Consciência e autoconhecimento
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.
Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.
E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.
18/05/1922
Fernando Pessoa
Quem diz ao dia, dura! e à treva, acaba!
E a si não diz, não digas!
Sentinelas absurdas, vigilamos,
Ínscios dos contendentes.
Uns sob o frio, outros no ar brando, guardam
O posto e a insciência sua.
21/11/1928
Fernando Pessoa
Sepulto vive quem é a outrem dado.
E quem ao outrem que há em si, sepulto
Não poderei, Senhor, alguma vez
Desalgemar de mim as minhas mãos?
1921
Fernando Pessoa
Vive sem horas. Quanto mede pesa,
E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
Cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala.
08/09/1932
Fernando Pessoa
Eis-me em mim absorto
Sem o conhecer
Bóio no mar morto
Do meu próprio ser.
Sinto-me pesar
No meu sentir-me água...
Eis-me a balancear
Minha vida-mágoa.
Barco sem ter velas...
De quilha virada...
O céu com estrelas
É frio como espada.
E eu sou vento e céu...
Sou o barco e o mar...
Só que não sou eu...
Quero-o ignorar.
12/05/1913
Fernando Pessoa
Solene passa sobre a fértil terra
A branca, inútil nuvem fugidia,
Que um negro instante de entre os campos ergue
Um sopro arrefecido.
Tal me alta na alma a lenta ideia voa
E me enegrece a mente, mas já torno,
Como a si mesmo o mesmo campo, ao dia
Da imperfeita vida.
31/05/1927
Amália Bautista
Pensaram que era a paciente esposa
Pensaram que era a paciente esposa
e um herói. A que espera noite e dia
tecendo e destecendo. A que ignora
que nunca volta o mesmo que partiu.
E apenas sou uma maldita aranha.
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 1
a luz é a metáfora do verbo,
a matéria escura. ilumina
as paredes da água, é como
um vidro com as imagens
do avesso. o animal furtivo
que instaura a violência,
a mãe ao redor do silêncio.
Rui Costa
Narciso
No rio a tua imagem parece menos tua:
A memória é uma líquida mensagem de aloendros
e o teu opaco ardor apenas o resultado disso:
Um coração já pasmado de algum travo
mordendo uma outra água com vértices ao fundo.
Não te iludas. O que tu vês és mesmo tu:
Restos de um homem às portas de outro homem
e o futuro de olhos baixos, o mar a ver.
Amália Bautista
Ela
Ela sou eu também. Mesmo sem querer,
mesmo não querendo uma nem outra,
somos uma só e a mesma. Mas ela trai-me
quando escreve por mim, quando não se conforma,
quando quer tudo.
Ela, a das lágrimas de raiva,
a que nunca te beija com meus lábios.
Isabel Mendes Ferreira
da viagem secreta
Herberto Helder
Ii J
inteligentes para dentro do que há nos dias:
faíscas do ar, o ar braço a braço,
e no meio dos braços, no mais compacto
da claridade e da carne: o sangue que entra e sai por um lento
canal negro.
Herberto Helder
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nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
Herberto Helder
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em cheio no alvo porque o não vejo:
por pensamento e paixão,
ou porque foi tão sentido o vento a luzir nos botões dos salgueiros
como se atirasse do outro lado do vento,
ou na solidão de um sonho,
ou como se tudo fosse o mesmo: flecha e alvo —
e
cego
acerto em cheio:
porque não quero
Herberto Helder
2
ressalto de luz no bolso,
entre orvalho e fogo colhido de fresco na sua árvore,
escondido rápido enquanto se foge,
sem a mancha ainda da moda e do modo,
queimava o bolso contra a carne,
queimava pela carne algo menos fácil que ela,
que do seu pouco diamantífero cada qual faz o que pode
Herberto Helder
Vida Aguda Atenta a Tudo
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
Herberto Helder
Rosa Esquerda, Plantei Eu Num Antigo Poema Virgem
e logo ma roubaram,
logo me perderam o pequeno achado,
mas ninguém me rouba a alma,
roubam-me um erro apenas que acertava só comigo,
um umbigo, um nó,
um nome que só em mim era floral e único
Herberto Helder
As Luzes Todas Apagadas
— e se alguém está no escuro e súbito reluz lá dentro,
alguém fremente?
Mário-Henrique Leiria
TELEFONEMA
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade
Renato Rezende
07.04.05
Percebo que a iluminação é menos um mergulhar (numa realidade maior) e mais um
explodir de dentro para fora.
É uma pressão que vem de dentro.
Que me expulsa de mim mesmo.
A parte que resiste sou eu. É preciso permitir que essa outra energia (que não é o eu que
estou acostumado a ser) tome posse.
Daniel Lima
Ao nasceres
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste
Daniel Lima
Eu sou a metáfora de mim
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
Daniel Lima
Há misérias nos homens
Os anjos cantam nas nuvens.
Era Sexta-feira Santa
Cristo morria.
Judas se enforcava.
E eu tomava sorvete.
Renato Rezende
Outros Dias
Os dias passam, e esse fluir, lento,
que se espraia, e se abre, e quase pára
é a via que vai me tirar daqui.
De vez em quando escrevo um poema.
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