela boca fora
1 036
Herberto Helder

Herberto Helder

32

para que venha alguém no estio e lhe arranque o coração,
e o devore,
e o gosto seja tão abundante que lhe magoe a boca
e tudo quanto nela se apoie:
soluço, respiração, idioma,
e abale os modos nada cuidadosos do corpo:
o fruto onde o cacto se concentra,
o cacto que frutifica uma só vez na vida
584
Herberto Helder

Herberto Helder

12

sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
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Herberto Helder

Herberto Helder

3

do saibro irrompe a flor do cardo,
flor amarela,
entre o cascalho estelar amadurece a lua,
mãe há só uma:
que pela mesma vulva expulsa
mijo, mênstruo e filho
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