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Poemas neste tema

Mário Dionísio

Mário Dionísio

Ode

Oh tempo de hoje
a tua face
é odiada
por milhões

Quem não te amaldiçoou
ao menos uma vez?
e não crispou
as mãos e o rosto ao menos uma vez
ao remoinho impiedoso
das tuas contradições?

Meu tempo meu tempo
feito de braços decepados
com gritos reprimidos
tua poesia de dentes cariados
teus sonhos desmentidos
e ainda sempre amados

Vêem-te o esgar
Vivem-te o bafo pestilento
todos te odeiam Sim

Mas eu amo-te tempo
dos meus dias
e dou-te com fervor
a toda a hora
o mais profundo e mais inolvidável
que há em mim

1 572 1
Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho

Poema

A que morreu às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
Teve a sorte que quis,
Teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
Depois dum saque — antes a deu
A quem lha desejou,
Na lama dum reduto,
Sem náusea mas sem cio,
Sob a manta comum,
A pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
Entre champanhe, aos generais senis,
As horas de lazer.
Não quis, ativa e boa, tricotar
Agasalhos pueris,
No sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
Num heroísmo branco,
De bicho de hospital,
A aflição dos aflitos.

Uma noite, às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
À hora tal, atacou e morreu.

Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.

1 145 1
Lauro Leite

Lauro Leite

Os Tempos

Tinha uma porção de anjos
segurando o algodão daquela nuvem branca;
e o que pintou de azul o fundo,
manchou de cinza o fim dos nossos olhos
e nos beijamos,

Tinha um lago calmo
e o vento sussurrava malícias,
o peixe prata luar de agosto saltou
e nos amamos.

Tinha o fogo dos infernos,
um Lucifer danado
e homens se matando;
eu tinha lágrimas nos olhos
e tu também choravas
quando nos deixamos.

377 1
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Nunca Mais!

Ó castos sonhos meus! O mágicas visões!
Quimeras cor de sol de fúlgidos lampejos!
Dolentes devaneios! Cetíneas ilusões!
Bocas que foram minhas florescendo beijos!

Vinde beijar-me a fronte ao menos um instante,
Que eu sinta esse calor, esse perfume terno;
Vivo a chorar à porta aonde outrora o Dante
Deixou toda a esp’rança ao penetrar o inferno!

Vinde sorrir-me ainda! Hei de morrer contente
Cantando uma canção alegre, doidamente,
À luz desse sorriso, ó fugitivos ais!

Vinde beijar-me a boca ungir-me de saudade
Ó sonhos cor de sol da minha mocidade!
Cala-te lá destino!... “Ó Nunca, nunca mais!...”
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Egito Gonçalves

Egito Gonçalves

Noticias do Bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
Tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos — contrabando — aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
— único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos do silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
e segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os viveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se.

1 524 1
Guilhermino César

Guilhermino César

Campeiro de Minas Gerais

Campeiro mulato de sol
Você que dormiu
sem medo de bruxos, sacís-pererês
botando a cabeça fervendo de amores
no couro estendido...
Você não ouve ali perto
de dia de noite
a barulheira da boca da mina?

São filhos da nossa terra também.
Largaram a boiada no morro
serenatas nas ruas familiares
e foram pra noite de ferros tinindo
procurar a lua de metal
escondida nas montanhas duras
saltando depois nos cadinhos...

Você não está ouvindo o ruído dos pilões na baixada
triturando a pedra que vem do fundo
nos vagonetes ligeiros ?

E aquele suor que os companheiros estão suando...
A gente pensa que é sangue
mineiro campeiro!
Eles deixaram a casa sonhando riqueza
e agora estão magros e feios.

Como você dorme bem
cansado das lidas campeiras.
Eles nem podem dormir sossegados:
a mina não fica sozinha um momento.
Mineiros que saem
mineiros que vêm
as máquinas sempre rodando.

Campeiro queimado de sol
vai ver o trabalho dos seus companheiros
nas galerias de ar frio
na noite constante!
Mineiro das minhas Gerais
você não acorda?
Vai ver o trabalho dos outros mineiros
dos mineiros-mineiros enterrados na mina
ouvindo os patrões em fala estrangeira.

919 1
Jorge Barros Duarte

Jorge Barros Duarte

Menino de Timor

Menino de Timor, estás triste?!...
Porquê?!... - Não tenho com quem brincar!
Nem com quem!... Já nem posso falar!...
A minha terra correste e viste

Como só há silêncio e tristeza!...
Assim é na palhota que habito!...
Já nem oiço na várzea um só grito!...
Só vejo gente que chora e reza!...

Que saudade que eu tenho dos jogos
Da minha aldeia agora deserta!...
O "Lao-rai", que a memória esperta,
Coas pocinhas na terra, ora a fogos

Mil sujeita!... O "caleic" também era
jogo apreciado da pequenada:
"Hana-caleic"!... de tudo já nada
Resta agora!... Só vejo essa fera

De garra adunca e dente aguçado
A rugir tão feroz que ninguém
A doma já, pois tem medo não tem
De um povo à fome, sem horta ou gado!...

Menino, sou, mas sofro já tanto
Como se fora de muita idade
E coa alma cheia só de maldade!...
Jesus, tem pena deste meu pranto!...

Jesus Menino, dá-me alegria!...
Se na minha terra é tudo tão triste!...
Gente tão má neste mundo existe?!...
Coisas assim tão ruins?!... Não sabia!...

3 099 1
Epitácio Mendes Silva

Epitácio Mendes Silva

Promessas

Promessas, guerras, conflitos,
fazem a hora da existência
e a certeza é uma só:
o amanhã será sombrio !

Promessa que não se cumpre
vai matando a esperança
e a guerra que busca a paz
traz a insegurança da paz.

Felizes os loucos e inocentes
que vivem das fantasias
e que das promessas não conhecem
o lado das traições.

879 1
Fahed Daher

Fahed Daher

Drogado

Você procura um novo modo
de viver,
mas como?
Apenas protestando no que existe?
e insiste
que este modelo de viver não é legal!
"Vagal!""
Quer reformar o mundo aos seus conceitos...
Direitos?
Que direitos você quer?
De andar solto pelo mundo sem destino
e deitar
a qualquer tempo com uma mulher...

Stop! Pare! Pense um só minuto:
O puto
é o que perdeu o campo da auto estima
e acusa
o mundo que lhe impõe uma recusa...
Cabelo "pank",
camisa desbotada,,
a " tchurma", a droga
o resto é só cagada...

Se o mundo está errado?
Sabe lá se o certo é ser tarado...
E o segredo pra nossa inteligência
do que é a vida e o que é a evolução
que nos tirou do espaço
no ato da criação?!
Se está errado ou não, na sua opinião,...
Sua visão do mundo ,
com olhos vesgos da alma,,
com múltiplas visões que fogem
de toda realidade
pôr certo que o confundem
e enquanto vai,se afunda,
não vê toda a sujeira,
da própria bunda.

Não será pela sua indisciplina
em cada esquina,
bebendo e se drogando
que o mundo ,ao seu querer, vai se mudando.

Houve mudanças sim,
pêlos séculos e séculos, no esforço
de filósofos,cientistas e de reis,
no esforço da pesquisa e do trabalho,
não pelo paspalho
no qual você se faz
carregando no crânio imbeciloide,
pouco neurônio
e muito espermatozoide.

Pare e pense em Pasteur,em em Ghandi ,em Buda
em Braile em Jesus Cristo
e peça ajuda
aos espíritos que estão à sua roda,
dos seus pais,talvez,dos seus avós.
E, bravo,como heroi de si mesmo,
levante a voz,
olhando para o céu das tempestades,
dos raios ,das eternidades,
e grite com vigor:
Eu quero reviver.Reviverei.!
Sem ser plebeu e sem querer ser rei,
no vigor da minha mocidade,
na angústia de buscar felicidade
achando o amor de Deus,
sendo feliz aqui

915 1
Antônio Massa

Antônio Massa

Eu, Papel

Amarelado semblante tortuoso
redefinido na manhã do meu ser
difuso e frágilforte no todo
retratado no torneio interior
onde o prêmio sou eu
que me perdi
n’eu

Sou batida acidental, porém compassada
ao painel de refúgio e angústia
estragando ao som dos fungos
guias de minhas almas

Sou pessoa trânsfuga
que apoio eu inimigo
Eu paragem e transgressão

Eu sou quantos? Não sei tanto!
Talvez nada
talvez tudo
talvez todos
todos tortos

Sou folha escrita
em branco
dentro do livro de mim

980 1
Frederico Barbosa

Frederico Barbosa

Rarefacto

otra trilogía del tedio

Traducción de Manuel Ulacia
I

Ninguna voz humana aquí se pronunciallueve un fantasma anárquico, demolidor

extensa nada en el vacío de este desiertose anuncia como ausencia, carne en uña

olor silencioso en el viento escarpacorte de un espectro que se posa en el agua

II

Sentía el fin correr en las venas.Hay prisa: veía.Hubo un momento grave.(La película era mala. El cine, repleto.En la luz neblina, escondido, un cigarro.)Imposible escapar al pánico,prever el vacío probable.De pronto: el estallido.Terminal,la conciencia del cero rodando.Estado, condición, estado.Abre:

III

Avasallado por la piedra, insomne,descolorido, el crimen principiaen la alta hora de la noche vacíagana cuerpo en el transcurrir del día.

Gana cuerpo en el transcurrir del día,avasallado por la piedra insomnedolor de náusea delicada e infamede la alta hora de la noche vacía.

Dolor de náusea delicada, infame,en la alta hora en la noche vacíagana cuerpo en el transcurso, en el díaavasallada por la piedra, insomne.

Gana cuerpo en el transcurrir del día,dolor de náusea delicada e infamedescolorido, el crimen principiase alía al tedio impune y se disipa.

Poema em português
1 072 1
Amândio César

Amândio César

Caminhada

Irmãos!
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.

Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.

Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.

990 1
Nicanor Parra

Nicanor Parra

MANCHAS NA PAREDE

Antes que caia a noite total
havemos de estudar as manchas na parede:
umas parecem plantas
outras assemelham-se a animais mitológicos.

Hipogrifos,
dragões,
salamandras.

Mas as mais misteriosas de todas
são as que parecem explosões atómicas.

No cinema da parede
a alma vê o que o corpo não vê:
homens ajoelhados
mães com criaturas nos braços
monumentos equestres
sacerdotes erguendo a hóstia:

órgãos genitais que se ajuntam.

Mas as mais extraordinárias de todas
são
sem dúvida alguma
as que parecem explosões atómicas.

1 268 1
T. S. Eliot

T. S. Eliot

VERSOS DE UM VELHO

O tigre apanhado na armadilha
Não é mais irascível do que eu.
A cauda inquieta não está mais queda
do que eu quando pressinto o inimigo
Contorcendo-se no sangue essencial
Ou pendendo da árvore amistosa.
Quando exponho o dente do siso
O silvo sobre a língua arqueada
É mais de afeto que de ódio,
Mais amargo que o amor de juventude,
E inacessível ao jovem.
Refletido por meu olho dourado
O obtuso sabe que é demente.

Digam-me se não estou contente!

(Tradução
de Lara Fernanda Teles)

1 420 1
Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

Vigília

Uma noite inteira
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia

com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor

Nunca me senti
tão
preso à vida.
2 214 1
Adélia Prado

Adélia Prado

Poema Começado do Fim

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.
3 013 1
José Félix

José Félix

Os teus seios

Os teus seios na palma da mão
são duas laranjas novembrinas
como aromáticas concubinas
a mentir desejos e amor não.

Sorvo o sumo doce e laranjeiro,
prostituido, sim, mas com paixão
os frutos rijos do pomareiro.

Os teus seios na palma da mão.

1 304 1
Age de Carvalho

Age de Carvalho

Vermelho

Tua,
de seda e feno
no transe da metáfora
a fenda soletrada-sol,
vala de luz, vocabulário

Tua, folhagem. O
olho
alcança o Olho,
desce aos infernos:

sonha o cabelo da urna,
o vermelho
da cifra, a ferida
no centro da fogueira

Tua, tua

711 1
Miguel Hernández

Miguel Hernández

Eterna sombra

Eterna sombra

Yo que creí que la luz era mía

precipitado en la sombra me veo.

Ascua solar, sideral alegría

ígnea de espuma, de luz, de deseo.

Sangre ligera, redonda, granada:

raudo anhelar sin perfil ni penumbra.

Fuera, la luz en la luz sepultada.

Siento que sólo la sombra me alumbra.

Sólo la sombra. Sin rastro. Sin cielo.

Seres. Volúmenes. Cuerpos tangibles

dentro del aire que no tiene vuelo,

dentro del árbol de los imposibles.

Cárdenos ceños, pasiones de luto.

Dientes sedientos de ser colorados.

Oscuridad del rencor absoluto.

Cuerpos lo mismo que pozos cegados.

Falta el espacio. Se ha hundido la risa.

Ya no es posible lanzarse a la altura.

El corazón quiere ser más de prisa

fuerza que ensancha la estrecha negrura.

Carne sin norte que va en oleada

hacia la noche siniestra, baldía.

¿Quién es el rayo de sol que la invada?

Busco. No encuentro ni rastro del día.

Sólo el fulgor de los puños cerrados,

el resplandor de los dientes que acechan.

Dientes y puños de todos los lados.

Más que las manos, los montes se estrechan.

Turbia es la lucha sin sed de mañana.

¡Qué lejanía de opacos latidos!

Soy una cárcel con una ventana

ante una gran soledad de rugidos.

Soy una abierta ventana que escucha,

por donde ver tenebrosa la vida.

Pero hay un rayo de sol en la lucha

que siempre deja la sombra vencida.

1 232 1
Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Flores Do Mais

Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
3 513 1
William Butler Yeats

William Butler Yeats

Versos escritos com desânimo

Quando foi a última vez que reparei
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.

(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
1 393 1
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Mais um Dia

(Fragmentos)

Um tiro no escuro, louca
disparada do carro a zunir
dentro da noite,
um piscar de olhos --
e a luz do novo dia ilumina
a oficina do corpo.
O mesmo corpo feito de alma nua,
sangue e humores vários.
Um novo dia igual aos dez mil
novecentos e cinqüenta já percorridos,
gastos à mesa dos bares,
a acumular nas retinas
a imagem velha dos insetos
roendo a carcaça do dia,
jogada na calçada.
Insetos
assustados, à espera do bote,
à espera do berro, à espera
do sapo que os engole
(engoliu!)
e eles não sabem e seguem,
a roer as migalhas grudadas
nas tripas do batráquio.
Dez mil
novecentos e cinqüenta dias
consumidos à distância,
no silêncio do quarto onde rodopia,
há trinta anos,
a mesma velha inútil melodia.
Rodopia nada!
Explode
em gumes,
não resiste ao punho cerrado
que rompe a vidraça
e atravessa a neblina,
só para alcançar no arbusto em frente
o bago murcho que volta
e se espreme entre os dentes
e verte uma gota,
uma só,
a gota perdida
do ódio por tudo e por nada.
Ódio só afago,
inofensivo, guardado no fogo
brando em que me afago
há dez mil
novecentos e cinqüenta dias.

712 1
Alberto de Serpa

Alberto de Serpa

Espetáculo

Passa a tropa na rua e abrem-se as janelas de repente,
Debruçam-se bustos sobre a rua sem importância.
O sol põe resplendores no ouro falso das bandeiras
E rebrilha nas baionetas erguidas para o céu.
Alarga-se no ar um hino de guerra e de heroísmo,
E a marcha certa dos soldados hirtos e compenetrados
de que são outros homens

Faz, a seu compasso resoluto, bater
O coração dos habitantes da rua sossegada ...

Os meninos vêem finalmente marchar os seus soldados de chumbo ...

As moças sonham desfalecer nos braços dos heróis
E agitam os seus lenços ao vento da manhã...

Só dentro de uma janela que há de abrir-se na noite,
Uma mulher triste olha para longe sem ver
E leva o lenço aos olhos encharcados ...

1 394 1
Manuel Alegre

Manuel Alegre

Ser ou não ser

Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?

Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.

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